Equipa de futebol foi criada para integrar novos estudantes no Instituto Politécnico e acabar com a discriminação
A temperatura é negativa e no campo sintético do Instituto Politécnico de Bragança o gelo começa a aparecer. O treinador Vítor Reis é o primeiro a pisar o campo. Seguem-se os 20 jogadores de futebol, a maioria estudantes africanos que deixaram para trás as famílias e fizeram milhares de quilómetros para tirar uma licenciatura.
O treino tem início. E é intensivo. Os jovens atletas, conhecidos por ‘Africanos de Bragança', lideram o campeonato distrital de futebol e são a sensação na cidade: em seis jornadas, surpreenderam o adversário com cinco magníficas vitórias. Agora, garantem, o objectivo é manter a "humildade".
INTEGRAR ESTUDANTES
O projecto futebolístico, que foi desenvolvido pela Associação de Estudantes Africanos do Instituto Politécnico de Bragança (AEAIPB), é composto maioritariamente por estudantes cabo-verdianos. Mas há também portugueses. As vitórias somam-se tanto dentro como fora de campo. O impulsionador do projecto foi Óscar Monteiro, de 28 anos, que, quando chegou a Bragança, em 2004, vindo de Cabo Verde, foi discriminado pelos outros estudantes e foi, inclusivamente, agredido. O objectivo inicial do aluno e jogador - que frequenta o último ano do curso de Línguas e Relações Internacionais -, era integrar os novos estudantes que chegavam à cidade.
"Eles chegam sozinhos e vêm já cheios de saudades da família. Com o futebol eles sentem-se em casa. Somos todos uma família e isto serve para colmatar a distância e dar um certo apoio psicológico numa sociedade e num clima totalmente diferentes do nosso", frisa o estudante, que, apesar de ter sido vítima de racismo na cidade, hoje garante sentir-se em casa. "As dificuldades de integração foram muitas. Mas com este projecto dei-me a conhecer às pessoas e acabei com todos os estigmas. Hoje tenho muito orgulho desta cidade."
SONHOS DO FUTEBOL
Apesar de estarem em primeiro lugar na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Bragança, os jovens estudantes não pretendem fazer carreira daquele projecto. "Isto para mim é um passatempo. Quero exercer o meu curso. Sou mais da área social e humanística do que desportiva. No final deste ano, o futebol vai ficar para segundo plano. Agora só me resta decidir se vou ficar por cá ou se volto para o meu país", diz Óscar Monteiro.
A mesma opinião é partilhada por Eldon Lopes, 28 anos, aluno do primeiro ano do mestrado em Gestão e Organização de Empresas, e também natural de Cabo Verde. "O meu sonho é abrir o meu negócio na minha ilha [Boavista]. Lá há muito turismo e sei que poderia formar uma empresa bem estruturada e vingar", afiança o jovem, cujo pai também tem a paixão pelo futebol. Porém, Eldon, gostava também de ter uma escola de futebol para crianças.
"Penso em quem mais precisa. É bom pensarmos também no bem-estar das pessoas. Gostava de ser dirigente de um clube e continuar o meu legado. Estar para sempre ligado ao mundo do futebol é também o meu objectivo", acrescenta o atleta dos Africanos de Bragança.
O FRIO, A UNIÃO E AS FESTAS
Os estudantes jogam futebol para estarem unidos e não em casa, sozinhos. Mas também para superar o frio. "Quando estava em Cabo Verde nem sabia o que era uma camisola. Andava sempre sem t-shirt, em tronco nu", conta Óscar Magalhães. "O pior em Bragança é mesmo o frio. No nosso país estávamos habituados a usar pouca roupa e aqui é o contrário. Mas somos grandes amigos. O nosso espírito de união é invejável e isso sim, é o mais importante e supera tudo: o frio e a saudade", remata Eldon Lopes.
Além de serem estrelas no campo, os estudantes realizam também diversas actividades culturais ligadas às suas raízes africanas. "Temos um grupo de dança, do qual eu faço parte: os 238. No meu caso, também dou aulas de kizomba. Tudo direccionado para o povo da cidade. Para que possam conhecer a nossa cultura. Por outro lado, fazemos também bons eventos gastronómicos, para dar a provar os pratos da lusofonia a Bragança", assegurou.
Apesar de serem a sensação no futebol do distrito, os atletas correm por amor à camisola. "Não recebemos nada. Apenas o carinho do público, que nos segue e que acorre ao nosso campo em dias de jogos", garante o estudante Ademir Tavares, 20 anos, vice-presidente da Associação dos Estudantes Africanos e aluno do primeiro ano de Engenharia Civil. "Temos apoio logístico do Politécnico, que nos disponibiliza o campo em que treinamos todas as quartas e sextas. Conseguimos também o apoio da Embaixada de Cabo Verde em Lisboa, de algumas empresas e da Câmara Municipal", explica.
ORGULHO DO TREINADOR
No meio dos africanos há também portugueses. José Louçano, 37 anos, de Bragança, é o guarda-redes e capitão da equipa. "Abracei este projecto para mostrar aos novos colegas, recém-chegados, que o importante não é saber jogar à bola, mas sim saber estar no campo e manter a humildade. É aqui que pretendo terminar a carreira."
Orgulhoso da equipa, o treinador Vítor Reis tem 46 anos e é administrador da Urgência do Hospital de Bragança. "Este grupo é fantástico. É humilde, amigo e empenhado. Isso é muito motivante para mim. Eles têm muito boa qualidade futebolística." E acrescenta: "Fiquei surpreso por ser convidado para treinar a equipa, mas estou mesmo orgulhoso, pois isto mexeu com a cidade. Os Africanos são caso único em Portugal. Aqui todos os conhecem e falam neles. O desafio é manter o nível."
"ESTOU MUITO SATISFEITO POR TODO O ESFORÇO"
Muito orgulhoso com os Africanos está também José Adriano, pró-presidente do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), que sempre que pode passa pelo balneário da equipa e dá força aos jogadores. "O único conselho que lhes dou é que continuem a ser amigos e que se divirtam. Ter 20 jogadores amigos e unidos é muito bom", referiu.
"Em Bragança há um enorme orgulho pelo que estão a conseguir e o comportamento humilde que têm mantido. Estou muito satisfeito por todo o esforço", garantiu o pró-presidente, que explicou que a comunidade africana é a que tem maior peso nos cerca de mil estudantes estrangeiros do IPB.
NOTAS
TREINO
Os Africanos de Bragança treinam todas as quartas e sextas-feiras num campo sintético.
JORNADAS
Em seis jornadas, o clube do Politécnico de Bragança conseguiu cinco vitórias.
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