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MICRONOVELA

Refúgio Proibido Um refúgio. Dois corações. Mil segredos.

Os miúdos diziam que tinha voz de bagaço

É portuguesa a nova diva da música de Cabo Verde. Depois de França e Itália prepara-se para conquistar o mundo. Uma voz para ouvir e chorar por mais.

24 de abril de 2005 às 00:00

Fixe este nome: Lura. Nascida na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, há 29 anos, tornou-se em pouco tempo na nova estrela da ‘world music’. Antes foi professora de natação, tentou ser bailarina, fez coros para outras estrelas dos palcos. Hoje esse espaço é dela. Fixe este nome: Lura.

É verdade que quando era criança diziam que tinha voz de bagaço?

Isso vem dos tempos de escola. Os outros miúdos diziam que tinha voz de bagaço por ser muito grave e rouca, em parte devido a integrar as claques de desporto, que me obrigavam a andar aos berros. Mas agora está mais aguda, graças às aulas de canto e ao esforço do meu professor, que fez questão de colocá-la como deve ser.

A carreira de cantora estava nos seus planos?

Descobri essa vocação muito tarde e, sinceramente, não estava nos meus horizontes seguir tal percurso. Até nas brincadeiras com os colegas nunca havia aquela coisa de dizer que queria ser cantora.

Se estava longe de se imaginar a cantar, como é que surgiu o convite para soltar a voz?

Já tinha 17 anos e partiu do Juka, um bailarino que actuava com a Teresa Mayuco, que conheci na altura em que pus na cabeça ter aulas de dança. Mais tarde convidou-me para ser corista de um disco e pensei que estava a brincar, ou então a ‘bater-me o coro’. Insistiu tanto que participei no álbum, comecei a gostar daquilo e surgiram convites de outros músicos.

Até então via-se mais como bailarina?

Sim, se bem que nunca tenha praticado a um nível profissional. Em criança não tive possibilidade de ter aulas de dança clássica e quando fui inscrever-me na Faculdade de Motricidade Humana disseram-me que essa formação era essencial e que em princípio não poderia entrar no curso. Fiquei assustada mas não baixei os braços, só que entretanto o sonho foi interrompido pela música. Comecei a sair para fora do país – participei na digressão do Bonga, por exemplo – e perdi semanas de aulas. Fui obrigada a desligar-me da dança.

Ocupava todo o seu tempo com essas viagens?

Não. Cheguei a fazer um curso técnico de desporto e mais tarde, por gosto e por necessidades financeiras, comecei a dar aulas de natação. Foram dois anos fantásticos, numa correria entre várias escolas.

Actividade que também abandonou…

A partir de determinado momento, música e natação deixaram de ser compatíveis. Mas adorei o tempo em que dei aulas. A minha mãe então achava giríssimo dizer que tinha uma filha professora.

Ela reagiu mal quando lhe confessou que ia trocar as piscinas pelos palcos?

Os pais tendem a torcer o nariz quando um filho quer ser músico, e comigo não foi diferente. Na altura em que comecei a dançar, a cantar e a chegar tarde ela não gostou nada. Virou-se para mim e disse: ‘A partir de hoje não quero mais esta brincadeira da música aqui em casa.’ Entrei em pânico, aquilo tocou-me muito.

Como é que resolveu o problema?

Prometi que até terminar o curso de desporto nunca ia ter negativas, para provar que era capaz de conciliar as duas coisas. Ela foi confiando até que a convidei para assistir às nossas actuações. Começou a entusiasmar-se, a ver que as pessoas que me rodeavam eram interessantes e não me iam desencaminhar. Passou a estar mais silenciosa e a aceitar a ideia. Sou a mais velha de quatro irmãos e no fundo ela sempre confiou em mim. Agora é a minha fã número um.

Como os meus pais estão separados sempre esteve mais ausente, aceitando com maior facilidade as minhas opiniões e decisões.

A veia artística não era, então, de família?!

Não, mas penso que todos os cabo-verdianos a têm no sangue. Além disso, tenho uma voz igual à da minha mãe, que quando era pequena tentou cantar, algo a que o meu avô não acedeu. A educação era muito rígida e a mulher tinha de ficar a cuidar dos irmãos, lavar a loiça e arranjar a casa.

