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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

PARTO À ESCOLHA: PRIVADO GARANTE ANESTESIA

Nas maternidades públicas faltam anestesistas para aplicar a epidural. Nas instituições privadas as grávidas têm de desembolsar 5 mil euros para serem anestesiadas. Em Portugal, dar à luz ainda é um acto de coragem

18 de janeiro de 2004 às 00:00

Qual a probabilidade de uma mulher ter um parto sem dor no Hospital da Cuf Descobertas? E na Maternidade Dr. Alfredo da Costa? Os dois hospitais estão separados por poucos quilómetros. Mas a qualidade de vida das mães grávidas não podia ser mais distante. Na instituição privada, cerca de 99 % das grávidas recorrem à epidural durante o parto. Já na maternidade pública, apenas um terço dos nascimentos se realiza sem dor. “Nos nossos dias, deveria ser a mulher a decidir se quer ou não tomar epidural. Isso é uma realidade nos privados. Na saúde pública, mesmo quem deseja um parto sem dor, tem de estar dependente se há ou não um anestesista de serviço”, afirma Isabel Ramos D’Almeida, terapeuta numa instituição particular e na Maternidade Dr. Alfredo da Costa (MAC).

Na maior maternidade do país, há cerca de 7 mil partos por ano. Gratuitos para as mães que descontam para a Segurança Social e outras Caixas de Previdência. Todos os dias, dezenas de grávidas com barrigas de tamanhos diferentes esperam a sua vez para a consulta de obstetrícia, sentadas nos desconfortáveis bancos de madeira.

Andreia Mendes, 22 anos, é uma das mais ansiosas. “A Myriam Daniela tem 41 semanas e já devia ter nascido há sete dias”. A sua barriga é enorme. “Quero recorrer à epidural porque tenho medo da dor. A minha mãe disse-me que o parto natural é muito traumatizante”, afirma a empregada de limpeza, de Odivelas. Minutos depois, levanta-se. O seu nome foi chamado por uma enfermeira. “Se calhar, ainda me internam hoje”, diz antes de se despedir.

Não há certeza de que Andreia consiga ter um parto sem dor. É grande a carência de anestesistas, que se desdobram entre as urgências e os partos no bloco operatório. “Só há dois por equipa. E não chegam para todas”, explica Ana Campos, directora do serviço de obstetrícia da MAC. “Esta é uma das razões pela qual a epidural só é utilizada em 35 % dos partos na maternidade”. Ou seja, dos 6 800 nascimentos em 2003, apenas 2200 tiveram direito à analgesia, que custa ao Estado entre 250 a 500 euros. Uma percentagem pouco elevada

para a maternidade que se orgulha de ser a primeira em Portugal a usar esta técnica, desde 1983. Mas semelhante à média nacional. “Só nas cesarianas, é que a epidural é de quase 100 %.”

Um dos anestesistas da MAC, Costa Martins, considera que se deu um “grande salto na última década”, havendo “muito mais hospitais públicos” a recorrer à epidural. Quem ganha com isto? “As grávidas. O facto de lhes tirarmos as dores no trabalho de parto, permite que as funções do seu corpo estejam normais”. A mulher respira com mais calma e o bebé não tem stresse. “Afinal, a dor não tem utilidade nenhuma”, resume o anestesista, para quem a epidural é um método com poucos riscos.

Não faltam, porém, mitos sobre esta analgesia. Nas aulas de Isabel Ramos D’Almeida na 'Mamãs e Companhia' há quem tenha receio de uma agulha tão grande. Ou de ficar paralítica. Segundo a especialista, o único senão da epidural é o facto das mulheres poderem “perder alguma vontade de fazer força na expulsão do bebé. Nesses casos, pode ser necessário o uso de fórceps”. Para evitar esses casos, Isabel D’Almeida ensina as alunas a contrariar as sensações causadas pelo fármaco. “A preparação pré-parto é essencial para evitar surpresas.”

Nos corredores frios da MAC, há mulheres que nunca ouviram falar da epidural. “O que é isso?”, pergunta uma mãe de origens humildes que preferiu não se identificar. Maria Carlos, uma mulher grávida de 37 semanas, sentada ao seu lado, explica-lhe: “É uma técnica para tirar a dor no parto sem nos pôr a dormir. Espeta-se uma espécie de agulha nas costas, mas não dói nada.” A ouvinte faz um esgar de espanto.

