O ex-combatente António Paulino conta a guerra que viveu em Moçambique
Logo na primeira operação, um mês e tal depois de termos chegado, mas felizmente não morreu. Outros camaradas ficaram pelo caminho
Assentei praça em Castelo Branco, de Castelo Branco fui para o Porto, do Porto fui para Elvas, depois para Beja, depois para o Batalhão de Cavalaria de Estremoz. Embarcámos no navio ‘Vera Cruz’ a 24 de abril de 1968, parámos em Luanda, em Angola, e só depois fomos para Moçambique, o nosso destino final no Ultramar.
Estivemos em Lourenço Marques, demos ali mais umas voltas e depois o nosso batalhão ficou no norte, em Mueda, na zona pior. Ficámos vinte meses ali, era só ração de combate, só de seis em seis meses ia lá um avião pequenino com umas coisas diferentes para comer mas era muito difícil porque era muito perigoso e por isso não havia grandes tentativas. Era massa, arroz, massa, arroz. E sem dúvida que o mais difícil na minha guerra foi passar fome e sede. Íamos buscar água ao rio, fervíamos hoje e amanhã já estava cheia de bichos tal era o calor. Tomávamos banho naquele rio, na fronteira com a Tanzânia, e sabíamos que os turras estavam do outro lado, mas aí não sentíamos medo, nem dos crocodilos que conseguíamos afastar com a pólvora.
Ali a guerra era diferente.
De vez em quando tínhamos ataques, também fizemos uma operação grande em que éramos mil militares, o comandante dos turras, o Ernesto fugiu para nós e conseguimos apanhar várias toneladas de material. Era uma base de turras mas eles já lá não estavam, o material não o puderam levar.
Vinte meses mais tarde viemos para o Alto Molócué, uma vila perto de Nampula, onde as coisas estavam mais calmas, só que entretanto a guerra rebentou no lago do Niassa, e como tínhamos um capitão que era um tipo ‘porreiro’, depois dos 24 meses de comissão, fomos para lá. Foi terrível porque nessa altura já estávamos à espera do barco para vir para Portugal. Era dia 4 de fevereiro, nunca me hei de esquecer, e só embarcámos em junho de 1970. Aquela zona era muito perigosa.
Mortos e feridos
Perdemos vários homens. Na primeira operação que fizemos em Mueda o nosso capitão Abreu levou logo um tiro na cabeça, um mês e tal depois de lá termos chegado, foi um início difícil para o nosso batalhão, que teve assim o primeiro contacto duro com o Ultramar. O capitão não morreu, felizmente, mas veio logo para a metrópole. Estava na tropa na mesma mas estava na secretaria, a tropa para ele acabou naquela altura. Também sofremos vários feridos, principalmente provocados pelas minas, enquanto os mortos aconteceram durante as operações, quando havia tiroteios. Morreram uns quatro camaradas, que já não regressaram a Portugal. Nós, os que sobrevivemos, chegámos a Lisboa no dia 15 de julho de 1970 e depois fomos para Estremoz onde acabámos por passar à disponibilidade.
E a verdade é que apesar de tudo o que passámos, vimos e vivemos, tornámo-nos quase como uma família, nós, os militares. Ficámos vinte anos sem nos encontrarmos, já nem nos conhecíamos, mas agora vemo-nos todos os anos nos encontros que organizamos para pôr a conversa em dia e lembrar aqueles tempos duros mas de uma grande camaradagem. É a maior alegria que eu tenho é quando é a festa da tropa.
António Paulino
Comissão
Moçambique (1968-1970)
Força
Companhia de Cavalaria 2377
Atualidade
Reformado, tem 69 anos e vive em Odivelas. Casado, tem 2 filhos e 4 netos
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.