Gisela tem o castanho na íris do olhar, cabelo curto encaracolado. Os olhos azuis grandes, expressivos, de Sara, e o cabelo em espiral, são referências corporais de quem se veste de negro – com uns pontinhos garridos nas listas vermelhas do cachecol.
Diferentes das japonesas. São as ‘Shoot to Kill’ (na internet em shoottokill.wordpress.com). Têm licença para matar as nossas ‘fronteiras’ com os nipónicos. Os tiros são BD ‘manga’: onde os quadradinhos se lêem do final para o início do livro; a capa rouba lugar à contracapa; a preto e branco; com personagens de olhos grandes, corpos delgados. Um ‘nicho’ em Portugal.
Nas prateleiras do estúdio em Arneiro dos Marinheiros, Sintra, repousam bíblias ‘manga’. Polvilham-nas pequenas estatuetas das personagens das estórias – bonecos. Tintas, aparos, lápis, agarram-se às mãos a caminho da brancura do papel. Importações do Japão. As conversas são cerejas na boca de Gisela Martins, com 28 anos, e Sara Ferreira, 25. Conheceram-se num curso de Animação 3D e começaram a compartilhar as pranchas de ‘manga’.
“Os japoneses têm tendência para preparar as crianças para o mundo adulto”, diz Gisela. “É óbvio o de-senvolvimento da personalidade das personagens”, acrescenta Sara. Ambas desenham, desenvolvem o argumento e assinam “Shoot to Kill”.
No Centro Comercial do Lumiar (Lisboa), a loja Jikai foi tirar o nome à expressão que lança as cenas do próximo capítulo no final de um episódio de ‘anime’ (os desenhos animados japoneses). Há um ano nem duas prateleiras de ‘manga’ havia. “Agora multipliquei por oito”, conta Leonardo Basílio, de 33 anos. “O que dá esperanças.” De lucro. Livros desde “7,99 dólares a 13,55” – em inglês, importados. Custam menos em euros já que o dólar desvalorizou. Só falhou a experiência “ingénua” de importar ‘manga’ em japonês, fazendo fé nos estudantes que aprendem a língua.
A História de Macau também tem ascendente neste investimento. Leonardo nasceu lá. “A Ásia prima pelo entretenimento. Para mim era natural ver na TV os ‘Transformers’ (animação norte-americana com robôs) como o ‘Conan, o rapaz do futuro’ (‘anime’).” Naquele antigo território português, a proximidade com Hong Kong resultava numa miscelânea de canais chineses e americanos. E portugueses.
Cá só havia a RTP e, quando Leonardo veio – com 18 anos – ficou “chocado”. Faltava diversidade.
Mas a moda pegou na televisão nacional. A própria RTP transmitiu depois ‘Conan, o rapaz do futuro’; a SIC ‘Dragon Ball’ e ‘Dragon Ball Z’, que fizeram parar universidades; e a TVI emitiu os episódios de ‘Samurai X’.
Incarnar as personagens não se resume ao imaginário ‘manga’, à imitação do ‘anime’. Veste-se a roupa (e a pele...). É ‘cosplay’. O cabelo das raparigas cobre-se com perucas em tons de azul ou amarelo exuberante; às roupas acetinadas somam acessórios místicos; enchem-se de romantismo com iluminação nos lábios e uma silhueta oriental no olhar. Eles dominam-se pela acção, por guerreiros futuristas. Até robôs humanóides – como André Filipe, com 17 anos, fica dentro das armaduras criadas pelo próprio. “Em vez de preferir costurar, gosto mais de pegar em plástico e alumínio e moldá-los.”
Chamem-lhe ‘otaku’. Fica ofendido. “Eles passam horas trancados em casa. É típico dos japoneses mas está dissociado dos ocidentais” – defende um fã de Corroios, portanto.
Fã também desde os 14 anos, e agora com 28, Ricardo Santos já tem “dificuldade em encontrar uma série de que goste”. O finalista do curso de Informática preside à associação Anipop (em www.anipop.org), com sede em Paço de Arcos (Oeiras). “Temos 280 associados. Quando há uma identificação cultural que não é ‘mainstream’, as dificuldades em encontrar produtos e informação tornam a comunidade mais forte.”
