Já não há estátua e as propriedades do ditador estão ao abandono. Apenas um largo e uma avenida com o seu nome
A bomba pôs fim à discussão. A Câmara Municipal de Santa Comba Dão queria recolher o que restava da estátua – mas uma parte da população, apoiada por saudosistas de fora da terra, pretendia restaurá-la. A estátua já não tinha cabeça – e ali estava Salazar, sentado no alto de um pedestal de granito, ridiculamente decapitado. Na madrugada de 12 de Fevereiro de 1978, um domingo, a vila acordou com o estrondo. Uma carga de dinamite reduziu Salazar a pedaços. Conversa acabada. O povo ficou sem estátua para restaurar – e a autarquia pôde finalmente livrar-se da polémica. O que sobrou da estátua, uma amálgama de cobre retorcido, repousa hoje na cave da Casa da Cultura.
A memória do homem nascido na freguesia do Vimieiro e que governou o País com mão-de-ferro durante décadas divide o povo do concelho: uns querem perpetuá-lo saudosamente, outros nem por isso. Apenas parecem unidos no velho sonho que o município alimenta há anos para a construção de um centro museológico dedicado ao Estado Novo – o período da História de Portugal fundado em 1933 por Oliveira Salazar. Em Santa Comba Dão, os únicos sinais visíveis do ditador são o largo que ainda mantém o seu nome – e, no Vimieiro, a avenida Dr. Oliveira Salazar, a antiga estrada para Coimbra que passava à porta da casa onde nasceu e da outra que comprou já era presidente do Conselho.
Até a iniciativa do presidente da Câmara, João Lourenço, de engarrafar um vinho da região com a marca ‘Memórias de Salazar’, é recebida com alguma cautela. Rui Félix, de 76, reformado da indústria dos mármores, desconfia da qualidade da pinga. "No concelho de Santa Comba, por causa da humidade excessiva, não há vinho capaz" – diz. E Salazar, muito provavelmente, merecia melhor. Rui Félix nem quer imaginar que se dê a uma zurrapa qualquer o nome do homem que "fez tanto" por este País.
Mas o presidente da autarquia, João Lourenço – que mantém absoluto segredo sobre o produtor, "para evitar problemas" – garante que o vinho "não vai envergonhar ninguém". Sérgio Viegas, proprietário de um café no centro da cidade, não está nada preocupado com a qualidade do tinto. É o que menos lhe interessa: "Pior ou melhor, o vinho há-de beber-se. Isto dos produtos com a marca de Salazar é bom para o comércio. Muita gente se calhar passa a vir cá para comprar recordações."
O HERDEIRO
O espírito saudosista dos da terra e dos de fora é tenazmente combatido por quem menos se espera – o sobrinho-neto do ditador, Rui Salazar de Lucena e Melo. Vive na moradia herdada dos pais, no enfiamento das casas com a quinta nas traseiras que foram propriedade do tio.
Rui Salazar nem quer ouvir falar do vinho com o nome do chefe incontestado do Estado Novo. "O professor Salazar foi um estadista que marcou como nenhum outro um período bastante significativo da História de Portugal. Transformar o seu nome numa marca comercial, seja de vinho ou de outra coisa qualquer, cheira a saudosismo e isso é a pior maneira de perpetuar a sua memória", diz.
O que Rui Salazar quer é um museu do Estado Novo – a menina dos seus olhos. Doou à Câmara boa parte do espólio do tio que lhe coube em herança, entre documentos e objectos pessoais, e ainda o seu quinhão (um terço) das casas e da quinta do tio no Vimieiro. Chegou a acordo com o município. Em troca da doação, Rui Salazar receberá mensalmente dois mil euros, a partir do momento em que o museu começar a funcionar. "Para mim só quero 500 euros. Com os outros 1500 constituo um fundo para financiar estudantes interessados em estudar o Estado Novo" – diz.
