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'O bom, o mau e o vilão' outra vez

A odisseia do realizador do documentário sobre o western que foi gravado aqui ao lado, em Espanha

31 de julho de 2016 às 11:50

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Nesta história cabem presunto e vinho, Metallica, um cemitério com cinco mil campas, uma ponte que vai pelos ares antes do tempo, uma campanha de apadrinhamento de lápides e um realizador italiano que se enamorou pelos cenários de Espanha, uma zanga enorme por causa de trombones e muitos quilómetros para se poder filmar um documentário como deve de ser.

A província de Burgos, em Santo Domingo de Silos, foi um dos cenários de Espanha escolhidos pelo italiano Sergio Leone para filmar os seus westerns. Àquela terra coube ser o palco da cena final em que ‘O bom, o mau e o vilão’ levam muitos minutos até resolverem o assunto à bala. Isto foi em 1966.

Em 2016, Guillermo de Oliveira, realizador e produtor de cinema e publicidade, nascido em Vigo em 1986, explicou ao jornal ‘ABC’ que fez muitos quilómetros à procura dos protagonistas e da equipa de Leone para fazer o documentário ‘Sad Hill desenterrado’ e a sua ideia original nem sequer era essa. A ideia era fazer qualquer coisa, que não se podia chamar de documentário, sobre o grupo de carolas que queria recuperar o cemitério onde o italiano rodou o filme.

A odisseia

O sol bate nas lápides do cemitério. Começa o tema final da banda sonora de Ennio Morricone. Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef encaram-se no duelo em que ninguém quer disparar primeiro mas não quer deixar de o fazer.

Para filmar a cena final de ‘The Good, The Bad and The Ugly’ (no original, em português ‘O bom, o mau e o vilão’) foi construído, em 300 metros, o cemitério Sad Hill, com 5000 lápides, graças ao trabalho de soldados. O espaço foi abandonado mas a Associação Cultural Sad Hill reivindica há dez anos a sua importância histórica. Na primeira vez que Guillermo de Oliveira foi ao set da última cena, com a ajuda de um drone, pôde ver que os círculos concêntricos se mantinham intactos, apesar do mato ter entretanto crescido. E resolveu contactar a associação que desenvolvera a campanha de apadrinhamento de lápides por 15 euros a campa, para financiar a recuperação do que acabara de ver.

O facto é que mil apadrinharam as lápides e desde outubro de 2015 há gente a trabalhar na recuperação do sítio, muitos provindos de locais tão inesperados como o Belize. O documentário de Oliveira começou a ser rodado em setembro de 2015, uma semana antes do início da reconstrução, e deverá estrear em outubro próximo.

Com as mortes de Leone, Van Cleef e Wallach, restavam vivos apenas Eastwood e Morricone. Oliveira iniciou uma troca de meses, de e- -mails e faxes para os Estados Unidos da América, em que pedia uma entrevista a Eastwood, de preferência em casa dele. Conseguiu apenas que o ‘bom’ do filme de Leone enviasse um vídeo com respostas. Com Ennio Morricone, de 87 anos, a tarefa não seria mais fácil. "Primeiro disse-nos que não nos dava a entrevista e que fôssemos dar uma volta. Com nova insistência acabou por nos receber na sua casa, em Roma, com um humor de cão. Graças a presunto e vinho e a um documentário sobre Paco de Lucía e ainda à inestimável ajuda da mulher dele, chegamos ao coração de Morricone", que contou a extraordinária zanga com Leone por causa dos trombones no tema que se ouve na cena do duelo. Leone não queria os instrumentos porque expediente igual já tinha sido utilizado pelo compositor nos dois filmes anteriores, mas Morricone insistiu e venceu e os dois homens nunca mais trabalharam juntos.

Quase 50 anos depois da odisseia em Burgos, Guillermo de Oliveira encetou a sua própria aventura épica em quilómetros: falou em Itália com o editor, com o autor do desenho do cemitério concêntrico e ouviu da boca de Sergio Salvatti, o operador de câmara de Leone, sempre apontado como o responsável pela primeira explosão da ponte não ter sido registada em filme. "A explosão produziu-se antes da hora", justificou-lhe, mas em Burgos um dos figurantes jurou que, atrás da câmara, Salvatti adormeceu.

Oliveira pensou entrevistar Quentin Tarantino, sem sucesso, mas pôde viajar para São Francisco nos EUA para entrevistar James Hetfield, dos Metallica, a banda que, desde 1983, abre os concertos com ‘The Ecstasy of Gold’, o tema de Morricone para ‘O bom, o mau e o vilão’.

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