A Anipop todos os anos organiza um evento – o próximo, de 28 a 30 de Dezembro, na Casa da Juventude do Parque das Nações, em Lisboa – que concentra não só ‘manga’ e ‘anime’ como workshops de desenho ou de língua japonesa, concursos de videojogos e ‘cosplay’. Até se canta em japonês!
Longe dos eventos específicos, se no Japão esta indústria é parte da cultura, em Portugal as revistas literárias pouco pegam em ‘manga’. “Não se fala porque a BD é para quem não se esforça a ler”, ironiza Ricardo Andrade, de 33 anos. “Há muito o estigma de que a BD é franco-belga (Astérix ou Tintin), nada mais”, completa Mapril Santos, de 35.
São ambos responsáveis pelo lançamento da revista on-line ‘Waribashi’ (em www.waribashi.pt). Só cultura nipónica. Mas Ricardo e Mapril têm vistas largas para a animação japonesa. Esperam ser pioneiros a produzir ‘anime’ no País. É esperar mais seis anos e ver o resultado. Para já editaram três ‘fanzine’ assinadas por Gisela e Sara. Que esgotaram, sem truques na manga.
HÁ 'MANGAS' ADULTOS E INFANTIS. TUDO SE LÊ
‘Shonen’ é rapaz em japonês; ‘shoujo’ rapariga. São também estilos ‘manga’. Mais: ‘Gekigá’ dirige-se aos adultos; ‘ecchi’ é erótico, pornográfico. No Japão há ainda publicações para homens de negócios. Donas de casa. As personagens normalmente são demoníacas, também robôs, ou bonecos em que toda a expressividade é dada pelos olhos grandes (diferentes dos nipónicos) e uma boca com poucos movimentos. A ideia de acção é dada por linhas de velocidade e pelo tipo de planos utilizados. Entre os autores obrigatórios de ‘manga’ primeiro surge o ‘pai’ do estilo, Osamu Tezuka. Depois aparecem mais. Como Katsuhiro Otomo, criador do ‘Akira’. Por cá, os fãs rondam os 5000, a maioria entre 14 e 16 anos. Os livros que chegam são em inglês, a tradução é cara.
'MANGA' NO FESTIVAL DE BD DA AMADORA
O Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), que termina no próximo domingo, tem espaços dedicados a todos os tipos de BD. E o estilo japonês ‘manga’ não é excepção. Além de participarem noutras iniciativas, Gisela Martins e Sara Ferreira vão participar nas Oficinas de Banda Desenhada,
a realizar no Forum Luís de Camões, no dia 3, a partir das 14h00. A dupla ‘Shoot to Kill’ junta-se a Carlos Pedro e Mário Freitas para desenharem em conjunto “uma BD em três horas”. Qualquer pessoa pode assistir ao desafio. Em simultâneo, a partir das 15h00, realiza-se o concurso de ‘cosplay’ – em que diversos participantes se mascaram com as roupas das suas personagens de eleição.
Para mais tarde, entre 28 e 30 de Dezembro, na Casa da Juventude do Parque das Nações, em Lisboa, decorre o certame anual da associação Anipop, de cultura japonesa, ‘anime’ e ‘manga’. Ricardo Santos, dirigente da Anipop, considera que os portugueses se aproximam dos nipónicos, primeiro por questões estéticas. “Se não gostam do traço, da estrutura das estórias, das cores (a maioria dos livros ‘manga’ são a preto e branco, só na ‘anime’ as roupas e os cenários são pintados com cores muito vivas), não fazem aqui nada. Mas descobrem-no em cinco segundos.” Em segundo lugar, porque “a animação japonesa tem produtos para todos os segmentos de mercado: guerra, intervenção social, ficção científica, romance, comédia, e muitos outros”. Mas nem todos estes estilos estão disponíveis nas livrarias portuguesas com prateleiras de ‘manga’.
Tem 33 anos e veio de Macau aos 18 para estudar Gestão mas acabou por terminar Informática. Cansado de enviar currículos sem resposta, decidiu abrir uma loja para vender livros de ‘manga’ e merchandising associado.
Tem 17 anos e vive em Corroios. Este caloiro em Ciência Política vive a animação nipónica ao ponto de, desde 2002, fazer fatos para se mascarar como as suas personagens de culto. Só para eventos.
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