A celebrar cem anos, a comunidade israelita conta uma história que se confunde com o país
Atrás de um portão discreto, numa das artérias mais centrais de Lisboa, a Sinagoga Shaaré Tikvá – Portas da Esperança – reflecte o gesto para o qual foi inaugurada em 1904, sem fachada para a rua, por ser proibido na época a visibilidade de um templo que não fosse de religião católica. Na arquitectura mesclada de elementos de origem romana, bizantina e romântica lê-se a marca de quem por ali passa.
Coesa, discreta, influente e com origem diversa, assim se traça o perfil da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL), que este ano comemora o centenário de uma lei que só com a República reconheceu a associação do culto judaico. São poucos os judeus de Lisboa, cidade cheia de tradições, mas muitas as histórias que têm para contar.
O GOSTO DE CANTAR
Ana Araújo, 71 anos, cantora de ópera reformada, integrava o elenco do Teatro Nacional São Carlos, é agora guia da Sinagoga. Descobriu tarde a sua origem. Descende de uma família de criptojudeus, marranos da Covilhã, portugueses que durante a Inquisição foram convertidos à força à religião católica e continuaram a praticar o culto judaico em segredo.
"Tinha 20 anos, comecei a ter imenso desejo de partir para Israel e a minha mãe contou-me", diz. Até aí, a família praticava a discrição. "Ninguém ia à Igreja, não se baptizavam os filhos e achava isso normal. Só no liceu, quando tive uma professora de religião e moral que rezava todos os dias pelos alunos que não eram baptizados, percebi que a diferente era eu."
Ana Araújo casou com um católico, numa cerimónia "apenas civil", e só aos 43 anos, já separada, voltou a procurar a religião. "Fiz o retorno, estudei o mesmo que as crianças têm de aprender para fazer a cerimónia da conformação, o Bat Mitzva (para raparigas) ou Bar Mitzva (para rapazes), hebraico, orações e já fui a Israel." As filhas seguem o judaísmo de forma diferente: uma é praticante, outra acredita que Deus é igual para todos.
PORTUGUÊS DE GEMA
Samuel Levy, economista, 82 anos, lamenta ser o último da família a residir em Portugal. Judeus sefarditas, com origem na Península Ibérica, o apelido seguiu a rota da história. Data de 1465 o registo de um Levy em Portugal. Para evitar as perseguições dos 300 anos de Inquisição, fixaram-se em Safir, na época uma praça portuguesa, mais tarde em Gibraltar e voltaram "quando D. João VI chamou Moisés Levy", trisavô de Samuel, comerciante rico e empreendedor. Mantiveram passaporte britânico para poder praticar o judaísmo – então só permitido a estrangeiros – e durante as revolução liberais de 1820 hasteavam bandeira inglesa na casa junto à praça do Marquês de Pombal para evitar ser alvo das trocas de tiros que todas as noites agitavam a cidade.
Samuel Levy trocou a tradição. "Sou visceralmente português, é esse o meu passaporte, mas na escola, na universidade, na tropa, era sempre o único judeu. O culto, a religião, cada família pratica à sua maneira, o que nos une é um passado comum." A convivência, "neste país à beira mar plantado, sempre foi pacífica. Fui gestor, director da CUF, presidi à CIL durante três anos, e reconheço que temos certas características na nossa educação que nos levam a ser chamados para determinadas áreas". Desde sempre, os judeus têm por obrigação ensinar os filhos a ler, escrever e contar. De olhos postos no Tejo, que se avista do 9º andar onde habita, lamenta que hoje os bons se "vão todos embora".
CONTAR A HISTÓRIA
É para entender como a história escreveu a vida do seu povo que a socióloga Esther Mucznik pesquisa, investiga e divulga o judaísmo.
Começou longe, num país de frio, a viagem desta família que chegou a Portugal no início do século XX. Foi em 1913, quando o governo republicano reconheceu a comunidade israelita como uma associação de culto judaico, que o avô paterno, natural do que é hoje a Ucrânia, veio para ser rabino em Lisboa. A família materna veio uma década mais tarde, da Polónia, para fugir do anti-semitismo que então grassava na Europa. A comunidade cresceu muito, então.
Esther e os três irmãos, de origem ashkenazi – do Norte e Leste da Europa – já nasceram em Lisboa, no pós-guerra, numa casa que seguia à risca os preceitos da tradição judaica, e se a integração era pacífica também causava estranheza. "Perguntavam o que era ser judeu e a origem do nome. Mas nunca vivi uma situação de anti-semitismo. Existe algum preconceito, ainda hoje, pouco se sabe sobre o judaísmo e há as histórias da Idade Média, do judeu avarento, rico, que quer dominar o mundo." Mas isso acontece porque a comunidade é pequena.