“Num dia de grande afluência, há em média duas a três parturientes que desconhecem a epidural”, comenta Ana Campos. A directora do serviço de obstetrícia da MAC alerta também para o exemplo oposto: “Às vezes, as grávidas aparecem na maternidade no final do trabalho de parto e querem à força tomar epidural. Nesses casos, o fármaco já não é necessário porque não tem tempo para fazer efeito. Mas é uma obsessão delas.” A médica conclui: “Continua a haver falta de informação.”

UM PARTO DE MIL CONTOS

O reverso da medalha são as instalações hospitalares de luxo no Hospital Cuf Descobertas. "Oferecemos os mesmos serviços disponíveis nas maternidades públicas. Com a vantagem extra dos cuidados de hotelaria.” A explicação é de Conceição Telhado, coordenadora da unidade de obstetrícia do mais recente hospital privado do Grupo Mello.

Inaugurado há cerca de três anos e localizado no Parque das Nações, à primeira vista o Cuf Descobertas confunde-se com um hotel de cinco estrelas. Os corredores são limpos e arejados, dotados de portas automáticas e com música ambiente. Uma visita aos quartos faz concluir que o aumento da construção imobiliária naquela zona está a afastar, cada vez mais, o Rio Tejo. Pelas janelas já só se vêem prédios, mas isso não parece aborrecer as mães. Bem instaladas nos seus quartos, com casa de banho privativa, televisão e ar condicionado, a maioria mostrava-se satisfeita com a opção de ter escolhido esta instituição privada para dar à luz.

A brasileira Marcélia Oliveira, de 24 anos, é um desses casos. A residir na Amadora, começou por ir às consultas de obstetrícia do Hospital Amadora-Sintra. Mas cansou-se de esperar tanto tempo para ser atendida: “Cheguei a estar lá seis horas. Até que um dia fartei-me e fui fazer um seguro de saúde.” Um gesto simples que lhe abriu as portas do Cuf Descobertas - onde um parto com epidural pode ultrapassar os 5000 euros (mil contos). Uma factura demasiado alta para a maioria dos portugueses. E por isso mesmo, só acessível a todos os que dispõem de seguros de saúde. Conceição Telhado confirma: “80 por cento dos partos são comparticipados.”

Marcélia já pariu duas vezes. A primeira, sem analgesia epidural: “Tive dores horríveis. No Brasil só se utiliza a epidural na cesariana. Como não era o meu caso, tive um parto à moda antiga”, recorda. Sete anos depois e a viver em Portugal há quatro, decidiu dar uma irmã à filha Juliani. Desta vez, além de ter optado por um hospital privado, fez questão de se informar sobre a epidural. “Tinha medo que os medicamentos fizessem mal ao bebé. Mas depois de conversar com a médica, resolvi arriscar.”

Conceição Telhado já conhece de cor e salteado as dúvidas das grávidas que aqui chegam, amedrontadas com a hora ‘H’. Há quem venha disposta a aguentar a dor, estoicamente, mas assim que entra para sala de partos e as contracções se agudizam, não hesita em pronunciar as palavras mágicas: 'epidural já'!

“Mas uma grande percentagem faz logo questão de avisar que quer um parto sem dor. É por isso que 99 por cento dos partos são feitos com recurso à analgesia epidural”, explica a médica. Um facto que contrasta com o que a realidade no serviço de saúde público, onde o número de anestesistas não chega para tantas ‘encomendas’. No Cuf Descobertas, isso raramente acontece porque há sempre um especialista em serviço na sala de partos. “Só quando a situação se descontrola é que pode haver falta de técnicos. Chegámos a ter 16 partos em menos de 24 horas.”

Um dia caótico, a que os profissionais da Maternidade Dr. Alfredo da Costa já estão habituados. Nas Descobertas, só no ano passado nasceram 1820 bebés. E desde o início de 2004, já se fizeram 75 partos. A grande maioria, com recurso à epidural. Para a médica, a generalização deste método anestésico não levanta qualquer problema: “Já ninguém quer o parto à moda antiga. A dor é cada vez mais dispensável.”

Faz, no entanto, questão de deixar um alerta a todas as grávidas: “As mulheres devem saber que não basta uma injecção para o assunto ficar resolvido. É essencial assistir a aulas de relaxamento e de preparação para o parto, porque os exercícios respiratórios vão ajudá-la a cooperar na fase de expulsão do feto”.

VANTAGENS

- Evitam-se as reacções alérgicas (como enjoos ou comichões) aos componentes da anestesia

- O bebé não é afectado pelo uso de medicamentos

- Verifica-se um menor risco de infecções no pós-parto, sendo a recuperação da mulher mais rápida.

