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PERIGO LÍQUIDO

Na Terra Quente Transmontana cresce o medo: análises à água da rede pública detectaram arsénio. Os boatos, a par da falta de informação das entidades oficiais, têm contribuído para o clima generalizado de alarme

14 de novembro de 2004 às 00:00

Está espalhado o medo em diversas freguesias no Vale da Vilariça, na Terra Quente Transmontana – análises à água da rede pública detectaram que o precioso líquido contém arsénio. As populações começam já a relacionar algumas mortes naquelas aldeias, associando-as à proximidade das vítimas aos minerais e às águas da extinta Mina da Freixeda, Mirandela, temendo que estes focos de infecção que agora aparecem tenham a mesma proveniência.

As populações de Valbom, no concelho de Vila Flor, Vilares da Vilariça, no concelho de Alfândega da Fé, localidades onde o líquido analisado apresentou níveis mais elevados de contaminação, estão aterrorizadas. As Câmaras Municipais deram o alerta (tarde de mais para alguns munícipes, “isto já se arrasta há três anos”) e colocaram contentores para abastecimento público, cabendo aos bombeiros a tarefa diária de providenciar que os mesmos tenham sempre água, sendo ainda distribuídos garrafões de cinco litros às habitações mais afastadas do centro da freguesia.

Entretanto, a Domingo Magazine sabe que as duas câmaras municipais (Vila Flor e Alfândega da Fé), em conjunto com a Delegação de Saúde Pública Distrital de Bragança, realizaram recolhas de líquido, à mesma hora, em todos os locais alegadamente infectados, que foram enviados para laboratórios diferentes (Laboratórios de Trás-os-Montes, com sede no Cachão, por parte das autarquias; e para o Laboratório nacional de Saúde Ricardo Jorge, no Porto, por forma a cruzar dados e resultados para aferir do grau de contaminação apresentado).

José Rodrigues, pároco de todas as aldeias afectadas, disse que quando tomou conhecimento ficou com uma enorme preocupação. “Fiquei a saber, através de uma carta publicada num órgão de comunicação social e procurei entrar em acção porque, para além de todas as aldeias serem da minha jurisdição, sei de muita gente de outras aldeias que quando vinham aqui levavam água em garrafões, dizendo que a mesma era de excelente qualidade. Afinal está envenenada com arsénio, um veneno eficaz e enérgico. Eu próprio sempre bebi desta água sem suspeitar de nada.”

Nas missas dos dias seguintes, o padre José Rodrigues espalhou a má nova nas suas igrejas em Vilares das Vilariça, Valbom, Macedinho, Santa Comba da Vilariça e Benlhevai (sendo certo que apenas as duas primeiras estão mais infectadas). Tudo comunidades dele, facto que o deixou aterrorizado.

Os paroquianos ficaram sobressaltados, ninguém lhes tinha dito nada, não sabiam o que fazer. “Perguntavam-me se fervendo a água, por exemplo, quando a estão a usar na comida, é possível destruir o arsénio; e houve até algumas pessoas que questionaram se podiam tomar banho com aquela água, porque diziam que havia indicações de que daí poderiam advir problemas de pele. Ninguém as informou de nada. Como é que as populações têm de lidar com este problema? Com os boatos e conversas, as pessoas ficaram ainda mais confusas”, explicou o prior.

JUNTAS DE FREGUESIA ACTIVAS

Manuel António Rodrigues, 43 anos, secretário da Junta de Freguesia de Valbom, explicou que o problema já se arrasta desde 2001, mas só há poucos meses mandaram realizar análises cujos resultados disseram que o precioso líquido estava contaminado com arsénio. “Houve uma pessoa que nos informou que a água estava imprópria, e nós (Junta de Freguesia), por nossa própria iniciativa, mandámos fazer as análises.”

“Do laboratório, no Porto, logo que realizaram as análises e foram conhecidos os resultados, telefonaram-nos dizendo que a água tinha arsénio e que havia necessidade de tomar providências. Quando fomos à câmara buscar os resultados por escrito, dissemos ao presidente que isto não podia continuar. Agora a população está avisada mas, nos últimos três anos, bebeu-se muita água contaminada.”

Duarte Falcão, 45 anos, presidente da Junta de Freguesia de Vilares da Vilariça, concelho de Alfândega da Fé, disse que em Vilares da Vilariça a freguesia é servida por três nascentes. “Antes as análises eram feitas em conjunto e nada foi detectado. Agora, mandamos analisar cada nascente e, na posse dos resultados, iremos actuar. Tenho a convicção de que será apenas um furo artesiano que nos está a contaminar todo o sistema mas, quando forem conhecidos os resultados, se as três nascentes estiverem contaminadas vamos ter de as eliminar.”

Este autarca está também descontente com a forma como a Câmara Municipal está a fazer a distribuição da água. “Andaram a distribuir garrafões de cinco litros de água potável e foram colocados depósitos que os bombeiros vêm abastecer, mas os recipientes utilizados não oferecem garantias dada a vulnerabilidade que apresentam: não estão fechados, qualquer pessoa pode ali introduzir detritos e se em caso de mau tempo, a água da chuva entra para dentro do depósito, é pior a emenda que o soneto.”

OS DENTES É QUE PAGAM

João Costa, 68 anos, tem marcas bem visíveis daqualidade da água. “Nnca me senti mal com a água de Valbom, coisa que não acontecia com a da Barragem da Burga, no concelho de Macedo de Cavaleiros, onde morei anteriormente, que me pôs os dentes todos negros. Resido aqui há 35 anos e sempre tive os dentes como agora (encardidos) muito embora não possa dizer que esta água não seja também responsável pelo facto de eu os ter assim”, explicou.

Agora, que sabe que a água tem arsénio, é peremptório: “Enquanto não estiver tudo muito bem esclarecido, não a bebo mais”, finalizou.

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