O velho doutor Homem, meu pai, dizia – já no seu tempo de plena maturidade – que os velhos 'cavalheiros da indústria' tinham desaparecido. Ele habituara-se a encontrar sinais dessa raça perdida e quase anónima que, pelo Minho fora, espalhara uma indústria deficiente e inócua mas que, pelos padrões da pobre Pátria, era a nossa pequena modernidade.
Culpando o dr. Salazar pela má sorte do destino da Pátria (ele atribuía-lhe defeitos vários, desde as botinas engraxadas até à cegueira dos anos quarenta – o meu pai sonhava com a Inglaterra num país sem lordes nem eleitores), restava-lhe ver virtudes insuspeitas em manifestações do génio produtivo português. Às vezes eram pequenos proprietários enriquecidos na emigração do Brasil, industriais que espreitaram a sua sorte, comerciantes que não se resignaram; nisto, o velho Doutor Homem, meu pai, via a salvação da Pátria, desde que o Estado se não metesse em demasia.
Ele tinha, no fundo, esperança nos ricos dessa época, velhos cavalheiros que deixavam um donativo com que se iriam pagar as fardas de uma banda de música, que pagavam do seu bolso a construção de uma escola copiada dos esquissos de Raul Lino, que exorbitavam e ofereciam uma biblioteca destinada a ser esquecida numa província ignorante, iletrada e preguiçosa. Ele ainda não conhecia os romances de Mrs. Trollope, modelo posterior das novelas românticas passadas no campo inglês – com os seus muros reconstruídos, os seus relvados vitorianos, as suas chuvas arrancadas às páginas das irmãs Brontë. Haveria um castanheiro frondoso (tinha essa obrigação literária) e uma ruína, um caminho entre pastos verdejantes, uma aldeia limpa. Portugal nunca foi assim. Os filhos dos 'cavalheiros da indústria' dedicaram-se à 'engenharia' e habituaram-se a carros caros e a whiskies de má qualidade. Capitalistas de um país sem capitalismo, sobreviveram e legaram fortunas desiguais.
Ao contrário dos seus maiores, que viam na cultura uma exigência de elegância para poderem comportar-se em sociedade, os ricos dos anos setenta ganharam o gosto pelo exibicionismo e um talento desproporcionado para a lassidão e para o desejo de imortalidade, coisas que andam a par. Quando dizia que já não havia 'cavalheiros da indústria', ele era um nadinha proudhoniano, embora não o soubesse. Habituado a desconfiar do dr. Salazar, sonhava com uma 'sociedade' que se liberta pelo talento, pelo esforço e pelo interesse. Ele não viu, e teve sorte, os dias de hoje.
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