Historiador lança livro com 100 perguntas sobre mitos e curiosidades que fazem parte da grande epopeia dos Descobrimentos
Afinal, ‘Os Portugueses Descobriram a Austrália?'. Foi com este mote que o historiador Paulo de Sousa Pinto lançou mãos à obra e desconstruiu com humor e pertinência ‘100 perguntas sobre factos, dúvidas e curiosidades dos Descobrimentos'. A obra, editado pela Esfera dos Livros, pretende desfazer mitos que ainda pairam sobre a nossa história.
Como surgiu esta ideia de desconstruir a História?
A ideia existia desde há algum tempo na minha cabeça, quando a editora lançou o desafio de escrever um livro sobre as ideias feitas que as pessoas têm sobre os Descobrimentos. Coincidiu com várias notícias na imprensa sobre a questão de terem sido ou não os portugueses a descobrir a Austrália.
Como sobrevivem os mitos?
Há coisas que nunca são explicadas. O mundo académico tem o conhecimento expresso em livros, teses, que muitas vezes não é acessível ao grande público. E quem se interessa por estas temáticas acaba por apanhar informação dispersa, por vezes escrita por quem conhece mal os factos ou gosta de fazer grandes mistérios, pois isso é que empolga o público.
A informação que circula na Internet, que muitas vezes não é fidedigna, é tida como certa?
Por vezes sim. Mas há 20 anos não se dizia ‘vi na internet' mas ‘vi na televisão' e isso bastava para ser tomado como verdade. No passado e no presente, e certamente no futuro, a História é usada por todos, por quem a estuda e a respeita e também por quem se serve dela como argumento ideológico.
No livro, diz que História como uma prostituta?
Isto tem a ver com outro aspeto que também é abordado e que é a forma como no passado e no presente e certamente no futuro, a História é usada por toda a gente. Não só por quem a estuda e a respeita, mas também por políticos e outros que a usam como argumento ideológico, e isto acontece em vários campos, seja uma pessoa, um facto, um acontecimento. Utilizam a história sem a respeitarem e da forma como que querem. A História é algo em permanente construção, tem muito a ver com a nossa memória, com a forma como vemos o nosso percurso. Há figuras que são heróis, depois são malditas, depois passam à penumbra, e emergem novamente.
Como nascem esses mitos?
Por exemplo, a figura de Camões hoje em dia essa personagem é incontestável, como o maior poeta da língua portuguesa, espécie de símbolo do soldado português aventureiro, que esteve na Índia, mas há discussão sobre a sua estada em Macau. Os mitos não são apenas fantasias que é preciso derrubar é também uma imagem que cresceu e foi sendo construída e é preciso entender como nasceu. Camões em Macau para nós não tem grande importância, mas para os portugueses que ainda lá estão é importantíssimo discutir se Camões esteve ou não esteve e isso tem uma importância enorme. E há muitos artigos e livros sobre isso. Depois, existem outras situações em que é preciso quebrar o mito, porque foi mal ensinado na escola, como é o caso da Escola de Sagres.
Porquê os Descobrimentos? São a nossa época de glória?
Sim, mas os Descobrimentos são vistos também como a afirmação da primazia cientifica de Portugal, de uma certa predestinação, de como um país pequeno como Portugal conseguiu fazer o que outros tão grandes não conseguiram, por exemplo quando se fazem conferências em Malaca pergunta-se porque ainda hoje há pessoas a falar português e não holandês? Mas houve épocas em que os descobrimentos foram uma época maldita.
Isso em que momento?
Por exemplo, na década de 1970 não se podia falar dos descobrimentos. Vasco da Gama, que para nós é uma figura inócua, em certas regiões e em certos meios é visto como o primeiro responsável pelos 500 anos de colonialismo. Não importa se os portugueses foram mais pacíficos do que os britânicos, foram os primeiros.
É daí que vem o mito da Escola de Sagres?
