Não têm ligações políticas. São artistas urbanos. Fazem graffiti em murais para contestar a política do governo
Onde está Nomen? A esta hora pode estar na rua a grafitar, como sempre. De T-shirt vestida do avesso, para não estragar com os sprays. De boné preto, dos New York Yankees. Nomen, de 38 anos, é um dos ‘writers’ (fazedores de graffiti) que acordou Lisboa – e o País – com três murais de contestação política, em Campolide: ‘Marionetas de Merkel’, ‘Lei do Mais Forte’ e ‘Pray for Portugal’ (reza por Portugal). "Estava na hora de pessoas ligadas à cultura, através do seu trabalho, transmitirem às outras que não estão sozinhas. Criticando e gozando, é uma boa forma", explica o artista. "É quase uma missão social. Mas aproveitar, aproveitar, era fazer um mural na véspera ou no dia da chegada de Angela Merkel." E a chanceler alemã aterra amanhã em Lisboa.
O politólogo José Adelino Maltez descreve estes murais como "pintura de protesto, elitista e requintada". Na sua opinião, o que tem emanado das grandes manifestações dos últimos meses são ‘happenings’ – acontecimentos artísticos. Exemplo disso foram os dois protestos da cantora lírica Ana Maria Pinto: em 21 de Setembro, à porta do Palácio de Belém, no último Conselho de Estado, cantou "Acordai" [poema de José Carlos Ferreira com música de Fernando Lopes-Graça]; e, dias depois, interrompeu as comemorações oficiais do 5 de Outubro para cantar "Firmeza" [Lopes-Graça com poema de José João Cachopel].
"Estamos numa fase requintada de manifestações artísticas", afirma Adelino Maltez. "Isto é criativo, não acontecia antes. Estão a emergir várias vozes que tentam ocupar o lugar da oposição [ao Governo]. Estamos no meio de um movimento que está fora do sistema político, mas que está a ser ouvido pelo próprio PS. Ninguém sabe é prever o que vai acontecer."
Nomen justifica: "O graffiti nunca tem conotações políticas. Mas é uma óptima arma para mostrar o desagrado da população." Acontece que são poucas as paredes onde é legal grafitar – uma é o muro da rua Conselheiro Fernando de Sousa, perto das Amoreiras. "Aquela parede é como se fosse um terreno [para os ‘writers’]. E nós cortámos três talhões. Mas ninguém passa por cima porque as pessoas reflectem através daqueles três murais."
APELO À POLÍTICA
Nascido no ano da Revolução de Abril de 1974, Nomen – conhecido hoje por essa ‘tag’ (assinatura), mas que já a mudou diversas vezes ao ser apanhado em pinturas ilegais – só agora se interessou pela política. "Um activista do Governo Corrupto entrou em contacto comigo através do Facebook. Nós [‘writers’] estamos habituados a fazer graffiti mais realistas que eles – que fazem ‘street bombing’ [desenhos rápidos e mensagens curtas nas paredes]. Depois desta conversa, falei com o Slap [outro ‘writer’], disse-lhe que, se calhar, ia fazer uma cena meio política. Ele é que sugeriu qualquer coisa tipo faroeste."
O primeiro mural a surgir foi a ‘Lei do Mais Forte’ – uma imagem de Pedro Passos Coelho pistoleiro, no Faroeste. Pintaram-no em dois dias Nomen, Slap, Kurtz, Exas e Luka (um turista suíço que se quis juntar). Se fosse um trabalho pago, valeria cerca de dois mil euros. Mas o que conta para estes ‘writers’ é que, na caricatura, o primeiro-ministro "é uma boa personagem para representar a culpa". Principalmente "quando nos vão aos bolsos", explica Nomen.
Kurtz, de 30 anos, também se insurge com o estado do País. "Os políticos fazem o que querem e não lhes acontece nada. A Justiça não age. Nós queremos dizer que, além do mais, eles são umas marionetas: têm outras pessoas e instituições por trás."
