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"O nosso capitão levou um tiro"

O ex-combatente António Paulino conta a guerra que viveu em Moçambique

17 de abril de 2016 às 09:00

Logo na primeira operação, um mês e tal depois de termos chegado,  mas felizmente não morreu. Outros camaradas ficaram pelo caminho

Assentei praça em Castelo Branco, de Castelo Branco fui para o Porto, do Porto fui para Elvas, depois para Beja, depois para o Batalhão de Cavalaria de Estremoz. Embarcámos no navio ‘Vera Cruz’ a 24 de abril de 1968, parámos em Luanda, em Angola, e só depois fomos para Moçambique, o nosso destino final no Ultramar.

 

Estivemos em Lourenço Marques, demos ali mais umas voltas e depois o nosso batalhão ficou no norte, em Mueda, na zona pior. Ficámos vinte meses ali, era só ração de combate, só de seis em seis meses ia lá um avião pequenino com umas coisas diferentes para comer mas era muito difícil porque era muito perigoso e por isso não havia grandes tentativas. Era massa, arroz, massa, arroz. E sem dúvida que o mais difícil na minha guerra foi passar fome e sede. Íamos buscar água ao rio, fervíamos hoje e amanhã já estava cheia de bichos tal era o calor. Tomávamos banho naquele rio, na fronteira com a Tanzânia, e sabíamos que os turras estavam do outro lado, mas aí não sentíamos medo, nem dos crocodilos que conseguíamos afastar com a pólvora.

 

Ali a guerra era diferente.

De vez em quando tínhamos ataques, também fizemos uma operação grande em que éramos mil militares, o comandante dos turras, o Ernesto fugiu para nós e conseguimos apanhar várias toneladas de material. Era uma base de turras mas eles já lá não estavam, o material não o puderam levar.

 

Vinte meses mais tarde viemos para o Alto Molócué, uma vila perto de Nampula, onde as coisas estavam mais calmas, só que entretanto a guerra rebentou no lago do Niassa, e como tínhamos um capitão que era um tipo ‘porreiro’, depois dos 24 meses de comissão, fomos para lá. Foi terrível porque nessa altura já estávamos à espera do barco para vir para Portugal. Era dia 4 de fevereiro, nunca me hei de esquecer, e só embarcámos em junho de 1970. Aquela zona era muito perigosa.

 

Mortos e feridos

Perdemos vários homens. Na primeira operação que fizemos em Mueda o nosso capitão Abreu levou logo um tiro na cabeça, um mês e tal depois de lá termos chegado, foi um início difícil para o nosso batalhão, que teve assim o primeiro contacto duro com o Ultramar. O capitão não morreu, felizmente, mas veio logo para a metrópole. Estava na tropa na mesma mas estava na secretaria, a tropa para ele acabou naquela altura. Também sofremos vários feridos, principalmente provocados pelas minas, enquanto os mortos aconteceram durante as operações, quando havia tiroteios. Morreram uns quatro camaradas, que já não regressaram a Portugal. Nós, os que sobrevivemos, chegámos a Lisboa no dia 15 de julho de 1970 e depois fomos para Estremoz onde acabámos por passar à disponibilidade.

 

E a verdade é que apesar de tudo o que passámos, vimos e vivemos, tornámo-nos quase como uma família, nós, os militares. Ficámos vinte anos sem nos encontrarmos, já nem nos conhecíamos, mas agora vemo-nos todos os anos nos encontros que organizamos para pôr a conversa em dia e lembrar aqueles tempos duros mas de uma grande camaradagem. É a maior alegria que eu tenho é quando é a festa da tropa.

 

António Paulino

Comissão  

Moçambique (1968-1970)

Força  

Companhia de Cavalaria 2377

Atualidade 

Reformado, tem 69 anos e vive em Odivelas. Casado, tem 2 filhos e 4 netos

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