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Começou a nadar aos quatro anos, abandonou a competição aos 14 e regressou aos 22. Hoje, é um dos portugueses apurados para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Mas o seu mundo não é só piscinas.
Quando tinha apenas quatro anos uma consulta por causa de um problema no tórax, na altura pouco desenvolvido, empurrou-o para a natação. O médico dizia que Pedro Silva devia praticar desporto para corrigir esse defeito de crescimento, habitual em tantas outras crianças, e a família acatou com prontidão as ordens do especialista. Esforçado, cinco anos mais tarde, o miúdo franzino entrava para as provas de competição e começava a levar mais a sério uma actividade até então vista como um passatempo e uma forma de tratamento para a pequena maleita, entretanto corrigida.
Mas, ao contrário do que seria de esperar, a experiência não durou muito. “Desisti da natação aos 14 anos, uma altura sempre complicada por causa da adolescência, na qual surgem muitas dúvidas. Senti que era um nadador medíocre, que apesar de gostar de competir não ia chegar muito longe, e decidi parar”, recorda o atleta, que não resistiu ao ‘bichinho’ das piscinas e acabou por regressar à água. Após uma paragem de oito anos, recomeçou a treinar, passando pelos campeonatos do Inatel, nos quais participam muitos atletas em fim de carreira, e tomou-lhe novamente o gosto.
Em apenas 12 meses aconteceu uma surpreendente revolução. Pedro, que tinha desistido de praticar qualquer modalidade, garantiu os mínimos olímpicos para os Jogos de Sidney. Logo ele, que tinha parado porque se achava inferior. O feito deixou muita gente de boca aberta. “Poucos esperavam que após um interregno tão longo, eu conseguisse tempos para essa prova. Há quem lute uma vida inteira para isso, que não desista de treinar, e não tenha tal possibilidade”.
O segredo do sucesso está, em parte, na especialidade escolhida. Pedro Silva apostou numa prova em que, mais do que o treino, é necessária força, reacção e características físicas inatas: os 50 metros livres. A partir de então apenas falhou os Campeonatos do Mundo disputados no Japão, em 2001, ano da “ressaca dos Jogos Olímpicos de Sidney”, tendo marcado presença em todas as outras provas internacionais.
RECORDISTA PORTUGUÊS
Detentor do recorde nacional da distância, com o tempo de 22.86 segundos, alcançado já este ano nos mundiais de Barcelona – que resultou no tão desejado passaporte para Atenas –, Pedro parte com um optimismo contido para a Grécia, levando na bagagem a ambição de quem sabe que, por enquanto, a luta será sempre mais a nível nacional do que internacional, pois um lugar no pódio continua a estar distante. E, apesar de passar muito tempo dentro de água, mostra ter os pés bem assentes na terra. “Na especialidade em que costumo competir estão sempre à volta de 180 atletas e costumo ficar entre os 25 primeiros, o que só por si já é uma boa prestação. O sonho propriamente dito seria se o meu recorde português desse para ir a uma meia-final, onde tudo pode acontecer”, adianta o atleta, para quem o ideal seria “sair em grande, invicto, como detentor do melhor máximo nacional da especialidade”.
Pelas palavras, Pedro Silva deixa desde logo transparecer a ideia de que a alta competição ficará para trás em breve. Casado há um ano, o nadador sente cada vez mais dificuldades em conciliar o trabalho, o desporto e a vida familiar, embora adiante não ser por qualquer pressão da esposa que se sente na obrigação de reduzir o ritmo de vida. “Nesse capítulo, tenho a sorte de ter uma mulher que apesar de não ser desportista entende os compromissos a que estou obrigado, entre os quais as deslocações a provas disputadas noutros países. Ela percebe os meus sacrifícios e ainda me apoia, mas há muitos nadadores cujas namoradas nunca se adaptam”.
Licenciado em Gestão pelo ISCTE, com especialidade em Marketing, Pedro trabalha actualmente no Montepio Geral, onde é bancário, “embora preferisse ser banqueiro”, diz entre risos. Os afazeres profissionais também não ajudam a que continue a nadar em grandes provas, embora tenha tido sempre o apoio por parte dos colegas de trabalho. A empresa é, de resto, actualmente sua patrocinadora, um exemplo pouco visto por cá e que o deixa feliz da vida.
Talvez devido aos inúmeros apoios que tem tido ao longos dos últimos anos, o nadador garante que, mesmo quando abandonar as provas principais, continuará a participar em eventos nacionais sempre que surja o convite, revelando a aspiração de “ficar ligado à modalidade, não enquanto treinador mas, se possível, conciliando a área profissional com a vertente desportiva”, pois, como faz questão de frisar, existe uma falta muito grande de gestores desportivos em Portugal.
Contudo, isso são planos para mais tarde. Por enquanto, Pedro Silva só pensa na deslocação a Atenas, ocupando o pouco tempo livre que lhe resta com idas ao cinema, com momentos a tocar viola – “também toco piano, mas ficou em casa dos meus pais porque era muito grande para ir para a minha” – e, principalmente, com o namoro, uma prioridade da qual não abdica.
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