Chegou a acampar no terreno, com roulotte e tenda. Depois, foi construindo a casa a pouco e pouco, “como se de um lego se tratasse”. Edmundo Pedro escreve as suas memórias no refúgio
Aazáfama é constante. Não param, nem ele, nem ela, de um lado para o outro, rega daqui, colhe dali. O jardim deve ser aparentado com aquele onde um certo Adão se deixou um dia tentar por uma certa Eva a experimentar as delícias do fruto proibido. Ali, não são as maçãs que convidam ao pecado da gula. São as laranjas. 'Nunca comeu iguais a estas', garante o anfitrião, Edmundo Pedro. O desafio é também um convite. Depois da prova, não há como contradizê-lo: doces e sumarentas, as frutas que deram nome à cor merecem os elogios. Lurdes, a mulher do 'decano da resistência antifascista' – é o próprio que assim se define – não se cansa de admirar a descendência do laranjal: 'Diziam que a terra era má, que não dava nada, que tudo secava, e afinal...' Afinal, fertilidade é provavelmente o apelido deste terreno, adquirido há quarenta anos por Lurdes e Edmundo Pedro. Pelo menos a julgar pela verdura, sarapintada de rosas, camélias, hibiscos e outras flores. Pelas palmeiras, cactos, árvores de fruto e plantas tropicais que crescem harmoniosas por toda a propriedade. A própria vizinhança elegeu o jardim dos Pedro como o mais bonito da Lagoa, orgulha-se a mulher do resistente.
A história do refúgio não se conta de um fôlego só. 'Foi um processo que demorou muitos anos, a casa foi sendo construída peça a peça, como se de um lego se tratasse', explica o antigo correspondente de línguas estrangeiras. 'Conhecia a Lagoa desde miúdo', dos acampamentos dos tempos de escuteiro. 'É um sítio encantador, maravilhoso, muito interessante até do ponto de vista da saúde.' A visita a um amigo fê-lo tomar a decisão. Com a mulher, procura e encontra o terreno que comprou 'a prestações ao Xavier de Lima.' Mais tarde, adquiriu o lote ao lado. 'Para ter desafogo.' Na época, não havia muita gente à volta. Na verdade, não havia ninguém. 'Sou um pioneiro', brinca.
Ano após ano, o refúgio foi crescendo, fruto de projectos de expansão sucessivos, de autoria do proprietário. Nos primeiros tempos, a família acampava, literalmente, de roulotte e tenda. 'Depois, fez-se uma casa de madeira.' Mais tarde a churrasqueira. Posteriormente, 'o anexo da churrasqueira, a casa ao lado, a casa principal.' Um processo bastante comum e que nem sempre atinge resultados brilhantes. Porém, neste caso, 'penso que conseguimos um conjunto harmonioso', avalia Edmundo Pedro.
Com efeito, ninguém diria que a passagem suspensa entre a habitação principal e o actual escritório não fazia parte do projecto original. O local onde o antigo resistente escreve as suas memórias começou por ser um terraço 'sobre quatro pilares.' Apenas um sítio 'para apanhar sol.' Mas, como um dia, Lurdes resolveu 'anexar' o espaço onde o marido costumava trabalhar, no interior da casa, para ali instalar um quarto de hóspedes, este resolveu fazer mais uma alteração. 'Liguei a casa principal ao terraço e fiz o meu escritório.' Mas não foi só. Troca-se uma escada de ferro de um sítio para o outro. Constrói-se uma em caracol na sala da moradia. E, já agora, como a empregada também passa a temporada mais quente no refúgio, por que não? Sai mais uma construção no enfiamento da churrasqueira. Tudo nos mesmos tons e materiais:paredes brancas, janelas escuras, telhas negras e vasos vermelhos. Dúzias deles, pintados exactamente com a mesma tinta, obra de Lurdes.
O casal espera apenas que a Primavera estabilize para se instalar na Lagoa por alguns meses. Todos os anos é assim, 'lá para Abril ou Maio.' Levam com eles a empregada, 'por vezes as filhas e também há amigos que passam lá algumas temporadas.' Manuel Alegre e Jaime Gama são alguns dos convidados de uma casa que foi 'desde tempos imemoriais', tal como a congénere de Lisboa 'abrigo para muita gente' e 'local de conspiração.'
Enquanto o marido escreve, Lurdes cultiva o seu amor pelo jardim. Faz quase tudo sozinha, com excepção de alguns trabalhos mais musculados como aparar a relva ou podar os arbustos, tarefa entregue a um profissional. Na verdade, Edmundo Pedro também aprecia os prazeres da jardinagem. O seu maior gosto parece residir em colher o fruto anteriormente semeado. Actualmente, a expectativa centra-se em torno das duas jovens cerejeiras, plantadas no ano passado, que exibem orgulhosamente as suas flores brancas no topo do estreito tronco. 'Gostava de comer algumas cerejas ainda.' A avaliar pela energia, o seu desejo será certamente realizado. PERFIL
Profissão: Correspondente e línguas estrangeiras
Idade: 89 anos
Local: Lagoa de Albufeira
Companheiros de refúgio: A mulher e as filhas
A HISTÓRIA DE UM NAUFRÁGIO
Como a casa, o barco era “feito de peças”, já lá vão “mais de 50 anos.” Era de Edmundo Pedro e do seu companheiro do assalto ao Quartel de Beja, Artur Vaz. “Uma vez fomos até ao Algarve e, ao Largo de S. Vicente apanhámos um temporal fabuloso.” O barco naufragou. Foram salvos “pelo comandante de um navio mercante norueguês cheio de laranjas” que ainda “arrastou” a embarcação durante algum tempo. Às tantas, o barco começou a afundar-se, mas “a construção era fantástica” e “saltou como uma rolha de cortiça.” O comandante salvador vaticinou que “nunca iria ao fundo.” Os seus donos nunca mais o recuperaram. A história ficou pintada em três telas pelo próprio Edmundo Pedro.
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