Desde que o sol brilhe, todos os fins de semana os jardins e parques de merendas enchem-se de famílias e amigos.
O sol mal raiou, mas os relvados do Jardim da Estrela, do Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa, e do Pinhal da Paiã, em Odivelas, começam logo a encher-se de gente carregada com cestos e geleiras. Seja por causa da crise, seja porque os portugueses estão a aprender a aproveitar mais e melhor os espaços públicos, os piqueniques entraram nos hábitos de fim de semana dos citadinos.
Para reservar um bom poiso, a alvorada impõe-se cedo, mesmo que o vento ameace levar as toalhas de xadrez pelo ar e a temperatura obrigue o casaco a ir também. "Geralmente chegamos aqui pelas nove da manhã, para garantir mesas e o assador", explicam Paulo Ventura e Elisabete Carvalho, dois aficionados dos piqueniques, na companhia do filho de cinco anos, André. Para o pequeno-almoço, que acaba por ser onde começa o repasto, há couratos em vez de torradas. E há miúdos felizes a jogar à bola e a correr no Pinhal da Paiã. Pelo menos nestes dias, fogem à rotina do leite engolido com cara de sono em frente à televisão. Desta vez, o casal de Famões não está só. O seu grupo perfaz mais de 40 pessoas, que ali se reuniram para a festa-surpresa do 13º aniversário do Rafael, filho de Susana Pereira.
A mãe, de 32 anos, organizadora do megapiquenique, não tem dúvidas: "É muito mais divertido, convive-se num ambiente descontraído, os miúdos têm muito espaço para brincar e fica muito mais barato. Cada um traz o que pode. Em casa não cabíamos todos e num restaurante, por muito barato que fosse, não se fazia a festa por menos de 500 ou 600 euros. Assim fica por 100 euros."
'PARABÉNS'
Quando o Rafael chegou, pela hora de almoço, todos se escondem o melhor que podem atrás das árvores e das mesas de pedra. Depois, grandes e pequenos largam a correr ribanceira abaixo, gritando um "parabéns" tão excitado que calou o chilrear dos pássaros. Depois dos abraços da praxe, o rapaz reconhece: "Uma festa assim é fixe."
A menos de uma dezena de metros, Mónica Silva, 34 anos, residente na Baixa de Lisboa, estreia-se nas andanças dos piqueniques. A iniciativa foi de um colega de trabalho, Nuno Barradas. Todos trabalham na mesma empresa do ramo automóvel e, "depois de uma semana especialmente complicada, com muitas campanhas", acharam por bem arranjar um pretexto para "descomprimir" em equipa. O mentor afadiga-se em torno do grelhador, onde o carvão já vai crepitando e as febras mudam de cor. A filha, Inês, de 9 anos, veio preparada. Trouxe o boné, a manta e um livro da Thea Stilton para ler à sombra. Já Mónica está a gostar das primeiras impressões. "Nunca tinha feito nenhum piquenique, mas estou a adorar. Dá para fugir à rotina."
À mesma hora, mas do outro lado da cidade, o Parque Florestal de Monsanto enche-se do mesmo cheirinho bom a entrecosto grelhado e sardinhas, conforme os gostos. Há mesas vestidas a rigor, de toalha de xadrez e cesto de verga, como nos livros românticos de outros tempos. Outras mais improvisadas, consoante o espírito de desenrasca.
Sérgio e Manuel, de 10 e seis anos, respetivamente, ajudam o pai, Gil, a montar o grelhador novinho em folha. Os pregos espalham-se em cima da folha com instruções e os rapazes deliram com a bricolage. Eles são portugueses, a mãe, Aurélia, uma moldava que vai compondo a mesa sobre uma toalha impecavelmente branca e bordada. Os pepinos e os tomates reluzem ao sol, a fruta traz um aroma adocicado. Até parece que está na sua terra natal. "Os piqueniques na Moldávia são muito comuns. As pessoas gostam de reunir a família toda nos parques durante o verão", conta. Por isso, trouxe o ritual na bagagem e implementou-o na sua família portuguesa. Fazem-no com regularidade, sempre que o tempo ajuda. Trazem cartas, bola, raquetes e até um rádio, para ouvir a final da Taça de Portugal.
