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Passadeira da morte

Com sete anos, Rafaela foi brutalmente atropelada em plena passadeira. Perdeu a vida sem concretizar o sonho de desfilar numa ‘passerelle’ de verdade.

07 de maio de 2006 às 00:00

A imagem da menina alta, magra, cabelos longos cor de mel, olhos grandes e pestanudos, cuja aparência camuflava tenros sete anos, está bem viva na memória de todos. Rafaela era uma menina mulher. Sonhava ser modelo. E, diz quem a conhecia, tinha potencial.

Vaidade não lhe faltava. Perdia-se no tempo a admirar-se ao espelho e as brincadeiras de faz-de-conta eram levadas a sério. Tinha o hábito de se estender na banheira a tomar relaxantes banhos de imersão e, às escondidas da avó, aproveitava para rapar os pêlos das pernas. A seguir, emperiquitava-se com uma das muitas mini-saias que guardava religiosamente no guarda-roupa.

A isto, juntava meias de rede cor-de-rosa, a cor preferida, e calçava socas de salto alto. Para dar um toque final passava uma espessa camada de ‘gloss’ pelos lábios. Feita a ‘toilette’, ficava ali, horas a fio, a viver no seu mundo de fantasia.

O sonho desvaneceu-se a semana passada quando Rafaela caminhava numa passadeira para peões. Depois de brutalmente colhida por um táxi a menina voou e o seu corpo, leve e ligeiro, foi embater contra um pilar de ferro com tanta força que o arrancou desde a raiz. Os sinais da tragédia estão a olho nu – há manchas secas de sangue no chão e as pedras da calçada ainda não tiveram tempo para voltar a assentar.

Vêem-se também flores de todas as cores e feitios, fotos do seu rosto, lêem-se mensagens emocionadas escritas em pequenos cartões colocados na berma da estrada. As riscas brancas que desenham a passadeira no alcatrão foram invadidas por riscas pretas da borracha dos pneus que apagaram para sempre uma vida recheada de sonhos.

RAFAELA ERA MEIGA

São onze horas da manhã e o café Claúdio permanece com os gradeamentos da porta e das janelas corridos para baixo. Desde que Rafaela morreu tem sido assim – um dia a família abre o estabelecimento, no outro não. O percurso do Cacém, onde vivem, até à Quinta da Cabrinha, onde exploram um café, traz memórias que preferem não lembrar.

A rotina é hoje vivida com um misto de dor e nostalgia. Dor pela “grande perda” e nostalgia dos tempos em que acordavam com as galinhas e, em família, faziam-se à estrada rumo a Alcântara. Enquanto os avós, Fátima e António, e o pai, Nuno, ficavam no café, Rafaela ia para a escola até meio da tarde e, quando regressava, enchia as ruas de cor em brincadeiras com as outras crianças.

Retornavam a casa já depois do sol se pôr.

Tinha Rafaela acabado de completar um ano quando a mãe a abandonou para ir atrás de um grande amor – a menina ficou entregue aos cuidados do pai e dos avós. “E a mãe nunca mais quis saber dela, nem para lhe dar uma carcaça”, adianta a avó. Mas apesar da precoce ausência materna, Rafaela nunca demonstrou ressentimentos. “Era muito feliz”, garante Fátima , a choramingar, ao mesmo tempo que devora mais um cigarro.

Com boa disposição para dar e vender, Rafaela era frequentemente disputada pelos amiguinhos que gostavam de ter a sua alegria por perto. “Até o padre e a catequista a adoravam”, sublinha a avó.

Senhora do seu nariz, Rafaela sabia também ser doce. “Quando me via chorar limpava-me as lágrimas e dava-me festinhas”, conta Fátima. Ambiciosa q.b., já denotava ter bom coração. “Dizia que quando fosse grande ia comprar uma casinha e que nos levava a todos com ela, dizia que ia pôr-nos bem na vida”, recorda. “Se chegasse a mulher ia ser uma grande mulher”, acrescenta com as palavras atropeladas pela mágoa.

PAI E FILHA

A um passo de completar oito anos, Rafaela frequentava a 1.ª classe na Escola Básica do 1.º Ciclo, Vale de Alcântara, Quinta do Loureiro. “Não tivemos possibilidade de a pôr a estudar mais cedo”, limita-se a dizer o avô, sem querer entrar em pormenores. Rafaela era, contudo, “amiga da escola” e colocava o Desenho no topo das preferências.

Em matéria de ensino, tudo indica que só a assiduidade tinha nota negativa. “Ouvi dizer que ela faltava muito”, adianta a mãe de uma colega de turma de Rafaela. A informação não é, contudo, confirmada nem desmentida pela direcção da escola. “Não estamos autorizados a falar”, afirmam. Mas entre olhares constrangedores, vão adiantando que “naquele dia Rafaela não compareceu às aulas” e que ela “tem um processo na Comissão”. Na Comissão de Protecção de Crianças e Menores de Lisboa Ocidental, que entre outras áreas abrange a zona de Alcântara, o comentário é o esperado: “Os processos são reservados”.