"No país não existem mais de quatro mil judeus e na CIL serão 700. Passaram muitos por cá durante a Segunda Guerra Mundial, mas não podiam ficar. O que se passou então é uma interrogação permanente. Por isso, o meu trabalho é manter a memória, homenagear vítimas e sobreviventes, porque a história é repleta de ensinamentos e o Holocausto é um terreno ideal para se perceber coisas actuais, a importância da ideologia, a propaganda, o papel do educador, do conhecimento, da cultura. Temos muito a aprender com a história."
CELEBRAR A VIDA
Foi por aprender com a história que Miriam Brodheim mantém uma alegria contagiante. Aos 88 anos, acende as velas ao pôr-do-sol de sexta-feira, a hora que antecede o sábado, dia de descanso judaico – não por ser religiosa, mas por ser um ritual que ajuda a celebrar a vida. E ela celebra-a todos os dias.
"Se não fosse Portugal eu não estaria viva e isso não esqueço nunca." Matriarca de um grupo empresarial que emprega mais 300 pessoas, garante que o investimento passa sempre por aqui: "O país merece, os portugueses são bons, simpáticos, acolhedores." Foi por isso que trouxe para aqui tudo o que de bom via lá fora. Aos 18 anos abriu o primeiro jardim de infância Maserotti, já casada trouxe o fecho-éclair – "um sucesso" – e em 1993 abriu o primeiro clube de karaoke, o Karaoke Dollar Clube, na avenida Duque de Loulé, em Lisboa, onde "a diversão era diária. Ficávamos até às 05h da manhã".
Miriam nasceu na antiga Checoslováquia, passou a infância na Alemanha e estava na Bélgica quando o pai chamou a família em fuga do anti-semitismo que grassava. "O meu pai veio a Portugal em negócios e disse--nos ‘encontrei o país dos meus sonhos’. Mandou-nos logo vir, o Norte da Europa estava a ficar perigoso, e fomos muito bem recebidos. Cheguei com dez anos e adaptei-me bem, as crianças têm essa facilidade." A partir de então, Portugal tornou-se a sua casa. O pai está enterrado aqui. Miriam casou em Lisboa, com um refugiado austríaco, judeu de Viena, e aqui teve os filhos e os netos, que dão continuidade aos negócios.
"Tive uma vida gira, sempre diferente, nada monótona. Não sou religiosa, mas sou uma boa judia, gosto de ir à sinagoga, celebro os dias festivos. Os meus filhos casaram com não judeus que não se converteram e celebramos as datas que há para celebrar. Portugal salvou a nossa vida e isso é que interessa ."
FESTA DE FAMÍLIA
É também a celebração que impera na casa de Jaime Bensimon. Gerente comercial, 57 anos, une em si as origens da actual Comunidade Israelita de Lisboa: sefardita e ashkenazi.
"O avô paterno nasceu no Algarve, a avó materna na Polónia." Enquanto um lado da família fez vida em Portugal e Marrocos, o outro percorreu a Europa. "Chegaram a Lisboa depois de uma passagem pela Bélgica, mas o meu avô materno, por achar que a vida não se fazia aqui, partiu para Itália. Nunca voltou. Morreu num campo de concentração", conta.
A religião judaica faz-se em família. E em casa dos Bensimon impera a tradição sefardita. Pai de três filhos e casado com uma judia convertida, Jaime mantém os rituais. "Jantamos juntos à sexta-feira, a nossa alimentação é casher, acendemos as velas, dizemos a oração do pão e do vinho, não trabalhamos nem andamos de carro ao sábado, uso o quipá para ir à sinagoga, sinal de respeito, para definir a altura – acima de nós há sempre algo."
Jaime Bensimon tem aqui a vida, família, bens e carreira. Não pensa sair. Constrangimentos com a religião nunca teve, mas já sentiu intolerância. "Hoje as pessoas estão mais flexíveis e há muitos marranos a fazer o retorno. O país está a viver um tempo mau e Israel abre a porta a todos os judeus."
O ‘CANTOR' DA LITURGIA
É em frente a uma imagem de Jerusalém, a cidade sagrada, que Issac Assor, 47 anos, se deixa fotografar. Sócio de uma agência de viagens, recebe muitos grupos de Israel "que vêm à procura das raízes da herança judaica portuguesa por Lisboa, Algarve, Castelo de Vide, Belmonte, Tomar, Tondela, Madeira e Açores".
Isaac segue o judaísmo com rigor. Filho do antigo rabino Assor, que marcou a comunidade durante quase 50 anos, assume hoje "quase o nível de bombeiro. Sou o hazan, é um trabalho voluntário, e sou o oficiante dos serviços religiosos. É importante perceber a função do rabino, que nada obriga que seja o oficiante dos serviços religiosos. O rabino é o mestre, o homem mais culto, que dá conselhos sobre a vertente religiosa, o hazan é o ‘cantor’, o líder da liturgia", explica.