Mais abaixo, Carlos Silva é, com 77 anos, o mais velho do clã reunido entre a salada de pimentos, as batatas cozidas que vieram ainda mornas de casa e as sardinhas com a pele a estalar e acabadinhas de sair do assador. São mais de dez membros da mesma família, inseridos num grupo maior: "Uma vez por ano, reunimos aqui os naturais de Balocas, freguesia de Vide, concelho de Seia." Mas assim à primeira vista parecem mais rendidos ao alfacinha Santo António.
Cláudio Bechtold escolheu o Parque da Serafina, também em Monsanto, para celebrar os 44 anos. O bolo de chocolate, fios de ovos e cerejas é cobiçado pelos netos e destaca-se em cima da mesa que guardou desde as nove da manhã, debaixo da uma pérgula. O cabaz, como os convivas reunidos à mesa, vem dos dois lados do Atlântico: grão com bacalhau, feijoada à brasileira, empadão, frango com catupiri. Mesmo sem ser em dia de festa, o ritual já criou hábito: "É uma excelente forma de conviver e, com a crise, vão tornar-se cada vez mais populares."
Junto ao parque infantil, Paula Costa, irmã e cunhados, filhos e sobrinhos dividem-se em grupos. Eles, todos ‘fardados’ de camisola do Sport Lisboa e Benfica, estão à sombra a falar de futebol, as três crianças rebolam na relva, e as mães refastelam-se em mantas, ao sol. "Aqui temos menos trabalho do que em casa e descansamos mais!", avisam. Para as filhas, é "uma excitação grande", que chega muito antes do piquenique. "Há uma semana que não se fala de outra coisa lá em casa", garante Paula.
Em Belém, predominam as t-shirts cor-de-rosa. A zona ribeirinha acolheu mais uma edição da ‘Corrida da Mulher’ e, portanto, há inúmeras atletas de improviso a aproveitar o sol primaveril. A maioria tem sacos de papelão do McDonald’s pousados no chão, mas também há piqueniques organizados, como o de Sara Silva, que conseguiu mobilizar as colegas da empresa de distribuição de material de laboratório para a prova e para "uma refeição divertida e saudável".
No Jardim da Estrela, Laura e Ana uniram esforços para fazer a festa de anos das filhas, Nicole e Luanna, respetivamente, que são colegas de turma. Há balões por todo o lado, uma gaiola com hamsters para oferecer, uma irmã recém-nascida, uma grávida, um avó bonacheirão e, sobretudo, muitas crianças e alegria.
O menu é à escala de gente pequena: miniaturas de salgados, bolachas, batatas fritas, bolinhos, chupa-chupas. Mas as poças de água, fruto do sistema de rega, concorrem para brincadeira predileta.
EVENTOS E EMPRESAS
Mas os piqueniques não são só cada vez mais populares entre as famílias. Até as empresas já descobriram a tendência. A presente edição da Feira do Livro, por exemplo, acolheu um piquenique literário. Na semana passada, realizou-se um Winepique, promovido por uma empresa de comercialização e divulgação de vinhos, e também mais uma edição do OutJazz, um festival que convida a ouvir jazz e a petiscar ao final da tarde nos jardins de Lisboa.
Fernando Rebelo, organizador de caminhadas e passeios pedestres nas zonas de Sesimbra, Setúbal e Arrábida, inaugurou há pouco tempo o conceito dos piqueniques. "É juntar o útil ao agradável: passear, conhecer, conviver e, no final, lanchar entre amigos", confessa. Hoje mesmo, o motivo repetir-se-á, na praia da Baleeira, "um recanto secreto e protegido" pelo Forte de São Domingos da Baralha. É sempre um sucesso. Sobretudo porque quem vai já sabe que há sempre espaço para mais um amigo. Sem risco para o orçamento mensal.
COMO NOS "BONS VELHOS TEMPOS"
Atento a esta nova sensibilidade dos portugueses "para aproveitar os espaços públicos", Ricardo Seguro Pereira criou a Ant’s Basket, que organiza e fornece catering para piqueniques. Para duas pessoas, o menu começa nos 17,50 euros e pode ir até aos 45. "A ideia foi sobretudo criar uma estética, inspirada nos piqueniques que fazia na infância com a família, onde também havia este cuidado. O mais engraçado é que já vi pessoas a reproduzirem as nossas decorações, o que não me importa. É até um elogio!" Ricardo já fez também piqueniques para mais de 200 pessoas, e até casamentos. "É uma tendência a crescer. Viver ao ar livre está na moda", frisa.
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