Embora com algumas reticências, apenas uma vizinha da Quinta da Cabrinha se atreve a descortinar um pouco mais sobre a situação: “As pessoas comentam que por ali sempre houve muita irresponsabilidade. A menina andava com rapazes de um lado para o outro. Daquele tamanho e com aquela idade não era para andar por ai ao Deus dará.”

Indignados, Fátima e António refutam estas informações: “A menina ia sempre às aulas, aquele foi um dia sem exemplo”, garantem. “Logo por azar quis ficar em casa, parece que estava a adivinhar”, lamenta a avó. “Naquela manhã senti-me mal e a Rafaela pediu-me muito para não a levar, queria ficar comigo”, explica o pai. “Ela gostava da escola, mas gostava mais de mim. Eu fazia-lhe as vontades todas...”, acrescenta.

Unha e carne, pai e filha quase nunca se largavam. Depois da sua morte, Nuno mantém-se de pé graças a uma grande dose de calmantes. A vida não lhe tem sorrido.

Há seis anos perdeu para outro a companheira que ainda hoje ama, agora ficou sem a mulher da sua vida. “Era a minha filhinha, até dormíamos juntos...”, adianta de semblante carregado. “Ele vivia para a filha e a filha vivia para o pai”, diz Fátima que em 53 anos nunca viu amor tão incondicional.

CRIANÇAS MARCADAS PARA SEMPRE

Tó tem apenas dez anos mas já descobriu o significado da palavra saudade. Não era um simples amigo, mas o namorado de Rafaela, “já há algum tempo”, faz questão de frisar. Os olhos, azul do céu, ficaram mais nublados a partir do dia em que viram a namorada ser brutalmente atropelada. “Eu vi”, repete vezes sem conta. Para amenizar a dor que lhe aperta o pequeno coração, todos os dias, antes de ir para a escola, passa pelo pilar que roubou a vida a Rafaela e dá um beijo na sua fotografia. “O taxista vinha a abrir, é o culpado”, diz seguro de si, depositando a sua revolta nos rolitos de Cheetos que põe à boca.

Momentos antes do acidente, Tó tinha estado com Rafaela e mais um primo dela a brincar na estação da CP de Alcântara-Terra. “Há lá um repuxo de água e estivemos ali toda a tarde a dar banho ao cão”, recorda. No regresso a casa, Rafaela atravessou as seis faixas de rodagem que separam a Quinta da Cabrinha e a Quinta do Loureiro, na Avenida de Ceuta. Mas não chegou a completar a travessia. Entretanto, o semáforo caiu para vermelho para peões, quase ao mesmo tempo que caiu verde para a faixa de Bus (transportes públicos). O taxista atirou o pé ao acelerador, mas não conseguiu ir muito longe. Quase de seguida esbarrou no corpo da menina. Mais atrás vinham as outras duas crianças para quem a vida ficou marcada para sempre. “Foi horrível, vê-la ali deitada, eu ainda tentei chegar perto, mas não me deixaram”, conta Tó de beicinho. Só se despediu dela já no cemitério da Ajuda.

A FAMÍLA QUER JUSTIÇA

A imagem da menina alta, magra, cabelos longos cor de mel, olhos grandes e pestanudos estava transfigurada. Tinha deixado de brilhar. Deitada entre o alcatrão e a calçada, Rafaela tinha os olhos semiabertos e perdia sangue pela boca. Mantinha-se imóvel, indiferente aos gritos de socorro que ecoavam ao seu redor. A primeira pessoa a responder aos apelos de ajuda foi o próprio avô que tudo fez para lhe devolver a vida. Em vão. “Deitei-me em cima dela, beijei-a, mas ela já estava morta”. De qualquer forma, não deixa de apontar o dedo à intervenção do INEM.

“Só chegaram ao local 45 minutos depois do atropelamento, não se justifica”, atira, inconformado. No entanto, segundo Ana Maria Rós, porta-voz do INEM, em declarações ao CM no dia a seguir ao atropelamento, “a chamada foi recebida às 15h32, os meios foram accionados às 15h33 e às 15h37 chegaram ao local, iniciando logo a manobra de reabilitação”. Fica a dúvida.

Quando chegou ao local para socorrer a neta, António já não viu nem sombra do taxista. Logo depois do acidente a Polícia deu ordem ao homem de 50 anos para seguir marcha, com receio de represálias por parte dos moradores e familiares, e pediu-lhe que se fosse entregar na Esquadra do Calvário. O taxista, porém, não conseguiu percorrer mais que 50 metros. Um outro automobilista terá ido no seu encalço, barrando a sua passagem próximo da estação de comboio de Alcântara. Quase em simultâneo chegaram os agentes do Calvário, evitando o pior.

António, Fátima e Nuno não lhe desejam mal, pretendem apenas que seja feita justiça. “Queremos que ele seja punido por aquilo que fez. Ele está a comer e a beber em casa e a minha neta está debaixo da terra”, diz António na condição de porta-voz da dor.