- Segundo os especialistas, a incidência de depressão pós-parto diminui consideravelmente

RISCOS

- A dor pode levar muitas mulheres a perderem o controlo durante o parto, afectando o seu curso normal

- O incómodo pode impedir de desfrutar o parto

VANTAGENS

- Ao estar mais tranquila, a mulher colabora mais e respira melhor, e o bebé recebe mais oxigénio

- Sem dor a mãe desfruta o parto

- Pode encurtar a dilatação, e consequentemente, acelera o parto, já que a mãe não está tensa e as contracções são mais efectivas

- Nas cesarianas, permite que a mulher esteja desperta durante a intervenção e veja nascer o filho

RISCOS

- Numa percentagem baixa, pode causar hipotensão, náuseas, cefaleias ou retenção de urina

- Pode fomentar o uso de fórceps (ao não sentir a dor, a mãe pode empurrar com menos força e atrasar ou dificultar a saída do bebé)

A ARREPENDIDA

“A meio, optei pela epidural”

Lucinda Medeiros, 36 anos, passou os nove meses de gravidez com a certeza que o parto natural seria a melhor opção para o seu bebé. Mas depois de algumas horas no Hospital Cuf Descobertas, a tentar suportar a dor das contracções, a psicóloga voltou com a palavra atrás: “Só pensava no alívio que a epidural me iria proporcionar”, admite Lucinda, casada há nove anos com Mário Cardoso, arquitecto, de 34 anos. Hoje está convencida que decidiu bem: “Foi melhor assim. Estava a ficar descontrolada e já nem conseguia fazer a dilatação”. Livrou-se das dores, mas na fase da expulsão do bebé teve alguma dificuldades em fazer força. O reforço da epidural poderá ter retardado a saída do bebé. Um episódio que não a impede de recomendar às futuras mães o uso da epidural no parto.

A CORAJOSA

“Tenho três filhos e nunca fiz epidural”

Para Cristina Crispim, ser mãe já não é novidade. “O Telmo será o meu quarto filho”, declara a alfacinha de 29 anos que não recorreu à epidural nos três partos anteriores. “Nunca senti dores. A dilatação fez-se muito depressa. Foi só chegar à maca e fazer força.” A história não será diferente no próximo parto. “Uma mãe tem de pensar no momento do parto como uma dor passageira que irá valer a pena suportar”, disserta. “É assim que se vê o amor ao filho.” Casada há sete anos, Cristina está desempregada. Neste momento, no entanto, a sua única preocupação é a gravidez de seis meses e meio. "O Telmo já está a dar os seus sinais de vida."

A ENTUSIASTA

“Uma das invenções do século”

“A epidural é uma das invenções do século”, exclama Fernanda Resende. “Há contra-

-indicações, mas se não fosse um método seguro, não seria aplicado em partos normais e sem risco.” A consultora fiscal e o seu marido, Carlos Resende, ambos de 31 anos, são adeptos incondicionais da analgesia. A opinião foi reforçada depois de frequentarem um curso de pré-parto no ‘Mamãs e Companhia’, em Lisboa: “Os receios em relação à epidural passaram a ser pretérito perfeito.” Hoje, as suas angústias são outras. “Como será o momento do parto? Irei comportar-me bem? O bebé irá nascer sem problemas?”, questiona-

-se Fernanda enquanto passa a mão pela barriga. A resposta será dada daqui a seis semanas, quando o João, o primeiro filho do casal, vir a luz do dia.

AO NATURAL

“Quero fazer um parto sem epidural”

“Quero sentir todas as fases do parto ao natural. Não tenho medo da dor e não irei recorrer à epidural”, explica Maria Carlos, 37 anos. Faltam três semanas para dar à luz o seu primeiro filho, o João. Os últimos dias da administrativa do Prior Velho têm sido sofridos: “Tenho dores nas costas e nas pernas. A barriga está pesada. Não consigo dormir. Vou à casa de banho de cinco em cinco minutos. Mas isso é pouco para quem sonhava em ser mãe há muito tempo.” Maria Carlos e Artur, técnico de comunicações da Lusa, estão casados há 16 anos. Após várias tentativas para ter filhos, decidiram adoptar uma criança: a Carina. “De certa forma, ela acabou por dar origem ao João.” Dois meses depois da adopção, Maria Carlos ficou grávida, para surpresa do casal. “Estamos a viver em exclusivo para o João.”

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