José Gameiro esteve na fundação da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar numa altura em que não se ouvia falar de tal coisa em Portugal.
José Gameiro começou a ouvir casais em crise no final dos anos 70 mas admite que, por muito que a sociedade tenha mudado em 40 anos, as problemáticas são muito parecidas hoje ao que eram então. No seu mais recente livro, ‘Talvez para Sempre’ (Ed. Matéria Prima), o psiquiatra fala de amor e desamor, os mesmos temas que estiveram na base desta entrevista.
Chamou ao seu livro ‘Talvez para Sempre’. É uma utopia acreditar num amor para a vida toda?
As pessoas continuam a acreditar que é para sempre quando casam ou quando se juntam, embora racionalmente saibam das estatísticas.
Diz que continuamos à procura do amor ideal que aguente tudo com um sorriso rasgado. É esta expectativa que acaba com as relações?
É o não conseguir lidar com a diferença entre expectativa e realidade. Todos os casais, ao longo da vida, têm fases que aceitam melhor e fases em que aceitam pior essa diferença. Mas em geral, os casais que se conservam conseguem lidar com isso porque aceitam que há coisas que não mudam: Eu não consigo mudar a outra pessoa, a outra pessoa pode mudar alguns comportamentos em nome da relação mas o núcleo duro de cada um de nós está lá.
Diz que os casais têm sete vidas como os gatos. Além de aceitar que as pessoas não mudam, quais são os outros segredos para conseguir viver estas sete vidas?
Os casais com sucesso são os casais que conseguem lidar com as diferenças, conseguem não criticar o outro sistematicamente e conseguem resolver as crises relativamente rápido. É impossível não haver crises na vida de um casal, a questão é quanto tempo é que isso demora a resolver-se. Porque quanto mais se demora a resolver mais mossas deixa uma crise.
A ‘velha’ história dos casais não se deverem deitar chateados?
Às vezes, têm que se deitar chateados e nem sempre é preciso resolver no próprio dia. E às vezes é muito importante não falar das coisas logo. Quando um casal tem uma discussão, há tendência de pelo menos um deles querer continuar a discussão e discutir outra vez a mesma coisa quando as coisas naquela altura estão bloqueadas porque cada um está na sua razão. E às vezes nem é preciso depois fazê-lo, porque as coisas são tão ridículas que não têm significado e dois dias depois as pessoas caem em si e pensam ‘que estupidez, fui discutir por causa disto’.
Quando é que se conhece bem uma pessoa?
A gente na verdade nunca conhece ninguém, conhecemo-nos a nós próprios um bocadinho e já não é mau. Claro que se vai conhecendo a outra pessoa e o conhecer a outra pessoa é importante porque nós ao fim de um tempo de estar com alguém podemos ser cirúrgicos em relação a essa pessoa e volto à questão da crítica: podemos ser cirurgicamente críticos, mas não é suposto ter um casamento com pedras nos bolsos prontas a mandar apesar de eu saber quais são as pedras que ferem se as quiser mandar.
Como se gere o amor com os extras de todas as vidas: as contas para pagar, a carreira, os filhos?
Há alturas em que se gere muito bem e há alturas que se gere muito mal. Eu costumo dizer a brincar que os casamentos têm fases de grande seca. Não há casamentos sem fases de grande seca ou há muito poucos. Por causa do dia a dia, das criancinhas, das famílias de cada um dos lados, tudo isso faz parte da relação. E a dificuldade dos casais é aceitar que essas fases de grande seca existem e que têm que se viver, tem que se lidar com isso para depois virem fases ou dias ou momentos em as coisas são mais empolgantes. Porque também se as relações fossem sempre empolgantes, a gente não fazia mais nada na vida (risos).
Começou a fazer terapia de casal em 1977. Os problemas dos casais eram semelhantes aos de hoje?
Ao princípio, era dificilíssimo, os casais não apareciam, não era fácil aceitarem naquela altura a intervenção. Mas as problemáticas eram parecidas, apesar de as coisas terem mudado um bocadinho, sobretudo as mulheres mudaram imenso. Hoje em dia, as mulheres são quem põe mais em causa a relação, quem diz mais: ‘isto assim não pode continuar’.
Quando põem em causa, é mais complicado do que quando é um homem. As mulheres são mais determinadas, podem demorar mais tempo a pôr em causa, mas quando põem em causa não vem dali coisa boa (risos). Por outro lado, os homens estes anos todos aumentaram em 17 minutos o número de horas em que fazem trabalho doméstico em casa o que não é muito significativo. Mas por outro lado, são mais pais, estão mais próximos das crianças.
Do que é que elas se queixam (e se queixavam) mais deles?
O estereótipo clássico: que eles não sabem exprimir o que sentem, que não ajudam em casa.
E eles, o que lhes apontam?
As coisas sexuais em geral, o que também é um estereótipo. Que estão sempre indisponíveis [para o sexo], sempre com dor de cabeça. Isso continua a existir. Mas os homens hoje são mais faladores, estão a conseguir falar mais do que sentem, estão com mais paciência para ouvir as mulheres a contar as coisas…Estão talvez mais próximos e mais compreensivos.
Dizia que as queixas dos homens se prendem mais com as questões sexuais. São mais fáceis ou mais difíceis de resolver do que as outras?
Depende, é mais complicado se há uma prolongada falta de libido, que muitas vezes começa no pós-parto e que os sexologistas tratam, outras vezes não é nada disso: é o ‘tu não me ligas nenhuma, por isso não há nada para ninguém’, que é uma coisa clássica. Isto resolve-se: se a relação melhorar, a intimidade melhora também. Os casais falam muito pouco de sexo, ao contrário do que se pensa. Só falam um bocadinho secundariamente; quando a relação está tensa, vem à baila aquilo que não funciona. E também não falam de dinheiro.
Mas é importante falar.
Tem que se falar. O sexo, se corre bem, não é preciso falar. Só dizer que está a correr bem e que é bom (risos). Mas todos os casais, de uma forma geral, tiveram problemas sexuais a dada altura. Não são problemas instrumentais, mas sim de redução da libido. Há fases menos interessantes do ponto de vista sexual, fruto da rotina, e é preciso falar disso. E ir passar uma noite ao hotel, para ver se anima. O dinheiro a mesma coisa. Mesmo que tenham dinheiro separado, que cada vez mais têm, devem falar sobre ele.
A traição é a principal causa do fim dos casamentos?
Isso é um mito. Habitualmente, o casal consegue sobreviver a isso e até renasce mais forte depois da traição.
Agora há telemóveis e mensagens de Facebook. A tecnologia veio apressar os divórcios?
Vieram apressar o descobrir as coisas e de uma forma mais barata do que os detetives do passado.
E há casais em situação de conflito que tenham uma vida sexual boa?
São os casais que resolvem as coisas na cama.
As infidelidades explicam-se sempre com falta de sexo em casa?
Não é obrigatório uma relação estar mal para haver infidelidades. Há casais que se dão muito bem sexualmente e há infidelidades. Não tem nada a ver com o casal, tem a ver com as pessoas.
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