Portugueses podem apadrinhar cartas de 1500 meninos pobres e realizar os seus desejos de Natal.
Escrevem, desenham e formulam um desejo. É assim em todo o Mundo, todos os anos. São milhões as crianças que escrevem ao ‘Pai Natal’ e selam os seus sonhos numa folha de papel.
Mas as cartas não são todas iguais porque os meninos não nascem todos no mesmo berço. E os pedidos dos desfavorecidos distinguem-se bem dos demais. Habituados a uma vida espartana, só pedem aquilo que o Pai Natal consegue pagar e alguns até sugerem alternativas mais em conta.
"Querido Pai Natal, eu espero que tenhas dinheiro para as outras crianças e também para mim." Ariana tem oito anos e é uma das 1500 crianças que escreveu este ano ao ‘Pai Natal Solidário’, uma campanha dos CTT que surpreende meninos em situação de risco, realizando os seus desejos de Natal com a ajuda dos portugueses.
A Ariana não pediu só brinquedos porque já tem noção de que a vida pode ser bem dura sem algum conforto. Uma capa para a chuva e um guarda-chuva fazem parte dos desejos desta menina. Mas os brinquedos também lá estão.
A saber: uma Barbie com botas e sapatos, uns patins em linha número 34 e uma clínica para animais da Lego. Para além de escrever o seu pedido com uma caligrafia ainda trémula e desengonçada, Ariana desenhou também todos os seus presentes e colocou um laçarote cor-de-rosa à volta da carta. Ficou perfeita para ser apadrinhada. E tão bonita como as cartas dos outros meninos.
E o que pedem este meninos? Os mais pequenos pedem fraldas e pomadas para aliviar as assaduras no rabinho, outros querem roupa. Mas porque de crianças se trata e precisam mesmo de brincar, chovem os pedidos de jogos, consolas, roupa de marca, camisolas de clubes de futebol, bonecas, casinhas... Mas vamos lá espreitar mais uma carta, sem fazer barulho para não distrair o Pai Natal que está a finalizar a sua gigantesca tarefa de fabricar uma prenda para todas as crianças do Mundo.
"Meu Querido Pai Natal. Antes de mais um bom Natal para ti e uma festa para as tuas fofinhas renas. Este ano queria pedir roupinha para mim pois eu visto 13/14 anos e uns ténis com luzes nº 31, se puderes. Olha, podes dar-me saúde e notas boas na escola para orgulhar a minha família e mostrar que eu mereço passar o ano. Olha, os meus amigos da minha turma te mandam um beijinho e saúde para nos vêres crescer. Desta criança que te adora".
A Joana, que escreveu esta carta, tem oito anos e faz acompanhar os seus desejos com o desenho do Pai Natal com um saco cheio de presentes e de mais duas figuras. Uma delas será, provavelmente, a própria Joana. Qualquer pessoa pode fazer com que parte destes desejos se tornem realidade. Quanto às notas, terá de ser a Joana a oferecer o seu presente e não convém que seja uma raposa.
Como apadrinhar
O ‘Pai Natal Solidário’ dos CTT envolve este ano 41 instituições de solidariedade social que cuidam de crianças com necessidade de assistência social, de norte a sul do País. Estas crianças, até aos 12 anos, são convidadas a escrever cartas ao Pai Natal revelando os presentes que gostariam de receber. As cartas estão disponíveis online e em 13 Lojas CTT até final do mês para serem apadrinhadas. Por razões de proteção, todos os dados pessoais, quer dos padrinhos, quer das crianças, só serão conhecidos pelos CTT.
Para realizar o apadrinhamento de uma carta através do site, basta entrar em www.painatalsolidario.pt, selecionar uma carta e indicar o nome e o e-mail para fazer a reserva, guardando o número da carta. Depois, tem três dias úteis para passar em qualquer Loja CTT, com o número da carta que reservou e o presente que deve ser novo e não pode estar embrulhado. Os CTT oferecem a embalagem e o envio. Quem preferir, pode dirigir-se a uma das 13 Lojas CTT associadas.