O museu tarda. Encalhou na crise – mas, principalmente, nas dificuldades que a Câmara de Santa Comba Dão tem experimentado nas negociações com o irmão de Rui, herdeiro do resto da propriedade. António é proprietário dos outros dois terços. O acordo já esteve firmado – mas foi desfeito à última hora pelo herdeiro. Nada mais restará à autarquia que não seja a expropriação. xxx x
O MITO DA POBREZA
Salazar reclamava-se filho de pobres – mas os meios da família não eram assim tão acanhados em rendimentos como o mito fez crer.
O pai, António Oliveira, que já dobrara os 50, e a mãe, Maria do Resgate, já com 44 anos, não esperavam ver aumentada a prole. Tiveram quatro filhas de enfiada – Marta, Elisa, Leopoldina e Laura, assim por esta ordem – em nove anos de casamento. Veio-lhes, por fim, um filho varão. A criança nasce pelas três da tarde de 28 de Abril de 1889, num chuvoso domingo de Primavera, na casa de família, no Vimieiro, a dois passos de Santa Comba Dão. O menino fica António, mais os apelidos Oliveira, como o pai, e Salazar, como o avô materno.
Naqueles confins das Beiras mandam os Perestrelos, senhores de terras. A rica família fidalga contratara António Oliveira como feitor – cargo de rendimento certo e de alguma projecção social. O pai de Salazar passa então a ser respeitosamente tratado por António Feitor. Os mais influentes da sede do concelho davam-lhe a honra do aperto de mão.
A intimidade tinha os seus limites. António Oliveira convidou para padrinhos do filho mais novo dois Perestrelos, António Xavier Perestrelo Corte-Real e Maria de Pinna Perestrelo, pai e filha – que aceitam o encargo, mas não põem os pés na igreja. O menino é baptizado a 16 de Maio, uma quinta-feira, pelo padre António Nunes de Sousa. Os ilustres padrinhos fazem-se representar por gente mais ao nível do feitor – o carpinteiro Francisco Alves da Silva e a mulher, Luísa da Piedade.
A casa onde Salazar nasceu fica mesmo à beira da estrada, caminho dos almocreves com as bestas de carga. António Oliveira e Maria do Resgate, aí pelo nascimento da segunda filha, transformam parte da casa em hospedaria e taberna: ele continuou com feitor – enquanto a mulher toma conta do negócio com desenvoltura e austeridade. António Oliveira ainda conseguirá ganhar bom dinheiro como intermediário na venda de lotes de terreno, no Bairro Novo da Estação.
TAL MÃE, TAL FILHO
O rosto de Maria do Resgate repete-se no filho. As quatro filhas puxam mais ao pai. Salazar tem as feições da mãe: os mesmos olhos miúdos e penetrantes, a mesma face cavada, os mesmos lábios finos. O rapaz cresce fracalhote e tímido. Brinca com as irmãs. A mãe é tudo para o menino – e o filho é tudo para ela.
Aos sete anos começa a aprender, a ler e a contar – com lições particulares, em casa, todos os fins de tarde, pelo escriturário municipal José Duarte. Ao fim de três anos, Salazar, num dia de Verão de 1899, é aprovado em Viseu no exame da instrução primária. O negócio da hospedaria prosperava. Havia saúde e dinheiro. A família construiu outra casa, perto da antiga, mais espaçosa. António Oliveira, com invulgar olho para o comércio, publicava anúncios em jornais da região a chamar hóspedes e comensais. Sonhava ver o filho tomar-lhe o lugar de feitor dos Perestrelos e queria treiná-lo para os trabalhos do campo.
Mas Maria do Resgate tinha outros planos para o rapaz, pretendia dar-lhe estudos, e correu a tomar os avisados conselhos do prior. O padre António também era de opinião que o menino, inteligente, podia ir longe nos saberes. Só via um inconveniente: achava-o demasiado delico-doce para aguentar as malvadezas dos rapazes do liceu de Viseu. A não ser, sugeriu o cura, que estudasse no seminário, lugar de ordem e disciplina. Maria do Resgate não quis ouvir mais. Estava decidido.
No final do Verão de 1900, Salazar sai para sempre do aconchego do lar, no Vimieiro. Já completara os 11 anos. A mãe estraga-o com uma malinha de roupa no seminário de Viseu, no antigo convento dos Néris, casarão de dois andares, assombroso, gelado. A criança habituada aos desvelos maternos fica agora aos cuidados do austero padre José Frutuoso da Costa, que garantia a disciplina com mão-de-ferro.
