Quando o líder do gang Mau-Mau, de 76 anos, não voltou à prisão, depois de uma saída precária, o temor voltou a Olhão
Chamava-se gangue dos Mau-Mau de Olhão (numa analogia às chacinas dos rebeldes do Quénia, que na década de 1950 queriam libertar o país do colonizador europeu). Do seu líder fica a imagem do cabelo puxado para trás, escorrido, e fato impecável – no Verão, muitas vezes branco –, sapatos a condizer e no coldre, ou nas mãos, sempre uma arma. António Batista Gonçalves – o ‘Xerife’, como era conhecido –, quando foi detido, em Janeiro de 1998, estava na posse de uma pistola AMT Automag II e de uma Manurhin/Walther Sport, ambas de calibre .22. Apanhou 24 anos de cadeia. Com 76 anos, quando não voltou ao Estabelecimento Prisional Pinheiro da Cruz, após uma saída precária, em Abril deste ano, o líder dos Mau-Mau resgatou do esquecimento uma verdadeira onda de terror. E o medo que infundiu até ser preso, é um fantasma que regressou.
"Imitava a pose dos ‘gangsters’, mas com um aspecto um bocado pacóvio", conta, sob anonimato, quem o conheceu nos anos de 1970, 80 e 90. "As armas não eram só para impressionar, quando era preciso, puxava delas", diz, para justificar o receio em dar o nome.
"Também cultivava uma imagem de Robin dos Bosques, garantia que se ‘tirava’ alguma coisa a alguém era para ajudar quem precisava e que em Olhão nunca fazia nada", conta outra pessoa que conheceu António Batista Gonçalves, que também prefere não ‘dar a cara’.
FEZ UMA CRIANÇA REFÉM
Este retrato romântico que o ‘Xerife’ (alcunha que lhe foi dada por um irmão pelo hábito de andar com uma pistola no coldre) se esforçava por passar era contrariado pela realidade: A 13 de Abril de 2000, apanhou 24 anos de prisão por 28 crimes de furto qualificado, associação criminosa, resistência às autoridades e posse de armas proibidas; negou tudo. Foram julgados com ele dois filhos, uma filha e mais 11 arguidos.
‘Xerife’ era "esperto", o tribunal deu como provado que tinha informadores na GNR, PJ de Faro, PSP de Olhão. O ex-director-geral adjunto da PJ, José Sousa Martins conta que, há mais de 20 anos, foi chamado para coordenar uma equipa cuja única finalidade era ir – em carros dissimulados – de Lisboa a Olhão prendê-lo, e assim escapar aos informadores .
Francisco Moita Flores, que fazia parte desta equipa de quatro inspectores, recorda que estiveram vários dias a estudar as movimentações de ‘Xerife’.
Como ‘fachada’, António Batista Gonçalves e os três irmãos (João, já falecido, Florival e José) montaram em Olhão a padaria Pani 4, numa alusão ao número de sócios. Um dia, às 2-3 da manhã, ‘Xerife’ estacionou à frente da padaria e os agentes que estavam à porta iam prendê-lo. Gritou : "Não quero tiros que eu tenho uma criança comigo com uma arma apontada à cabeça"
‘Xerife’ entrou na padaria. Moita Flores e outro colega arrancaram no carro para bloquear a saída das traseiras. "Ele deparou-se connosco e disparou logo, a uma distância de 30 metros", conta Moita Flores. "Um tiro atingiu o nosso carro e outro atingiu-me no ombro, de raspão", acrescenta. Nessa noite, ‘Xerife’ escapou.
Não tardou a ser preso. Em 1988 foi condenado a quatro anos de prisão por furtos qualificados, detenção de armas de fogo, falsas declarações e falsificação de documentos.
CRIMES VIOLENTOS
Os crimes eram praticados com grande brutalidade. Não contra pessoas, porque a quadrilha preparava tudo para que os assaltos fossem feitos ‘sem testemunhas’. Mas brutalidade na acção. "Eles partiam tudo, rebentavam com portões, com portas", explica fonte policial.
Durante décadas, principalmente nos anos 80 e 90, o gangue dos Mau-Mau espalhou o terror pelo Algarve, com assaltos a todo o tipo de actividades económicas: estaleiros de obras, supermercados, lojas. "Quando os deteve, a PJ apreendeu camiões de material que se acumulou nas instalações de Faro", continua a mesma fonte. "E se ele [o ‘Xerife’] nega parte dos crimes, a verdade é que quando foi preso, em 1998, aquele tipo de assaltos deixou de acontecer no Algarve", defende.
Sousa Martins já era director da PJ de Faro quando ‘Xerife’ foi preso. "Eles caíram nas câmaras de videovigilância da Makro de Albufeira", conta. "A detenção decorreu sem recurso à violência. Não demos hipótese."
ROUBAVAM E VENDIAM
No auge da ‘carreira’, a família entrou na construção civil. "O João foi quem começou nesse ramo, mas na década de 90, quando começou a ficar doente, os outros entraram no negócio", explica uma das pessoas que conheceu a família. Mas em todos os negócios, os fornecedores eram praticamente inexistentes. "Tudo o que roubavam podia aparecer nos negócios que tinham", diz fonte policial.
Os prédios seriam feitos com material roubado. Mas em 1995, quando os quatro irmãos foram julgados por esse crime, conseguiram ser absolvidos.
O antigo inspector da PJ Gonçalo Amaral recorda que a acção dos Mau-Mau no Algarve sempre foi um "grande problema", de tal forma que "houve um juiz, nos anos 80, que meteu na cabeça que ia dar voz de prisão a um dos irmãos. Foi à padaria deles, à noite, sozinho, e acabou dentro do forno, que não estava aceso. O suficiente para que eles fugissem". Histórias como estas criaram a lenda de ‘Xerife’.
João Leal conta como salvou um colega jornalista ameaçado por ‘Xerife’. Cruz Azevedo, redactor regional do extinto jornal ‘O Século’ desaparecera subitamente. Isto ainda nos anos 70. "Um dia fui a casa dele. A mulher dele abriu-me a porta e lá estava ele escondido. Chamou ‘facínora’ ao ‘Xerife’, num artigo, e por isso estava escondido. Fui lá à padaria e o Florival, que andava com um facalhão à cintura, disse-me: ‘Ele tem de apanhar’. Então eu disse-lhe, vocês não batam no homem, ele vem aqui pedir-vos desculpa. E o velho Azevedo lá foi à padaria, para ouvir um correctivo."
Hoje, com 76 anos, ‘Xerife’, a monte há quatro meses, terá cancro. O próprio garantiu, em entrevista à SIC, que, por sua vontade, não volta à cadeia. E assegura "nunca ter posto uma arma à cintura" desde que anda fugido. Por fim, diz-se "inocente" da maior parte dos crimes pelos quais foi julgado.
Afinal, a imagem de Robin dos Bosques não foi propriamente a que ‘Xerife’ deixou. Na padaria, a funcionária limita-se a dizer: "não sei nada". E acrescenta que a família dos Mau-Mau "raramente" lá vai. É impossível falar com eles, é a mensagem passada. "Aqui ninguém diz nada, há muito medo, as pessoas não querem nem recordar", sussurra um popular.
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