Trinta rapazes tentam aprender a viver num sítio isolado, nas montanhas geladas da Guarda. A maioria roubou ou agrediu alguém. Protegidos por nomes fictícios, eles contam as suas histórias, explicam <BR>que assaltar um Mercedes é quase tão fácil como tirar um chocolate da prateleira do supermercado
Rafael tem 17 anos e é perito em roubar automóveis das marcas Opel e Alfa Romeo, motos e de tudo um pouco, “desde que dê dinheiro”. Há seis anos que salta de centro em centro de correcção, mas não há maneira de deixar as ruas. “Estive na Belavista um ano, mas escapei e tornei a roubar. Acabei por ir para Vila Fernando, em Elvas, onde fiquei três semanas. Passei pelo Navarro de Paiva, em Benfica, mais tarde, pelo centro de Caxias, mas fugi sempre para casa dos meus pais, na Amadora. De tanto fugir, acabei por vir parar aqui”, conta com naturalidade.
Rafael é um dos 30 jovens do Centro Educativo do Mondego, uma das 12 instituições portuguesas de reinserção para miúdos delinquentes, sem maioridade para serem condenados pelos crimes de que são acusados. A história deste adolescente de origem cabo-verdiana é mais uma a juntar à de centenas de jovens que todos os anos passam por este colégio, ocupam os quartos e enchem as salas de aulas ou as oficinas de formação. Muitos destes miúdos têm rostos inocentes, sentido de humor e muito dificilmente se prevê o currículo criminal. Do passado, coleccionam processos, a maioria por roubo, furto ou condução indevida, três ou quatro por tráfico de drogas e sete – que se encontram em regime fechado – são os casos mais graves, que vão do assalto à mão armada em residências particulares até um suposto violador em série.
GANHAR ANTICORPOS
É aqui, neste vale isolado pelas montanhas da Guarda, com temperaturas negativas no Inverno, que chegam alguns dos retratos mais problemáticos da delinquência juvenil e que deram que falar na Comunicação Social, como o pequeno Flávio, o menino de 11 anos da Margem Sul, que roubava Mercedes e automóveis topo de gama como quem tira, sem pagar, um chocolate da prateleira do hipermercado. “Era um verdadeiro bebé. Muito carente, muito meigo”, lembra Paula Afonso, professora de 1º ciclo, no centro há seis anos. Quatro dos membros do famoso ‘gang’ da CREL, que roubaram várias lojas, estações de serviço e bombas de gasolina, também vieram para este lugar, mas, ao contrário de Flávio, não deixaram boas recordações. “Foram dos miúdos que mais chatices nos trouxeram. Falar para aqueles jovens ou para uma parede parecia ser exactamente a mesma coisa”, recorda o director da instituição, Jorge Oliveira.
De momento, o dia-a-dia do centro está, na opinião do responsável, “tranquilo e, por enquanto, não existem casos tão graves como esses”. Se não fossem os guardas distribuídos por sítios estratégicos, os muros altos em ferro, reforçados por arame farpado, e as medidas rígidas para os sete jovens do regime fechado, nada faria parecer que este é um colégio com uma missão diferente: “Fazer com que os rapazes ganhem anticorpos para as asneiras que cometeram anteriormente e, quando regressarem ao meio de origem, não reincidam”.
Obrigados a acordar bem cedo para limpar os quartos e tomar banho, a manhã é ocupada por aulas normais. Após o almoço, são distribuídos em grupos pelas oficinas de Serralharia de Alumínios, Carpintaria, Electricidade e ateliês de Informática e Artes Visuais. É nestes espaços que eles se sentem mais à vontade, mas também onde existem mais cuidados de segurança. “Sempre que terminam as acções de formação, são revistados com um detector de metais para evitar que algum desvio seja cometido”, explica o director, enquanto retira da gaveta um objecto cortante que foi apreendido a um dos miúdos.
84 PROCESSOS EM TRIBUNAL
Entretido a mexer com as ferramentas, Jacó, 15 anos demasiado infantis, abraça-se ao mestre de Alumínios, um dos formadores preferidos pela generalidade dos alunos. “Ele é que sabe ensinar”, elogia. Hoje, diz, “estou um pouco nervoso. Daqui a uns dias, vou a tribunal e só então é que sei o que vai ser de mim”. Tem saudades dos pais e, sobretudo, da namorada, a quem todos os dias escreve cartas. “Gostava que corresse tudo bem para poder voltar para Valbom. Tenho tantas saudades de casa!”. Um dia, conseguiu enganar o colégio e receber uma visita especial: “Disse que era minha prima. A minha mãe foi falar com os pais dela e deixaram-na vir visitar-me”.
