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Paciência de filigrana

Horas a puxar fio com sabedoria de alquimista. Graças a esta arte secular, ainda há doze oficinas em Travassos e Sobradelo da Goma.

02 de setembro de 2012 às 15:00

As horas passam devagar na Oficina do Ouro, em Sobradelo da Goma, uma das duas freguesias da Póvoa de Lanhoso onde a arte da filigrana teima em resistir. A outra é Travassos, mesmo ao lado. Terras separadas apenas pelo rio Ave que, no tempo castrejo, segundo reza a lenda, era uma autêntica mina de ouro. Aliás, diz a mesma lenda, foi por essa razão que nestas duas freguesias ribeirinhas nasceram tantas oficinas e desde há tanto tempo o trabalho do ouro está nos genes dos seus habitantes.

Mas não é um trabalho qualquer: é a arte da filigrana – obra feita em fios de ouro ou prata delicadamente entrelaçados. Uma arte ancestral, paciente e que exige jeito, gosto, destreza de mãos e vista de lince, e que, como veremos mais adiante, é a salvação da ourivesaria tradicional portuguesa.

"Felizmente, e graças a um aturado trabalho promocional dos ourives e da autarquia da Póvoa de Lanhoso, a filigrana voltou a estar na moda e deixou de ser considerada pela juventude uma coisa parola e que só é usada pelas pessoas de idade", diz Elsa Rodrigues, que "praticamente todos os dias" recebe na sua oficina grupos de pessoas, das mais diversas idades, interessadas em conhecer os meandros desta arte, única no Mundo, que tece as mais rendilhadas peças de ourivesaria.

"Nos últimos anos, diversas figuras públicas, nomeadamente modelos e actrizes, começaram a usar filigrana, atribuindo a estas peças o estatuto de jóias de qualidade e contribuindo para a valorização do seu designe e da sua originalidade", sublinha Elsa Rodrigues.

OS SETE TORMENTOS

O ouro chega em barra, puro, com 24 quilates, e é necessário fazer a liga, através da fundição, para lhe dar o toque de lei, que são, por norma, os 19,2 quilates ou, em alguns casos, 18 quilates, que é o toque de alguns países da Europa, como a França, ou do Brasil.

O metal, cerca de cem gramas, é colocado numa tigela de cerâmica, a que chamam ‘cadinho’, onde, a uma temperatura na ordem dos 1100 graus, é fundido. Quando estiver no ponto é esvaziado numa ‘relheira’ de madeira, previamente preparada com cera, para que o metal não se agarre à madeira.

A solidificação dá-se em menos de dez minutos, mas a temperatura continua muito elevada. Por isso, com recurso a uma tenaz, mergulha-se a barra em água bem fria e está pronta para ser ‘puxada’ no ‘cilindro’, em fio ou em chapa.

A chapa serve para fazer as contas minhotas (conhecidas também como contas de olho de perdiz). São cortados círculos das mais diversas medidas, segundo o tamanho da conta, a que depois é dada a forma de meia bola (meia mais meia faz a conta) na ‘embutideira’.

Fazer fio é mais complexo, até porque o que regularmente se usa na arte da filigrana tem 16 por cento da espessura de um milímetro, ou seja, é fino como um cabelo.

Até chegar a este ponto vai uma dezena de vezes ao cilindro, outras tantas à fieira (uma peça com orifícios cada vez mais estreitos) e depois passa pelos ‘rubis’, peças com orifícios muito precisos, em rubi, precisamente, que vão dos 60 aos 16 por cento do milímetro.

"Puxar fio é, de facto, um trabalho muito moroso e que exige bastante sacrifício, mas depois do fio feito ainda é longo o caminho da filigrana", diz Manuel Silva, irmão de Elsa, que há mais de vinte anos trabalha na arte.

O que é a filigrana, afinal? É o trabalho com fios de ouro (ou prata) entrelaçados. Assim, depois de puxado o fio à medida desejada é dobrado e ‘torcido’ entre duas tábuas de madeira rija e muito lisa. Normalmente é ‘torcido’ duas vezes para ficar mais perfeito. Parece um fio simples, mas à lupa vê-se que se trata de um ‘rendilhado’.

Enrola-se então o fio já entrelaçado, dá-se-lhe fogo para ficar mais macio, corta-se à medida e faz-se, com os minúsculos pedaços, as ‘rodas’ da filigrana. Um trabalho de pinças, paciente e delicado.

As ‘rodas’ são colocadas na bola, fixas com uma cola própria e depois soldadas através do fogo. E, com uma polidela, está feita a conta minhota.

O mesmo processo para os brincos à rainha ou para os corações minhotos, que costumam deslumbrar nos desfiles de trajes das Festas da Agonia, em Viana do Castelo, e que este ano decorreram na semana de 16 de Agosto.

DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO

A arte da filigrana não se aprende nas escolas. É nas oficinas que a mão e a vista se acertam, num processo de muitos anos e cujos conhecimentos, por norma, passam de pais para filhos.

"Eu e o meu irmão aprendemos com o nosso pai, o meu marido e o irmão aprenderam com o pai deles e já os nossos pais tinham aprendido com os nossos avós", diz Elsa Rodrigues, que já leva mais de duas décadas e meia a respirar o ambiente da banca e do cilindro.

Esta ourives, que já não se lembra da primeira vez que se sentou à banca e que começa a queixar-se dos cansaços da vista, assegura que para aprender todos os passos deste ofício é necessário começar cedo, ter gosto e jeito e trabalhar intensamente ao longo de mais de uma década. "Já houve escolas que tentaram ensinar a filigrana, mas acabaram por desistir porque esta arte tem de ser entranhada. Não basta conhecimentos teóricos ou práticos, é necessário ter vivência da oficina para se saber trabalhar com perfeição", afirma Elsa Rodrigues.

E não se pense que os filhos dos ourives, em Travassos e Sobradelo da Goma, nascem em berço de ouro. "Nem pensar. Trabalha-se muito. Eu comecei com doze anos. Fazia dias seguidos a mesma coisa, aqui fechado, enquanto os meus amigos da escola brincavam lá fora", conta Manuel Silva.

Mas não está arrependido. Faz uma fundição de olhos fechados, com o metal a 1100 graus centígrados (onze vezes mais quente do que a água a ferver), e consegue recuperar qualquer peça em ouro e prata, por mais estragada que esteja.

CRIAÇÃO E INOVAÇÃO

Apesar de ser uma arte ancestral, a filigrana requer muita criação e constante inovação. Não no processo de feitura do fio, porque esse, por mais que se invente, tem de passar pelos ‘tormentos’ atrás descritos, mas no design e na concepção de novas peças.

"Há peças incontornáveis e que são as que mais vendemos, como a conta minhota, em colar, pulseira ou brinco, o coração minhoto ou os brincos à rainha. Mas temos de apresentar coisas novas, embora, com este retomar do gosto pela filigrana, as pessoas prefiram cada vez mais o que é tradicional", diz Elsa Rodrigues, assegurando que "a filigrana é garantia de sobrevivência da ourivesaria tradicional portuguesa".

Hoje, a Oficina do Ouro, como outras oficinas em Travassos e Sobradelo da Goma, está preparada para receber visitantes, incluindo grupos escolares.

"Há uns quinze anos resolvemos levar para as feiras em que participávamos uma banca e fazer o trabalho ao vivo. Aquilo teve um sucesso imenso. Era só gente de volta da pessoa que estava a trabalhar. Aí, percebemos que as pessoas tinham interesse por esta arte e, dessa forma, conseguimos também fazer com que as pessoas se apercebessem do trabalho que isto dá e dessem valor a este tipo de artesanato", acrescenta Elsa Rodrigues.

PRATA GANHA TERRENO AO OURO: CUSTA 39 VEZES MENOS

São sinais dos tempos e da crise. Na filigrana, a prata ganha, a passos largos, terreno ao ouro. É que uns brincos de rainha, por exemplo, em prata custam trinta vezes menos do que uns, com o mesmo peso, em ouro. E a diferença só não é muito maior porque a mão-de-obra é a mesma. Se não, vejamos: o grama da prata ronda os 70 cêntimos, enquanto o grama de ouro já custa mais de 40 euros, ou seja, o ouro é 57 vezes mais caro do que a prata.

Quanto às peças, o minucioso trabalho da filigrana reduz a diferença. Uns brincos de rainha em prata, de tamanho médio, por exemplo, custam 45 euros. Os mesmos em ouro ficam por 1300 euros. "Hoje, mais de 90 por cento do que vendemos é em prata. São peças muito bonitas e o preço não se pode comparar", diz Elsa Rodrigues.

No entanto, esta situação não é inédita nestas terras do Ave. Nas décadas de 50 e 60 do século passado, a prata também liderava as vendas. Depois, com a subida de rendimentos das famílias, o ouro foi sendo cada vez mais opção. "Qualquer mulher que casasse tinha no enxoval uma peça em ouro. Isso acabou", lamenta a ourives.

NOTAS

OFICINAS

Em Travassos e Sobradelo da Goma já foram mais de 50 as oficinas de filigrana. Hoje são apenas doze.

1100 GRAUS

É elevada a temperatura que atinge o ouro e a prata no processo de fundição: 1100 graus centígrados.

TRADIÇÃO

São as mais antigas e tradicionais as peças de filigrana mais vendidas: a conta minhota, o coração minhoto e os brincos de rainha.

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