Filho de portuguesa que entrou em morte cerebral três meses antes do parto junta-se à lista de ‘milagres’ da ciência.
Não se sabe como é que S. descobriu que estava grávida. Se teve enjoos, sono, fome, desejos. Ou se foi um teste de gravidez a dar a notícia da gestação. Não se sabe como contou ao companheiro, se era um projeto há muito sonhado ou se foi uma gravidez que apanhou de surpresa o casal. Também não se sabe se já tinham escolhido o nome para o bebé que crescia no ventre de S., se tinham comprado roupinhas em miniatura e mobilado o quarto.
Sabe-se que 15 minutos antes da meia noite de 20 de fevereiro aquela mãe entrou no Hospital de São José, em Lisboa, com uma hemorragia intracerebral, numa altura em que estava grávida de 17 semanas. Encontrava- -se em morte cerebral mas o bebé crescia saudável no útero materno – onde ficou mais três meses (até às 32 semanas), uma espécie de casulo sem vida onde continuou a desenvolver-se até poder nascer, por cesariana, na terça-feira, dia 7 de junho. Veio ao Mundo com saúde, com 2,350 quilos, mas sem uma mãe para o segurar e amamentar nas primeiras horas de vida, olhando para ele certa de estar perante o seu mais precioso tesouro. Nasceu, no entanto, rodeado de cuidados de uma equipa médica que durante mais de três meses fez de tudo para que nada lhe faltasse, uma segunda família de bata branca que o rodeou de cuidados mesmo antes de lhe ver o rosto (tal como as mães durante a gestação). A manutenção da gravidez foi conseguida através do suporte hormonal, nutricional e funcional da mãe.
UM ATO DE AMOR
"Na vida, as questões não são a preto e branco. Temos de saber quais são os valores éticos fundamentais, o que é a preservação da vida e da vontade dos pais, de o ver nascer saudável e a inexistência de prejuízo para quem quer que seja. Temos de ser solidários e ter compaixão por esta família por este ato de amor, uma família que vê nascer uma criança num dia e que no dia seguinte enterra a mãe. Aqui a vida foi posta em primeiro lugar, como deve ser. Pelo direito à busca pela felicidade. Ninguém terá coragem de dizer que isto não é eticamente correto", acredita o juiz Eurico Reis, presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA).
Comparando este caso com o da mulher que pediu autorização para engravidar do marido morto – o casal tinha embriões congelados depois de tratamentos de fertilidade falhados – e viu o pedido recusado em 2015, Eurico Reis considera que as duas situações são completamente diferentes. "Esse caso levantava mais questões, não era inequívoca a declaração de vontade do marido, por isso o desígnio de levar esse processo para diante não estava claro. Aqui uma mulher que está grávida de 17 semanas é obvio que quer que nasça aquele bebé." A decisão de dar a oportunidade da vida ao bebé milagre – já é chamado assim pelo facto de ser caso inédito em Portugal e bastante raro no Mundo – foi tomada em conjunto pela equipa médica e pela família (o pai da criança e os avós maternos).
"Resta interrogarmo-nos sobre o que é que se passou de diferente em termos das trocas metabólicas e emocionais que um bebé tem quando ainda está no ventre materno, se esta ausência que terá havido nesta troca sensorial terá efeitos mais tarde. Não temos hoje dados científicos e seguros para pensar extensivamente quais terão sido os efeitos de alguma coisa que não existiu. Porque o bebé desde muito cedo vai garantindo o preenchimento das conexões e sinapses do sistema nervoso central nas trocas afetivas e emocionais com a mãe", questiona o pediatra Gomes Pedro. Se o pai deste bebé lhe entrasse pelo consultório, o médico diria por isso "para criar esta criança com toda a paixão, tentando compensar o que pelo caminho ficou perdido… podemos especular que alguma coisa não existiu, e não sabemos o que representa essa alguma coisa. Por isso, que este pai esteja presente para a criança, garantindo uma representação parental aos níveis mais ínfimos desde os primeiros tempos de vida: na dimensão motora, emocional, sensorial. A capacidade de adequação do bebe é enorme por isso temos de ser otimistas e muito do que perdeu será compensado com o amor do pai", acredita o especialista.
"Há uma coisa que para mim é inviolável, que é a vida humana, que desde que se faz fertilização in vitro já se sabe quando é que começa. Se foi daquelas células que se juntaram que nós cá estamos, onde é que está a dúvida? Aqui lutou-se pela vida humana e só por isso valeu a pena. Foi uma grande vitória porque é evidente que exigiu cuidados muito especiais e que saiu caríssimo", afirma Gentil Martins, ele próprio responsável por um ‘milagre’ da medicina: separou em 1978 as primeiras gémeas siamesas que sobreviveram em Portugal. As bebés tinham na altura quatro meses e foram submetidas a uma (longa) cirurgia de doze horas, onde tudo eram complicações.
"A palavra ‘milagre’ tem de ser usada no sentido de ‘coisa excecional, de que antes não era possível’, porque, para mim e para o dicionário, ‘milagre’ significa que uma coisa é impossível. Quando comecei a tratar o cancro nas crianças, morriam 80%, agora, salvam--se 80%. Antes das vacinas morria-se de tudo e mais alguma coisa. Isto não são milagres, é a evolução da medicina", diz, pragmático.
