A urgência ferve no bico do fogão e chama-se leite. Parece a única. Mesmo que a réplica de chofre forje um falso desmentido: “Agora não tenho vagar”. A pressa não chama por Maria Guerra. E Maria Guerra também não chama por ela. Na Aldeia da Palhota, no concelho do Cartaxo, a pressa é surda e muda. Não interpela ninguém, nem se deixa interpelar.
A avieira recua. Avança. Os 78 anos desconfiam mas demoram um dos olhos à porta. Só um, que o outro continua aceso e pregado no lume para prevenir que o caldo se entorne. “Parti uma perna. Tenho para aqui uns ferros”. Lamentação de ‘Ti’ Maria.
Compreensão de interlocutor. Quando o corpo paga tolhe juízo à cabeça e inferniza os humores. Afinal, não está apenas com o leite. Está com os azeites, também. Mas quando o assunto é água, os assuntos misturam-se de bom grado.
Seja para falar da corrente do rio que lhe deu a ganhar a vida ou das golfadas com que assegura os asseios. Limpo entretém que enxuga as horas do dia.
A TI MARIA
“Lavo as ruas porque não gosto de as ver sujas”, justifica. “A Ti Maria pode morrer, mas antes de se fechar o caixão varre a aldeia!”, brinca Humberto Vasconcelos, 70 anos, jornalista reformado da escrita de histórias que três décadas depois de se ter enamorado da Palhota, continua a debitá-las sob convicção dupla: “Isto anda tudo ligado” e “povo que não tem memória, não tem história”.
A história da ‘Ti’ Maria é gémea de tantas outras. Prende-se e aprende-se pela tradição oral entre gente arredada das letras. “Estou aqui desde que nasci. O meu filho vive na Azambuja. Já se acabou tudo...venderam os barcos. Tinha 26 anos quando fui para o rio. Desisti aos 50 e tal quando o meu marido morreu”.
Refresco para a memória. É assim a história. A dela e da aldeia. A da Palhota. Onde as veias entre as 15 casas há muito que encostaram a cabeça na almofada, alheadas do grau de higiene das investidas de Maria Guerra. É o sono dos justos a quem o tempo fez pouca justiça.
Tudo pode ser contado no particípio passado, diz quem ficou. Ou quase tudo. Porque enquanto há vidas, ainda que escassas por aqui, há esperança. É o presente que não se afogou, que participa do tempo com orgulho contido.
Do colorido desmaiado. Das casas desamparadas que desbotam saudade. Dos barcos de pesca que estacionaram as proezas no lodo. Como gaivotas em terra que anunciam bonança profunda.
Mas o silêncio é brutalmente ruidoso. O do Tejo. Que inundou a vida dos avieiros até lhes secar o sustento e a voz. Pregava peças. Muitas. Enchia, transbordava, galgava terreno sem piedade. Como em 79. Submersão mais larga que uma manhã.
De quando em vez, restaura birras e faz das suas, mas desperta medos de menor monta.
Fez calo nas gentes e as gentes aprenderam a calar o susto. Até à aldeia avieira se ver praticamente calada. “Em três anos esvaziou-se por completo. As casas estão todas ocupáveis. Aqueles estão para o Luxemburgo”, aponta Humberto. “Para além de nós, vivem aqui a ‘Ti’ Maria, a única avieira, e um hortelão”, acrescenta a companheira de isolamento, Isabel, 59 anos, que secundou as pisadas do alfacinha.
“Acabei por vir cá parar a reboque dele! Sou alentejana, não tenho nada a ver com o Tejo, mas cheguei aqui e achei muito bonito. Vim estudar para Lisboa, tirei Tradução. Ele era colega do meu irmão, já nos conhecia-mos. Começamos por vir só aos fins-de--semana, de Verão e Inverno. Entretanto, quando chegou a reforma vivíamos numa casa horrível em Lisboa. Pensámos que tínhamos aqui uma casa num lugar tão bom”.
Humberto também não tinha passado de pesca. Mas uma coisa tinha: ideia fisgada. “Era jornalista do ‘Diário Popular’ e tínhamos de fazer muita reportagem. Permitiam-se algumas veleidades, tínhamos manhas. O chefe de redacção disse: “Há tanto tempo que não ganhas prémio nenhum!”.
