Os esqueletos das freiras que ajudaram a perceber como era a vida no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha estão em exposição.
Os dois ou três ossos na vitrina no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha sempre suscitaram curiosidade, certamente por serem de freiras Clarissas que viveram entre os séculos XV e XVII no convento, resgatados à história durante as escavações no mosteiro em 1995 e 1996. Eugénia Cunha coordenou nessa altura a equipa de antropologia que esteve nas escavações arqueológicas. Ela, antropóloga forense do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra (UC), e também Francisco Curate, antropólogo do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da UC, organizaram a exposição que mostra o mais relevante do achado, já com 20 anos, dos 70 esqueletos de freiras e explica, por exemplo, por que razão estas mulheres também tinham cáries apesar de não conhecerem o açúcar.
A exposição, que abriu esta semana no mosteiro de Coimbra, vai estar patente até 18 de setembro. "Foi o professor Francisco Pato de Macedo [consultor científico do projeto de recuperação do mosteiro no domínio da história de arte] que, durante o ciclo de conferências em janeiro dedicado ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, colocou a questão: ‘Porque não fazer uma exposição dos ossos das freiras?’, nunca antes expostos", conta Eugénia Cunha.
A EXPOSIÇÃO
Através deste espólio, foi possível conhecer os cuidados de higiene diários que as freiras tinham com o corpo. Foram encontradas peças como pentes - à época com duas fiadas de dentes, pois serviam para remover os parasitas da cabeleira -, em madeira e também um exemplar de tartaruga com 12 centímetros de comprimento, um lava-olhos, um limpa-ouvidos em osso com forma de colher para remover a cera dos ouvidos, e limpa-unhas e/ou palito de dentes em prata dourada, um bacio ou servidor em faiança não decorada e semelhante a outro descoberto na Casa dos Bicos, em Lisboa, bem como duas dezenas de vasos inteiros de despejo corporal, embora vários fragmentos indiquem que seriam em maior número.
Na exposição, estão peças ósseas, como um crânio com um tratamento dentário em ouro, datado do século XV, de uma freira anónima que também tinha brincos de ouro, e um fémur de uma Clarissa com uma fratura consistente com osteoporose.
A condição dentária das freiras fornece dados sobre a vida destas mulheres, que recolhiam ao convento em clausura e silêncio. "Por sabermos que as Clarissas faziam votos de pobreza e isolamento e que tal as impedia de apanhar luz, justifica-se a debilidade dos ossos. Soubemos que cozinhavam bastante porque nas escavações encontrámos ossos de muitas aves e cascas de ovos. As zonas de inserção muscular nos joelhos sugerem uma grande permanência na posição ajoelhada, o que indica que rezavam bastante. Sabemos também que ali teriam sido prestados cuidados médicos, pois encontramos diversos instrumentos, como boiões para unguentos e para comprimidos e um biberão, e também unguentos, óleos e plantas medicinais", conta Eugénia Cunha.
AS CÁRIES
As Clarissas do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha tinham mais cáries do que o resto da população, sendo que esse registo pode estar relacionado com os doces conventuais, aponta ainda a investigadora da Universidade de Coimbra. "No século XV, não havia ainda açúcar, mas elas já tinham cáries, o que poderá indicar que faziam doces utilizando outras fontes de açúcar, como frutos secos."
O Códice do Século XVI fala da linguagem gestual das freiras, que, obrigadas a contínuo voto de silêncio, tinham alguns gestos relativos a alimentos e doces.
De facto, e no âmbito das escavações do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, 30 das 35 exumadas tinham dentes com cáries, havendo várias Clarissas com "dentição multicariada" e 16 cáries presentes "num só indivíduo", acrescentou a coordenadora da equipa de antropologia que participou nas escavações de 1995 e 1996 e que, depois de ter ainda feito estudos sobre antropologia da população do passado, de que é exemplo Aljubarrota, integra hoje a organização internacional Justice for Rapid Response, que investiga crimes contra a humanidade.
A patologia oral das Clarissas é marcada por "doenças muito severas", apresentando "tártaro, abcessos, cáries e doença periodontal [doença infeto-inflamatória]".
A equipa de antropologia do Departamento de Ciências da Vida registou ainda casos de osteoporose e osteoartrose, bem como um possível caso de brucelose. Constataram ainda que metade das Clarissas tinha mais de 50 anos, "uma idade algo elevada para a época em questão", e encontraram também os ossos de três crianças. "Poderá ali ter funcionado uma roda, o que não será de espantar, já que elas terem tido filhos será menos provável. Poderá também estar relacionado com a prestação dos cuidados médicos no local", explica Eugénia Cunha.
Os restos mortais poderão ser objeto de novos estudos, porque, "20 anos depois, há meios de análise mais avançados, que justificam revisitar os esqueletos".
O mosteiro, fundado originalmente em 1283, recebeu até ao final do século XVII senhoras da nobreza e da alta burguesia. Quando as águas do Mondego as obrigaram a sair dali, as freiras mudaram-se para Santa Clara-a-Nova, onde hoje se encontram os restos mortais da Rainha Santa Isabel.
A exposição conta o que era a vida das freiras Clarissas, instaladas no mosteiro pela Rainha Santa Isabel, que também ali recolheu após a morte do rei D. Dinis. Entre os esqueletos encontrados, nenhum era de homem. Até os padres "só entravam para os funerais, mas por tempo muito limitado".
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