A Escola de Sagres causa-me uma certa irritação, como durante tanto tempo, desde a década de 1990 se falava que isso nunca existiu, e o que é verdade é que está aí em todo o lado. Tentei descobrir alguns dos principais traços, como surgiu a ideia da escola. Não houve nada, e Luís de Albuquerque tem uma obra intitulada ‘Dúvidas e Certezas dos Descobrimentos Portugueses', em que desmonta isto tudo. A ideia de que a História foi feita por grandes homens, com inspiração divina, teve o seu aproveitamento durante o Estado Novo, em que se destacavam os heróis e quando Portugal era uma exceção, por ser o único país que tinha províncias ultramarinas. Destacar o caráter excecional dos portugueses era algo que fazia sentido. Depois nos anos 1990, Portugal fazia parte da EU, é uma europa, e portanto os descobrimentos portugueses já não são destacados como únicos e exepcionais mas como parte de um movimento geral da Europa do séc. XV, da inovação científica, do conhecimento do mundo.
Como historiador consegue ser objetivo, alhear-se do pensamento contemporâneo?
Vivo na minha época e interrogo-me sobre as minhas limitações e sei que não se escreve uma história isenta e inócua. Um dia se alguém fizer História também percebe que em 2013 havia necessidade de lançar um livro com estas questões.
Os portugueses descobriram mesmo a Austrália?
É daquelas questões em que se coloca de maneira mais premente a palavra Descobrimento. Primeiro, é um tema que sempre me interessou, e volta e meia reaparece quando descobrem uma coisa ferrugenta na praia e questionam se é português. Há várias obras que surgiram no passado recente, a última tem menos de dez anos, e vêm reafirmar a velha ideia de portugueses que deram a volta à Austrália. Mas a Austrália era a última das fronteiras sobre estas questões. Só faltava esta zona. Depois porque está envolta em grande bruma pois não há documentos que atestem. Por ali havia portugueses em navios malaios, mas se a Austrália não tinha interesse para malaios e javaneses, para os portugueses também não tinha. É provável que lá tivessem andado, mas não interessava. Eram homens, mercadores, Fernão Mendes Pinto que por ali andavam e não havia registos oficiais. E a ideia de descobrir é sair daqui com um navio e chegar tomar posse da terra. Porque se diz que os holandeses foram os primeiros? Porque tomavam notas de tudo.
Destes 100 mitos o que mais o surpreendeu?
Talvez o caso do tesouro da Flor de La Mar. Era uma nau de Afonso de Albuquerque, depois de tomar Malaca e saquear o palácio do sultão, levava o espólio, a nau estava velha, afundou-se, não se sabe onde está. O mito da flor de la mar alimenta as ideias, os tesouros ainda mais e como está um pouco na fronteira entre o real e o exagero ainda perdura. Isto surpreende-me. Nunca me tinha dado ao trabalho de ler o que há da época sobre isso e foi o que fiz para este livro, e os resultados são desanimadores, em contraste com uma busca no Google sobre Flor de la Mar. Há estudos que falam em tesouros fabulosos, principalmente sites ingleses, muito influenciados pela marinha britânica, em que têm ideia de uma estrutura muito organizada. E um site sobre os maiores tesouros por descobrir coloca este à cabeça. As fontes da época não dizem grande coisa, vemos para já que o tesouro era quase de certeza muito inferior ao que se fala hoje em dia. Havia peças de prestígio, mais do que de valor. Há cartas sobre o naufrágio, fala-se das riquezas, mas nada de muito excecional. É verdade que a nau existia e ia carregada, salvou-se alguma coisa, um punhal e joias, perdeu-se muito e não se sabe onde. Há notas de que um sultão malaio enriqueceu anos depois porque tudo aquilo poderá ter dado à costa. O que existe no fundo do mar será importante, até para compreender aquela empresa, mas nada de tão fabuloso como se tem alimentado.
A história vende?
Hoje em dia, velhas questões e velhas preocupações surgem com cores diferentes e arejadas. Em todas as épocas isto existe. No fundo, o que aqui está não acrescenta nada ao que se conhece, mas para o grande público pode fazer sentido. Cada um destes temas podia dar um livro. Quem quiser participar nesta discussão pode usar o blogue: 100perguntas.blogs.sapo.pt e uma página do facebook também ligada a isso. Para dar respostas, comentar , receber sugestões.
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