Pediu-me uma proposta para reportagem. Estava a ler os ‘Avieiros’ do Alves Redol e no dia seguinte disse que queria saber o que era feito desta gente, se ainda existiam, se não. Ele disse-me que achava bem. Eu já conhecia o núcleo de avieiros de Vila Franca de Xira porque andava metido em politiquices e quando as coisas aqueciam, para não nos deitarem a mão, metíamo-nos em Vila Franca.
Cheguei aqui e pus-me a conversar com as pessoas. Já havia pouca gente, mas mais do que agora, umas 13 pessoas”.
Reportagem feita. Trabalho com permissão para piruetas, mãos de renda e charme semelhante a um cuidador de bebés. Prémio cobiçado, prémio arrecadado.
A narração da vida dos outros só desconhecia o futuro da sua. “Um ano depois, no dia de Todos-os-Santos, cheguei cá. Perguntei se não havia aqui ninguém que tivesse uma casa para vender. Apontou para esta onde morava a velha Margarida. Ela pediu-me quinhentos contos. Eu disse que gostava muito mas não tinha dinheiro. Ela disse que não fazia mal: “Quando chegar ao fim de me pagar eu pego na mala e vou-me embora”, disse-me. Assim foi, convivi com ela”.
DEPOIS DA OBRA, O SONHO
Depois da obra, o sonho. E depois do sonho, nova obra, traçada ainda em tempos de deslocações pendulares entre a Palhota e a capital, a escassos 50 minutos deste recanto ribeirinho. “Continuava a trabalhar. Vinha para cá ao fim-de-semana para pescar à linha, passear de barco. Comecei a perceber que queriam deitar isto abaixo. Eu e algumas pessoas criamos o projecto ‘Palhota Viva’. Vamos mantendo isto mas estamos cada vez mais velhos...
A malta nova faz isto e aquilo, vem para cá, começa a arranjar as coisas, mas depois desaparece”, lamenta.
15 casas resistem de pé. Pé banhado pelo rio a que os antigos chamam de ‘mar’.
Alves Redol tomou o gosto à corrente. Foi na maré, qual marinheiro de água doce em busca de um texto com sal. “Viveu aqui para tirar apontamentos. Lá ia nos barcos escrevendo a lápis, porque a tinta a água comia”.
Os protagonistas, esses, passavam passas de engolir em seco. “Vieram da Vieira, Leiria. Primeiro, direitos ao Alfange, em Santarém, depois é que vieram para cá, de carroça, comboio ou à pata. Foram morar para dentro dos barcos. Passaram para a margem, em palhotas. Depois, construções em cima de estacas, por causa das cheias e da areia, noutros locais”.
As redes e as balanças, os vertedores e os cântaros luzem com brilho fosco na casa-guia do Avieiro, menina dos olhos do projecto da Palhota, de ecoturismo e defesa do ambiente. “É muito difícil manter isto. A Associação precisa de recuperação”, explica Isabel.
Exposições, filmes, livros. Passeios de canoa, aluguer de barcos para pesca, alojamento na rústica casa. Todos os formatos e serviços disponíveis são poucos para divulgar e atrair gente.
Dezembro é excepção no calendário, mês de prenúncio de relativa fartura. “As terceira e quarta gerações já não foram pescadores. Foram todos para as vilas com empregos mais certos ou emigraram, muitos para o Luxemburgo onde há um grande núcleo de gente da borda d’água. Isto parece que está parado no tempo e no espaço mas em Dezembro vêem-se barcos.
O rio tem curvas e baixios. Aqui é o melhor sítio para deitar a rede. No Verão vêm mais pessoas. Famílias, escuteiros, escolas”, explica Humberto.
O Tejo, ancião jardim de pescado, traz consigo a lampreia em jeito de presente de Natal. A partir de Março, o sável e saboga dão um ar de sua graça.
Os bons filhos, aldeões da Palhota que encontraram no sonho emigrante forma de remar contra a maré, tornam a casa e fazem-se ao rio.
