A odisseia do realizador do documentário sobre o western que foi gravado aqui ao lado, em Espanha
1 / 2
Nesta história cabem presunto e vinho, Metallica, um cemitério com cinco mil campas, uma ponte que vai pelos ares antes do tempo, uma campanha de apadrinhamento de lápides e um realizador italiano que se enamorou pelos cenários de Espanha, uma zanga enorme por causa de trombones e muitos quilómetros para se poder filmar um documentário como deve de ser.
A província de Burgos, em Santo Domingo de Silos, foi um dos cenários de Espanha escolhidos pelo italiano Sergio Leone para filmar os seus westerns. Àquela terra coube ser o palco da cena final em que ‘O bom, o mau e o vilão’ levam muitos minutos até resolverem o assunto à bala. Isto foi em 1966.
Em 2016, Guillermo de Oliveira, realizador e produtor de cinema e publicidade, nascido em Vigo em 1986, explicou ao jornal ‘ABC’ que fez muitos quilómetros à procura dos protagonistas e da equipa de Leone para fazer o documentário ‘Sad Hill desenterrado’ e a sua ideia original nem sequer era essa. A ideia era fazer qualquer coisa, que não se podia chamar de documentário, sobre o grupo de carolas que queria recuperar o cemitério onde o italiano rodou o filme.
A odisseia
O sol bate nas lápides do cemitério. Começa o tema final da banda sonora de Ennio Morricone. Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef encaram-se no duelo em que ninguém quer disparar primeiro mas não quer deixar de o fazer.
Para filmar a cena final de ‘The Good, The Bad and The Ugly’ (no original, em português ‘O bom, o mau e o vilão’) foi construído, em 300 metros, o cemitério Sad Hill, com 5000 lápides, graças ao trabalho de soldados. O espaço foi abandonado mas a Associação Cultural Sad Hill reivindica há dez anos a sua importância histórica. Na primeira vez que Guillermo de Oliveira foi ao set da última cena, com a ajuda de um drone, pôde ver que os círculos concêntricos se mantinham intactos, apesar do mato ter entretanto crescido. E resolveu contactar a associação que desenvolvera a campanha de apadrinhamento de lápides por 15 euros a campa, para financiar a recuperação do que acabara de ver.
O facto é que mil apadrinharam as lápides e desde outubro de 2015 há gente a trabalhar na recuperação do sítio, muitos provindos de locais tão inesperados como o Belize. O documentário de Oliveira começou a ser rodado em setembro de 2015, uma semana antes do início da reconstrução, e deverá estrear em outubro próximo.
Com as mortes de Leone, Van Cleef e Wallach, restavam vivos apenas Eastwood e Morricone. Oliveira iniciou uma troca de meses, de e- -mails e faxes para os Estados Unidos da América, em que pedia uma entrevista a Eastwood, de preferência em casa dele. Conseguiu apenas que o ‘bom’ do filme de Leone enviasse um vídeo com respostas. Com Ennio Morricone, de 87 anos, a tarefa não seria mais fácil. "Primeiro disse-nos que não nos dava a entrevista e que fôssemos dar uma volta. Com nova insistência acabou por nos receber na sua casa, em Roma, com um humor de cão. Graças a presunto e vinho e a um documentário sobre Paco de Lucía e ainda à inestimável ajuda da mulher dele, chegamos ao coração de Morricone", que contou a extraordinária zanga com Leone por causa dos trombones no tema que se ouve na cena do duelo. Leone não queria os instrumentos porque expediente igual já tinha sido utilizado pelo compositor nos dois filmes anteriores, mas Morricone insistiu e venceu e os dois homens nunca mais trabalharam juntos.
Quase 50 anos depois da odisseia em Burgos, Guillermo de Oliveira encetou a sua própria aventura épica em quilómetros: falou em Itália com o editor, com o autor do desenho do cemitério concêntrico e ouviu da boca de Sergio Salvatti, o operador de câmara de Leone, sempre apontado como o responsável pela primeira explosão da ponte não ter sido registada em filme. "A explosão produziu-se antes da hora", justificou-lhe, mas em Burgos um dos figurantes jurou que, atrás da câmara, Salvatti adormeceu.
Oliveira pensou entrevistar Quentin Tarantino, sem sucesso, mas pôde viajar para São Francisco nos EUA para entrevistar James Hetfield, dos Metallica, a banda que, desde 1983, abre os concertos com ‘The Ecstasy of Gold’, o tema de Morricone para ‘O bom, o mau e o vilão’.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.