Casado com uma judia convertida e pai de três filhas, Isaac Assor nota que a Comunidade Israelita de Lisboa nunca foi grande. "O maior perigo é a assimilação. Por força de casamentos fora da comunidade perdeu-se o vínculo à religião e muitos apelidos que eram judaicos hoje não têm ligação à origem. Nos últimos 50 anos, a comunidade nunca apostou seriamente na educação judaica, não temos escola, a sinagoga tem pouca afluência", lamenta.
Pela parte que lhe toca segue a prática: "Escolhi a casa que me permite ir a pé ao sábado à sinagoga, guio-me pelo ciclo de vida judaica, sigo alimentação casher e acredito que somos beneficiados por sermos judeus." Com "90% de amigos não judeus", Isaac só sentiu na pele a intolerância no liceu: "Havia aulas aos sábados e chumbei por faltas dois anos. O meu pai fez um requerimento ao cardeal, mas as respostas vieram tarde." Hoje, o facto de ser-se judeu não limita. "Podemos celebrar os dias religiosos, segundo a lei da liberdade religiosa."
A religião, diz Samuel Ruah, "ajuda a entender a ética. Todos os problemas do direito à morte e à vida, do desejo de um doente ter morte assistida, que choca com o meu dever de médico de o salvar, podem ser discutidos à luz da religião. A vida tem um aspecto sublime, foi concebida por Deus, e é assim em qualquer religião".
NOTAS
PRECEITOS
São 613 os preceitos estabelecidos na Tora, livro sagrado para os judeus que é sempre escrito à mão.
LISBOA
Durante a Segunda Guerra Mundial, passaram por Lisboa cerca de 40 mil judeus em fuga do nazismo.
CASHER
Entre outras regras, o judeu não come porco, não mistura leite com carne e o animal tem de ser morto só de estucada e sangrado.
O CLÍNICO PREFERIDO DA SOCIEDADE LISBOETA
Neto de um judeu "caritativo", que mandou erguer uma sinagoga em Tânger, Samuel Ruah, 91 anos, é um dos médicos mais reconhecidos do País. Especializou-se em otorrino, apostou na educação da sua prole e é com orgulho que exibe as fotos dos netos a estudar nos EUA. Daniela Ruah é famosa, protagonista da série ‘NCIS: Investigação Criminal’, mas há outros a estudar economia e psicologia. Ser o melhor aluno e "trabalhar sempre mais, mais e mais" são lemas que os Ruah seguem à risca.
Aos 91 anos, o dr. Samuel ainda atende no consultório de Lisboa. Tornou-se médico para cumprir o desejo de um irmão, que morreu 15 dias antes de entrar em Medicina, e com o tempo fez-se grande na profissão. Foi médico de padres, de membros do Estado Novo, director clínico dos hospitais e docente. "Sabiam que era judeu. Durante o nazismo andava com a Estrela de David na lapela, era garoto, queria ostentar. Portugal é um país tolerante, sempre me respeitaram, e eu sempre respeitei".
NA PRIMEIRA PESSOA: "RABINO ABRAHAM ASSOR, O MEU PAI" (Por Miriam Assor)
A vida do meu pai não circundava à volta da Comunidade Israelita de Lisboa. A vida do meu pai era a Comunidade. A nossa, da minha mãe e do meu irmão, moldou-se a essa ímpar, intensa e abnegada dedicação. E vida que não fosse assim não poderia ter sido tão feliz. A função de rabino, hoje em dia, tornou-se restrita, mas, para o meu pai, uma actividade rabínica exemplar não dispunha de limitações. Não houve sector comunitário onde a sua sabedoria não tivesse estado presente. Não existiu momento em que a sua palavra conhecedora e apaziguadora não tivesse tido peso.
A perdurável ligação começou nas vésperas da Páscoa de 1941, quando, por escolha do seu mestre de estudos judaicos, rabino Yehuda Azancot, deixou Tânger, a pátria de quem nunca se havia separado desde o nascimento, em 7 de Setembro de 1920. Um jovem cheio de pujança e ideais, que veio prestar serviço à congregação, acabaria por ficar meio século, recusando convites irresistíveis para ser líder espiritual além-fronteiras.
Não se arrependeu. A Comunidade Israelita de Lisboa não se reduzia a uma instituição e eternizava-se um amigo inseparável. Quando a morte chegou, em 15 de Outubro de 1993, não se admirou; o punho já tinha escrito um epitáfio com tal data, dois anos antes.
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