Cinco, seis, sete barcos, não mais, em tímida reedição de antigos cenários. Fataça, barbo. A faina é proverbial. Tudo o que vier à rede é peixe para os ‘ciganos do Tejo’ de Redol e descendentes mais sedentários. Quando não o é, são aves. Bandos de pássaros.
A vista, ociosa, levanta voo e segue as asas dos corvos marinhos. Vai, vem, e repousa nos “rasgões de memória” que Humberto foi vertendo para os seus escritos. Na Palhota, há uma urgência que ferve no bico do fogão e chama-se leite. Mas não é a única.
UM RIO É UM PARENTE CHAMADO "MAR"
O recheio anunciado da panela para o jantar entretém as mãos. Na Tabernita do ‘Ti’ Luís Cristino, depena-se o destino dos pombos. As redes repousam as malhas.
Os barcos detêm-se na espera. “Em Dezembro, conforme as posses, vou para o rio”, anuncia Deolinda Lobo, 68 anos, uma das resistentes no Lezirão, aldeia avieira do concelho de Azambuja. “Isto eram tudo pescadores. Há nove casas. Cada uma tinha cinco ou seis pessoas. Agora, só vivem aqui dois casais avieiros. Eu e o meu marido e a minha prima e o marido. O resto vem cá ao fim-de-semana. Tinha 14 anos quando vim de Benfica do Ribatejo para cá. Casei e cá fiquei”. A ceifa do milho monopoliza atenções. Na ausência da distracção, o enlevo é outro. “Passo dias inteiros a olhar para o rio”, confessa o marido, Luís, de 72 anos. “Tenho aqui dois barcos bons. Passava lá as noites, agora só de dia, e se não houver temporal”.
O rio é vizinho tranquilo. Mesmo que se inquiete, e que inquiete com ele a Aldeia Avieira, os últimos resistentes não arredam pé. “Nunca pensei, nem penso sair daqui. Daqui, só para a cova!” No cais dos pescadores, em Salvaterra de Magos, na aldeia do Escaroupim; nas Caneiras, em Santarém, ainda há vestígios de sortes parecidas. O rio distribuiu o saque das almas com precisão salomónica. Sobram marasmo e lições. E nisso os bons entendedores não são de meias palavras. “A lampreia grelhada é melhor que a cozida. A malta nem sabe!”
PARA REVIVER O TEJO
Passeios de bicicleta ou em canoa, aluguer de barcos para pesca. Desenvolvimento sustentável que passe pelo lazer, turismo de natureza e cultural, são os principais objectivos do ‘Palhota Viva’, inscrito desde 1993 no Registo Nacional das Associações de Defesa do Ambiente do Ministério do Ambiente.
NA ÁREA NOBRE DA RECEPÇÃO
A vassoura dorme uma sesta na cozinha de Maria Guerra, área nobre de recepção, isolada da casa principal, segundo os preceitos da estética avieira. Maria Guerra, 78 anos, é a única avieira que ainda habita na Aldeia da Palhota, descendente de uma família oriunda de Vieira de Leiria, berço de baptismo destes migrantes. “As mulheres faziam tudo. Pegavam no barco, iam pescar, traziam e vendiam o peixe, limpavam o barco e tomavam conta dos filhos”, enumera Humberto.
‘Os últimos pescadores do Tejo’, de Humberto Vasconcelos, filmado por Francisco Manso, conta histórias de avieiros. Nos finais do século XIX e início do XX a fome fez sair os pescadores da Praia da Vieira no concelho da Marinha Grande. Caso dos pais de Maria (à data, ainda com o marido) que trocaram a pesca no mar pela do rio. Tejo abaixo, acima, foram ficando.
Aérea ou rente ao chão, a vista da Palhota é hoje bem diferente do que já foi. Nos últimos três anos, a aldeia esvaziou-se quase por completo. Gente entregue às malhas das redes, vida no cais ou lavagens de roupa no rio são cenários de outro tempo.
A casa do avieiro funciona como museu. Mesa, cadeiras, naças, viveiros, cantareiras, balanças, (entre acessórios mais contemporâneos, como a TV) são alguns dos modestos pertences do espólio. Por 20 euros, é possível aqui pernoitar.
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