FÉRIAS NO VIMIEIRO
Salazar nunca deixou de ir ao Vimieiro. Nos tempos de estudante em Coimbra, depois como lente da Faculdade de Direito e já todo-poderoso presidente do Conselho, a partir de 1932, passava as férias no sítio onde nasceu.
Ao que era dos pais foi acrescentando propriedade sua – à medida das posses. De uma vez com um empréstimo amigo. O padre Carneiro de Moura, abastado sacerdote de Coimbra que financiava a propaganda católica contra os desmandos da República, adiantou--lhe a fortuna de 150 contos de réis. Salazar, já chefe do Governo, comprou mais um bocado de terra aos Perestrelos para acrescentar à sua quinta – onde fazia vinho.
Elsa Amaral, de 73 anos, reformada como enfermeira-chefe da Maternidade Bissaya Barreto, vive na casa onde nasceu – praticamente paredes meias com a quinta de Salazar. Lembra-se muito bem do presidente do Conselho. "Era um homem encantador. Gostava de crianças. Cumprimentava-me sempre com um beijinho" – recorda.
Fernando Durães, hoje com 80 anos, só viu Salazar ao longe: "Subia a rua a caminho da escola e, quando ele lá estava, fugia para o outro lado com medo dos guardas fardados e dos homens à paisana que se dizia que eram agentes da polícia política."
"VENDAVAL DE ALEGRIA"
Mas a vizinha Elsa nunca teve medo do "encantador" Salazar. Até acompanhou o namorico do chefe do Governo com Christine Garnier: "Passeavam os dois muito queridos e conversavam sentados à porta". Christine, literata e jornalista nascida na Bélgica e com vida em Paris, imaginou um livro que lhe traria fama e proveito: uma biografia íntima de Salazar. O chefe do Governo, no primeiro contacto em Lisboa, fica seduzido – tanto que a convida a visitá-lo na terra.
Christine Garnier passa um curto período de férias no Vimieiro. Vivem um doce namoro. Ela fica hospedado no Hotel da Urgeiriça. Trabalha apaixonadamente no livro com Salazar – enquanto o marido se perde nas noites de Lisboa e de Cascais pela mão do banqueiro Ricardo Espírito Santo. Salazar, em carta ao embaixador Marcello Mathias, recordará estes tempos como um "vendaval de alegria" e "uma desordem perfumada".
A enfermeira Elsa ainda hoje se lembra da toilette de Christine Garnier: "Ela alternava uma saia castanha com cornucópias em dourado com um vestido preto muito elegante". Um detalhe: "Ela andava sempre de saltos altos e, claro, Salazar dava-lhe o braço. Faziam um par muito bonito." Faz-lhe dó o estado de abandono em que se encontra a propriedade de Salazar: "Podemos não gostar do que ele fez ou deixou de fazer, mas foi um homem que marcou o País e ninguém pode apagá-lo da História."
Tina Coimbra, comerciante, nunca viu Salazar por perto. Mas admira-lhe a obra: "Fez muito por este País. Merece-nos todo o respeito e admiração". E, a propósito do vinho com o seu nome, Tina só espera que a qualidade esteja à altura do homem que lhe dá o nome.
DECAPITADA, DESTRUÍDA À BOMBA E ESCONDIDA
A estátua de Salazar em Santa Comba – inaugurada em 27 de Abril de 1965, com toda a pompa e circunstância na presença do Presidente da República, almirante Américo Tomás – foi decapitada nos tempos quentes que se seguiram à Revolução de 25 de Abril. Um grupo de admiradores financiou uma cabeça nova. Mas o pior aconteceu.
A cabeça, mal tiradas as medidas, não encaixou no pescoço da estátua – e Salazar lá continuou decapitado no pedestal. A cabeça está agora guardada numa arrecadação da Câmara. É um embaraço. Ninguém sabe o que fazer com ela. Uma bomba acabou com o que restava da estátua. Hoje, no seu lugar, está um monumento de homenagem aos combatentes do concelho.
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