Representação deste pensamento é o mural seguinte – feito em dois dias –, com Angela Merkel a segurar duas "marionetas": Passos Coelho e o ministro Paulo Portas. Aqui estão presentes elementos maçónicos que "simbolizam o culto das famílias por trás de Merkel. A maçonaria e os iluminados estão enraizados nos ‘graffs’ desde há muitos anos. O mundo não é só controlado por políticos, há outros interesses", diz Nomen, que sozinho pintou depois o mural ‘Pray for Portugal’ (reza por Portugal).
Mais do que um grito de protesto, os murais são instalações artísticas. Nomen perdeu uma noite a fazer pesquisa e no Photoshop – programa informático de edição de imagem – a fazer o projecto que deu origem ao mural de Merkel. Pintou-o depois com Slap e Kurtz, seguindo a planificação. "Fui à net buscar imagens e transformei em caricaturas. A minha cena não é totalmente realista, é do tipo cartoon", onde junta às imagens a crítica e a sátira.
Para Ana João Sepúlveda, especialista em marketing político, "estas imagens são claramente uma forma de alguns expressarem a sua visão e entendimento da realidade política. Estão a fazer marketing da sua visão política".
O antropólogo Ricardo Campos, autor do livro ‘Porque pintamos a cidade? – Uma abordagem etnográfica do graffiti urbano’, não tem dúvidas de que os três murais de Campolide "sejam diferentes dos que se faziam nos anos 70 e 80, pelos partidos. Estes são uma manifestação dos cidadãos ao expressarem-se politicamente. E é também, um bocado, a falência dos sistemas partidários – os cidadãos deixaram de se sentir representados por partidos políticos".
CONTEÚDO OU ARTE
Nas décadas de 1970 e 80, os murais políticos eram parte da comunicação dos partidos, especialmente de esquerda, explica Ricardo Campos. "Hoje, só o Bloco de Esquerda e, raramente, o PCP recorrem aos muros. E, de resto, quem não tem outra forma de expressão".
Ana Feijão, 29 anos, dos Precários Inflexíveis, reclama esta condição para o grupo activista escrever mensagens nas paredes. "A rua é onde as pessoas se cruzam. É acessível a toda a gente. Pode-se comunicar sem ser cara a cara." A "mensagem é que importa", e não a expressão artística do graffiti, defende. Um dos últimos murais pintados pelos Precários Inflexíveis apelava à lei contra a precariedade, num muro do Hospital Curry Cabral, em Lisboa. Valeu-lhes um processo que decorre em tribunal.
Ana Feijão reclama: "Hoje em dia, o importante é que o espaço público seja usado pelos nichos comerciais. Por isso, uma parede pintada é considerada suja, não vende publicidade."
O antropólogo Ricardo Campos defende que estas mensagens "não têm nada que ver com graffiti". Vê-se pelas diferenças entre os murais de Campolide, que "misturam toda a técnica do graffiti – a narrativa e a expressão visual – com a mensagem política do passado".
O antigo muralista político do MRPP, António Alves, de 55 anos, acredita que o agravar da situação política é responsável por "um novo ‘boom’ de intervenção nas paredes e nos muros. Esta forma de expressão não está sujeita à censura, mas está sujeita à repressão: há multas para quem pinta".
Desde 1975 que António Alves vê a arte urbana "como uma forma de as pessoas mostrarem a sua revolta e não como sendo marginal. Não vivemos agora momentos revolucionários, mas sim de revolta."
Nomen está revoltado. Slap, Kurtz e Exas também. Os fazedores de graffiti estão revoltados. Escudam-se na sua condição de "liberdade " para contrariar a "inércia" de outros artistas – "que estão dependentes de tachos financeiros".
"A mim também me apetecia fazer uma coisa mais revoltosa", confessa Nomen. "Mas temos de ser inteligentes ao tentar passar uma mensagem."
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