Na verdade o que hoje parece milagre, amanhã torna-se rotina. Carlos Saleiro, ex-jogador do Sporting e atual atleta do Oriental, seria um bebé igual a tantos outros, mas por ter sido concebido através de uma técnica de procriação medicamente assistida (fertilização in vitro – FIV) – a 25 de fevereiro de 1986, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa – teve honras de primeira página durante dias seguidos. A revista de ‘O Jornal’ chamava-lhe ‘Um milagre com paredes de vidro’, numa alusão à criação de bebés em tubos de ensaio.
Por essa altura já tinham nascido no mundo 220 bebés-proveta, desde o parto de Louise Brown, em 1978, mas Carlos era o primeiro bebé-proveta português, o que fazia de António Pereira Coelho, o médico que liderou o procedimento clínico, o ‘Doutor-Proveta’. O médico tinha estado em Paris "com o objetivo de trabalhar na sua tese sobre aplicações endoscópicas, mas apercebeu-se de que o futuro passava pela FIV, a técnica de procriação medicamente assistida que consiste na junção dos espermatozoides e óvulos em meio laboratorial e posterior implementação no útero da mulher (...) Regressou de Paris em 1984 com vontade de ser o primeiro. No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, começou a criar a unidade pluridisciplinas de reprodução e a selecionar os casais que tinham indicação para se submeter a um tratamento de FIV", escreve Sandra Moutinho no livro ‘Filhos da Ciência’, editado pela Marcador.
"Este bebé adorável [Carlos Miguel Saleiro] sempre teve alguma dificuldade em entender o interesse em redor da sua figura. Ao lado da mãe, com quem revela grande cumplicidade, o ‘menino milagre’ contou- -me que desde sempre se apercebeu de que o seu nascimento tinha alguma coisa de diferente", conta a autora do mesmo livro.
Em 2012 – o último ano para o qual há dados relativos a este assunto – nasceram em Portugal 2134 crianças com recurso a técnicas de procriação medicamente assistida, o que corresponde a 2,4% do total de nascimentos no País naquele ano, um número em franco crescimento. O que na altura de Saleiro foi um milagre, hoje é uma prática clínica feita tanto no público como no privado por casais que não conseguem engravidar de outra forma e que é assumida com mais naturalidade.
A ciência continua a dar uma ajuda, mas à medida que os anos passam muitos destes ‘milagres’ tornam- -se comuns. Como os bebés que nascem prematuros – há 20 anos, as hipóteses de sobrevivência de um bebé com 500 e 600 gramas eram praticamente nulas. Hoje, em mais de metade dos casos com 25 semanas já é possível completar o trabalho cá fora, com o esforço e dedicação das equipas de neonatologia dos hospitais e uma grande coragem por parte dos pais que veem os filhos nascerem (muito) antes da data prevista.
MÃES MORTAS
O bebé da mãe S., a portuguesa que o Hospital de São José manteve viva até completar oito meses de gravidez, não foi caso único no Mundo. Um dos casos mais mediáticos aconteceu em Oakland, nos EUA, em 1993. Trisha Marshall, de 28 anos, foi atingida a tiro quando fazia um assalto. Mantiveram-na viva três meses e meio. A 3 de agosto de 1993 nasceu um menino, às 32 semanas de gravidez, com 1,8 quilos, e foi desligada a máquina de suporte de vida que a mantinha em condições de servir de casa ao bebé que não chegou a conhecer. Em 2015, Karla Perez, de 22 anos, sofreu uma hemorragia cerebral a 8 de fevereiro de 2015, no Nebraska, também nos EUA. A mulher estava grávida e por isso foi mantida viva no Hospital Metodista por 54 dias. A 6 de abril, nasceu Angel, uma menina, de cesariana, ao mesmo tempo que a mãe foi declarada morta. Nunca a morte e a vida estiveram tão próximas como nestes casos.
Não se sabe como é que S. descobriu que estava grávida. Como contou ao companheiro. Se já tinha escolhido o nome do bebé. Se tinha o quarto mobilado e as roupinhas na gaveta. Mas a equipa médica que durante 108 dias zelou para que o corpo desta mãe fosse uma boa casa para o filho que gerava quer acreditar que S. ficaria feliz com a decisão que tomaram de o fazer viver mesmo sem ela.
FUTEBOLISTA FOI PRIMEIRO BEBÉ-PROVETA PORTUGUÊS
O futebolista Carlos Saleiro nasceu 11 anos após o casamento dos pais. Ao fim de três anos de tentativas para engravidar, o diagnóstico da mãe, Alda, acusou uma obstrução nas trompas de Falópio. Depois de uma intervenção cirúrgica infrutífera, integraram um lote de 11 casais em circunstâncias semelhantes e submeteram-se a um processo até então inédito em Portugal. Só três mulheres conseguiram engravidar e duas delas abortaram. Alda foi a única a manter a gestação até ao fim, a 25 de fevereiro de 1986.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.