A proibição de ver a namorada é uma das regras estabelecidas aos alunos que ainda não atingiram a quarta fase do quadro de avaliação que foi estabelecido, a partir de 2001. Quem atingir este nível, o que depende, sobretudo, do comportamento e do aproveitamento escolar, pode ter acesso a uma série de privilégios, como pôr brincos, vestir roupa própria, saídas frequentes à Guarda e ir escolher, ao clube de vídeo, os filmes para ver, durante o fim-de-semana. “Eu não acho nada bem. Estar aqui preso já é mau, agora não poder vestir a nossa roupa, impedir que as nossas namoradas e amigos nos venham visitar é que não concordo. Nem sequer nos deixam fumar”, critica o jovem de Gaia, com o apoio dos outros colegas.
Jacó é especialista em roubar carros e motas, mas o delito que espalha boa disposição entre os colegas é outro: “Ele é maluco. Roubava os barcos do Douro e depois ia dar voltas com eles pelo rio”. Jacó ri-se. Diz querer apenas “ser DJ quando sair desta vida” e ir ter com a namorada. “Os pais dela são bem orientados”, refere, orgulhoso.
A simpatia deste rapaz louro e de olhos azuis contrasta com a contenção de Rui, com crimes que já envolvem a agressão física. Num misto de vergonha e timidez, descreve o que o levou a chegar ao vale frio do Mondego. “Atacava as pessoas, roubava-lhes o multibanco e ameaçava-as com uma faca, obrigando-as a marcarem o código e a darem-me o dinheiro”. Rui tem 17 anos e acumula 84 processos em tribunal. A rua acabou por ser a sua casa. Às vezes, agia com um grupo que deu que falar na zona do Minho, outras vezes, sozinho. Não fala dos pais ou da família. Baixa os olhos, encolhe os ombros e vai-se embora. Regressa para dizer que o colégio lhe deu muita coisa: “Ensinou-me a respeitar os outros, a fazer muitas coisas, a confiar”.
LADRÃO AOS OITO ANOS
Que motivos empurram estes jovens para assaltos? Geralmente, “o dinheiro”; noutros casos, “a adrenalina, o prazer do risco, de conseguir quebrar as regras sem ser apanhado”. Pedro tem 16 anos e é de Lisboa. Começou a roubar aos oito: “Não queria ter nada à custa da minha avó. Roubava para ter dinheiro e comprar roupas de marca, que metem mais pose”. Hoje, tem vários processos ainda a decorrer. Ao contrário de Rui, não tem vergonha de falar da família: “Os meus pais abandonaram-me e deixaram-me com a minha avó, que me vem visitar. Nunca quis que eles me dessem nada porque não podem e, então, pus-me a roubar. Às vezes, conseguia num dia, o que as pessoas ganham num ano a trabalhar”.
Numa sala mais abaixo, sete dos rapazes em regime fechado, trabalham na oficina de Carpintaria. São vigiados por um segurança armado. Estão calmos, seguem as ordens do mestre António Coelho. “Aprendi muito com estes jovens. Eles têm valor e deviam ajudá-los quando saíssem daqui. As pessoas têm uma ideia errada dos miúdos e deste tipo de instituição”, defende o formador. Marco tem 17 anos, está no centro do Mondego há quase dois. Confessa nunca ter tido medo de ser apanhado, enquanto furtava automóveis. Agora, garante que os seus interesses são outros: “Aprendi a fazer de tudo um pouco”. Quando sair daqui, só quero ter uma família e ser engenheiro mecânico. Sonhos que são réplicas dos outros colegas do regime fechado, que afirmam querer usar o que aprenderam no centro para arranjar trabalho e ter uma vida normal.
QUERO FAZER UM FILHO À MINHA NAMORADA
No pátio exterior, os rapazes do semi-aberto já substituíram os fatos-macacos por roupas de desporto. Rafael corre para o campo onde jogam futebol. Mas antes de começar, senta-se e começa à conversa. Tem um olho negro, resultado de uma briga inconsequente com um colega. Ele é dos miúdos mais antigos na instituição. Se tudo correr bem, espera deixar o centro, em Julho do próximo ano. “Vou para casa. Não quero roubar mais. Nessa altura, já terei 18 anos. Quero fazer um filho à minha namorada e trabalhar com o meu padrasto, que é chefe de obras. Vou ganhar dinheiro e sustentar a minha mulher e o meu filho. Estou cansado, muito cansado desta vida, de roubar, de estar preso e de fugir”, desabafa Rafael.