O Natal no Lar Bom Samaritano
O Lar de Crianças Bom Samaritano, em Portimão, é uma das instituições que participam na iniciativa. Tem 35 crianças e jovens entre os seis e os 20 anos e todos escreveram ao Pai Natal, mas só 14 seguiram no correio da solidariedade. "Cá em casa o Natal começa com as cartas e, à medida que os presentes vão chegando, vamos compondo os sacos de Natal." A chefe desta família é a diretora, Ana Relvinhas, que explica como é o Natal no lar: "Todos os anos fazemos um festa, com uma peça de teatro e canções, dirigida às crianças e a toda a equipa, uns dias antes do Natal. Há um grupo de meninos que vai a casa e separamos as prendas para os que passam cá a Consoada."
Cada saco tem uma muda de roupa, pijama, pantufas, chocolates e brinquedos. Os meninos que não têm um padrinho do ‘Pai Natal Solidário’ contam com a ajuda de mecenas. O Lar de Crianças Bom Samaritano está a fazer 26 anos e acolhe crianças e jovens em risco, a quem tenta dar competências, consoante os projetos de vida com a família - seja nuclear, alargada ou adotiva.
11 400 presentes entregues
Através da iniciativa ‘Pai Natal Solidário’ já foram entregues mais de 11 400 presentes a crianças carenciadas desde 2009. "Nas iniciativas anteriores todos os meninos receberam os presentes pedidos e este ano temos a expectativa de que isso volte a acontecer, graças à generosidade", explica uma fonte dos CTT, adiantando que "há grupos de amigos ou colegas de empresas que se juntam para apadrinhar determinados presentes, normalmente os mais dispendiosos". Segundo Miguel Salema Garção, responsável dos CTT pela iniciativa, o ‘Pai Natal Solidário’ depende da bondade dos portugueses, que nunca falharam um único presente a estes meninos. "Os portugueses têm dado mostras de que são um povo solidário." Até agora essa solidariedade não falhou, mas os CTT estão na retaguarda para acautelar uma eventual distração: "A iniciativa tem uma enorme adesão junto dos nossos colaboradores, que se juntam e adquirem um presente", se necessário. Garantida está a confidencialidade. Nem o padrinho sabe quem é o afilhado, nem o afilhado sabe quem é o padrinho.
170 mil no correio
Além de promoverem as cartas dos meninos desfavorecidos, os CTT também dão vazão aos desejos de todas as outras crianças que escrevem ao Pai Natal. Este ano espera-se que cheguem às 170 mil. A maioria pede brinquedos, mas há também quem peça animais de estimação ou, nalguns casos, um irmão ou uma irmã. Todas as cartas são respondidas e acompanhadas por uma lembrança, mas é importante que tenham uma morada para que os CTT respondam. Estas cartas são as únicas que podem circular sem selo e não faz mal se forem dirigidas ao ‘Polo Norte’, ‘Lapónia’, ‘A Terra do Frio’ ou o ‘Caminho das Estrelas’, como é habitual.
A lenda do Pai Natal
Mas afinal de onde vem esta ideia do velhote de barbas brancas, bochechas rosadas, gorducho e com um trenó cheio de prendas puxado por renas? A figura é inspirada em São Nicolau, bispo dos séculos III-IV que ficou conhecido pela sua generosidade. É patrono das crianças, dos estudantes e dos marinheiros. Reza a lenda que ajudou um comerciante falido, com três filhas, que não tinha dinheiro para o dote. Para evitar que o pai as prostituísse, Nicolau, a coberto da noite, atirou um saco de ouro e prata por uma janela que caiu junto da lareira, onde estavam meias penduradas a secar. A imagem do Pai Natal como hoje a conhecemos teve origem no poema ‘A Noite de Natal’ (1822), de Clement Clarke Moore sobre São Nicolau.
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