Nasceu noutro tempo e noutro país, mas canta com alma cabo-verdiana. Como é que aconteceu essa ligação entre Portugal e as origens dos pais?

Quando era pequenina comecei por ter de falar português porque lá em casa a minha mãe não comunicava em crioulo, com medo que isso atrapalhasse os nossos estudos. Mas sempre convivi com cabo-verdianos, que têm uma comunidade muito forte em Portugal. Ouvi a sua música desde pequena, embora no início não lhe desse importância, e aos domingos lá vinha a cachupa para a mesa, que a minha mãe não dispensava.

Estava mais ligada às modas europeias?

Ouvia muita pop, as coisas que passavam no ‘Top ’, e gostava do António Variações. Em casa sempre fui o palhaço do circo, a irmã mais alegre e extrovertida, embora nunca tenha levado a questão para o lado artístico.

O seu exemplo representa um regresso dos filhos de cabo-verdianos à pátria abandonada?

Esse sentimento existe em alguns, mas convém não generalizar. Tenho notado um interesse crescente pela tradição de Cabo Verde, em especial através dos mais novos, mas também há muita gente da chamada segunda geração que não está ‘nem aí’ para Cabo Verde. Sou contra isso, acho que podemos fazer o progresso preservando o passado.

A sua música acaba por ser reflexo disso?

Espero bem que sim, até porque quando vamos lá para fora as pessoas acabam por valorizar esse lado. A minha participação numa digressão da Cesária Évora fez-me ver isso claramente. Tudo o que chamou a atenção nesses concertos estava ligado à tradição de cada país ali representado.

Como é que viveu a experiência de andar na estrada com essa grande senhora?

Foi um curso intensivo de um mês, uma experiência enriquecedora. Vim gorda de tanta inspiração. Descobri qual é o meu lugar no panorama da ‘world music’ e senti a forma como os europeus acolhem a música de Cabo Verde.

Surpreendeu-se com essa adesão?

Acreditava que já existia, mas fiquei surpreendida com a atitude dos diversos públicos. Percebi que há uma vontade de descobrir mais, até porque Cabo Verde não tem só mornas e coladeiras. Também por isso tive a certeza de que o que estava a fazer poderia preencher um outro lado da música cabo-verdiana, com estilos menos conhecidos. Quero fazer parte dessa divulgação, em especial através do batuque, género pelo qual estou apaixonada.

Ser vista como a sucessora da Cesária Évora torna-se assustador?

Esses rótulos são desconfortáveis. Ser a sucessora da Cesária Évora não pode ser encarado como algo muito simpático, primeiro porque estão a comparar-me com uma grande senhora, que eu admiro e não tem par, depois porque dá ideia que uma vai ocupar o lugar da outra, quando isso não acontece. Somos diferentes, vivemos tempos diferentes, ela fez um caminho digno, enquanto eu estou apenas no início. Devo, isso sim, seguir exemplos que ela tem para dar.

Mas a carreira, em especial com o ‘Di Korpo Ku Alma’, presta-se a isso.

Talvez. Este é o disco que tem mais a ver comigo, mostra a aproximação à cultura de Cabo Verde. É fruto do meu crescimento como cabo-verdiana, da vontade de querer preservar algo tão bonito.

Como é que a sua música é sentida nos trópicos?

Acho piada que apenas algumas pessoas saibam que nasci em Portugal, é prova de que aquilo que canto está próximo das origens. A minha música chegou primeiro do que eu a Cabo Verde, onde desde o início os meus trabalhos têm sido bem aceites.

É estranho a música ter chegado antes de si.

Aconteceu porque nunca tinha ido a Cabo Verde até editar o ‘Nha Vida’, que acabou por vender muito bem por lá. Só fui conhecer aquele país fantástico alguns meses depois.

Correspondeu às suas expectativas?

A princípio não. Fiquei algo espantada com a paisagem seca, as poucas casas. O que nos enriquece a alma é o convívio com as pessoas, a sua sinceridade, a alegria e a forma como vivem a música. Quase toda a gente sabe pegar numa guitarra, tirar uns acordes, cantar uma morninha. Lá nada nos afasta da atenção que deve ser dada à natureza,

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