Manuel é da mesma idade, mas a sua saída está mais demorada. Gosta de descobrir que automóvel têm as pessoas que vai conhecendo. “Para mim, os carros servem para fazer altas corridas.” Manuel agarra-se, com carinho, a um dos monitores que acompanham os rapazes, nos momentos de recreio. Diz que queria encontrar alguma coisa que gostasse de fazer. Com um ar infantil, confessa: “Gosto de roubar carros, mas não me deixam. Vou ter de fazer outra coisa”. Vem à conversa a palavra Lisboa. Para Manuel, é quase um som mágico. Olha para as montanhas e lamenta: “Era bom que o Colombo fosse já ali, mas está a quatro horas de distância”.
AUSÊNCIA DA FAMÍLIA
Considerados uma ameaça social, quase todos os jovens do centro escondem passados comuns. São de famílias desestruturadas, por vezes, com pais ausentes ou com incapacidade para lhes impor regras. Maria Capelo, psicóloga e técnica de reinserção social no Colégio do Mondego, é responsável pelas avaliações psicológicas dos relatórios a apresentar aos tribunais. É também ela que estabelece a ponte entre estes adolescentes e as famílias. “Embora tenham agregados diferenciados, são, por regra, carentes a vários níveis. A maioria é de zonas suburbanas de Lisboa ou do Porto, com problemas de delinquência e toxicodependência. Muitos dos pais sofrem de alcoolismo. Existe ausência de supervisão, mas também de afecto, além da presença de maus tratos.” Nas conversas de rotina com os miúdos, Maria Capelo tenta “dar-lhes uma oportunidade para reflectirem sobre si mesmos para que vejam o caminho pelo qual vinham enveredando e descubram que existem alternativas.” Na maioria dos acasos – sublinha – “eles conseguem evoluir”.
Apesar do historial de vida semelhante, eles não parecem guardar rancor dos progenitores. Pelo contrário, é de quem sentem mais falta. “Às vezes, basta não receberem o telefonema da mãe de que estavam à espera, para perturbar toda a estabilidade”, assinala a professora Susana Costa, que lecciona no centro há sete anos. Quando recebem visitas dos familiares, a alegria substitui toda a revolta para com algumas regras de que discordam na instituição. Mas não lhes é fácil passar para palavras os sentimentos. Segundo Maria Helena Silva, professora de Artes Visuais, “eles gostam, sobretudo, de fazer trabalhos para oferecer à família, de quem sentem muito a falta. Há dias que estão muito carentes e se agarram a mim. Quando lhes digo escreve nesse postal o que sentes pela tua avó, por exemplo, eles não conseguem”.
Um dos episódios mais drásticos que envolveu jovens delinquentes do Centro Educativo do Mondego foi a evasão dos quatro elementos do ‘gang’ da CREL. A fuga foi catastrófica. “Fugiram às nove da noite, de Inverno. Batemos a serra com todos os meios de que dispúnhamos e nada.” Roubaram um carro e seguiram pelo IP5. Mandaram parar um casal de idade. Roubaram-lhes a viatura e espancaram a mulher até entrar em estado de coma. Seguiram em direcção ao Sul. Por onde passaram deixaram a sua marca. Foram apanhados no Alentejo. Hoje, encontram-se no centro que mais condições de segurança oferece: o dos Olivais. Antes deste incidente, todos os meses, fugia, em média, um miúdo. Depois de terem reforçado as medidas de segurança e colocado arame farpado, a situação de fuga é, garante, “rara”. “Acontece, no máximo, uma vez por ano.” O último caso foi em Fevereiro, mas o evadido acabou por ser apanhado.
O Centro Educativo do Mondego tem acompanhado a evolução dos tempos. Começou por ser a residência de Verão do Episcopado da Guarda e, na década de 30, já era um reformatório para rapazes. A instituição ainda hoje conserva o livro dos registos desde a primeira entrada. Nessa altura, bastava ser “mentiroso, guloso e preguiçoso” para vir aqui parar. Sete anos depois do início de funcionamento já tinha 80 alunos.
O tempo passou. Os crimes pelo que os rapazes foram acusados mudaram. Mas até 2001, nem sequer era preciso ter um currículo de delinquente para estar neste sítio. Durante décadas, violadores, assassinos e outros instintos criminosos conviveram com miúdos encaminhados pela Segurança Social, cujo único azar foi nascer num meio desfavorecido. Jorge Oliveira, à frente do centro desde 1999, ainda assistiu a esta realidade: “Era necessário afastar as águas. Não fazia sentido juntar a vítima e o criminoso”. O Colégio do Mondego passou apenas a receber casos do Ministério da Justiça. Agora, só vêm para este vale gelado os jovens em que, explica, “o crime foi demasiado grave e já passaram pelas fases todas, sem que nenhuma tenha dado resultado”.
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