“Ele foi malandro, vinha a uma velocidade tão grande que fez a minha neta a voar”, continua a despejar indignação. Para além disso, rezam, rezam muito para que os seus olhos não voltem a assistir a semelhante tragédia. “Esta estrada é um perigo, mais parece um Jardim Zoológico, têm de acabar de vez com isto!”. Palavra de quem sofre.

QUANDO A CULPA SE TRANSFORMA EM DOR

Para quem atropela o sentimento de culpa tem manifestações próximas do stress pós-traumático de guerra. O psicólogo Quintino Aires diz que “embora não esteja numa guerra verdadeira, quem involuntariamente fere ou mata na estrada é vítima de um stress aproximado do do ex-combatente”.

Pesadelos, sono muito agitado, muita ansiedade, pânicos vividos no quotidiano (por exemplo, travar um carro numa situação semelhante à do sinistro) ou sobressaltos compõem o quadro de quem foi “a outra vítima do acidente”. Quintino Aires lembra que o sentimento de culpa pode transformar o “mau da fita” numa pessoa vitimizada.

O quadro psicológico pode agravar-se até à impossibilidade de conduzir ou mesmo de se sentar num dos bancos de um veículo motorizado. Nesse aspecto, se a profissão do indivíduo que atropela é a condução automóvel, não será por mudar de ocupação profissional que se resolve o distúrbio psicológico. “Verbalizar, nem que seja com alguém próximo, é a melhor terapia. Falar do ocorrido, do trauma, da pressão, dos próprios sentimentos é uma forma de ultrapassar qualquer situação traumática.”

No caso do profissional de transportes, o psicólogo vê a panaceia para o trauma dificultada por razões culturais. “A maioria destes profissionais é do sexo masculino. Sabemos que, culturalmente, um homem não sofre e, sobretudo, não fala disso, nem procura ajuda.”

O tempo necessário à assimilação do ocorrido – isto é, a fazer a racionalização da emoção da culpa – é muito variável. “Vai de pessoa para pessoa e depende também se a vítima do atropelamento chega ou não a falecer. A morte pode piorar e muito o quadro psicológico de quem atropelou”, diz Quintino Aires.

Uma culpa que instala à velocidade de um embate com efeito irreversível. Mas que não pode morrer solteira. O factor risco associado à travessia de várias zonas urbanizadas da capital, atravessadas por vias rápidas, é uma dor de cabeça antiga para a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados. “Esperemos que haja coragem política para fazer algo diferente. Há uma responsabilidade histórica da Câmara Municipal ao criar um ambiente rodoviário que promove a velocidade do condutor”, aponta o presidente, Manuel João Ramos.

“Já tínhamos feito requerimentos no âmbito da campanha ‘Vamos Acabar com os Pontos Negros nas Estradas Portuguesas, ao nível da semaforização, marcações no chão, passadeiras tipo zebra e redução das faixas de rodagem porque as coisas se engarrafavam”, relembra o dirigente, ciente de que ainda há muito trabalho a fazer para erradicar as áreas potencialmente mortíferas. “As nossas propostas não resolvem tudo, mas podem minimizar a situação”, defende Manuel João Ramos.

A Segunda Circular, o eixo Norte-Sul, a CREL, as avenidas Gago Coutinho e da República e o Campo Grande são pontos onde a ameaça espreita.

MORTE DE RAFAELA TRAZ ALTERAÇÕES À SINALIZAÇÃO DA AVENIDA DE CEUTA

Há muito que os moradores da Quinta da Cabrinha e da Quinta do Loureiro temiam uma história com este desfecho. O excesso de velocidade dos automobilistas, as travagens bruscas e o incumprimento dos semáforos são perceptíveis até para quem ali pára só por breves instantes. Por isso, não se cansam de reclamar o facto de desde há sete anos, altura em que foram transferidos do Casal Ventoso para aquele bairro, terem sido votados ao abandono.

Rui Amaral, tio de Rafaela, diz que a história se repete todos os dias. “Hoje foi com a minha sobrinha, no outro dia foi com uma senhora, amanhã vai acontecer outra vez e limitaram-se a pôr umas lombas, sendo que a maioria já não existe.” Para além disso foram construídas duas pontes pedonais, mas precisamente em sítios onde quase não existe habitação. “Quem é que vai dar esta volta enorme para passar as pontes!?”, atira Rui indignado. “Eles têm é que pôr aqui uns sinais de controlo de velocidade”, sugere, com o aplauso de António, avô de Rafaela.

Após o acidente as mudanças na faixa de rodagem da Avenida de Ceuta não se fizeram esperar. Foram instaladas bandas de desaceleração antes do semáforo e o funcionamento dos semáforos do corredor Bus foi alterado de maneira a evitar que o sinal para os transportes públicos passe a verde antes dos restantes. Vê-se ainda uma câmara instalada por cima do semáforo mas que, segundo António, “serve apenas para abrir e fechar o sinal mais cedo. O festival é o mesmo”.

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