Começou a pintar depois dos quarenta anos. Dois quadros seus, de nus, expostos em Mirandela escandalizaram a vereadora da Educação.
Aprendeu a reconhecer o cheiro do leopardo na noite moçambicana. O pai era guia de caçadas. Adelaide Monteiro Alves, em rapariga, viveu sete anos em África o sabor da liberdade longe da pequena aldeia de Especiosa, em Miranda do Douro, onde nasceu em 1949. A transmontana, hoje migrada em Meleças, a alguns quilómetros de Sintra, aprendeu a pintar no Cacém, na escola onde lecciona Contabilidade e Fiscalidade, matéria de seriedade infinitamente numérica, pouco compatível com os quadros a óleo censurados por uma vereadora numa exposição em Mirandela. Os quadros – ‘Sedução’ mostra a parte frontal de uma anca feminina e uma romã meio comida, e ‘Nuvens de Paixão’ uma mulher de costas nua enlaçada por um homem – foram repetidamente apeados da parede do auditório transmontano onde estavam entre as 33 obras da pintora. A dança censória é para Adelaide Monteiro Alves própria dos tempos da ditadura, quando ela, menina, vivia ainda em Especiosa.
As obras estavam no auditório municipal numa mostra aberta ao público no dia 9 e não ficaram lá muito tempo. No sábado, três dias depois, Adelaide Monteiro abalançou-se com a família a ir ver a sua própria exposição, dos 33 quadros já só restavam 31. Dois deles tinham sido apeados logo à seguir à inauguração, repostos perante a fúria da autora e novamente retirados mal esta voltou as costas. Abespinhada, Adelaide levou todas as obras de Mirandela, a exposição foi encerrada.
Adelaide Monteiro Alves vive em Meleças com o marido, de quem teve dois filhos homens, pinta sobretudo aquilo que lhe trouxe dissabores com a vereadora da Educação de Mirandela, o universo feminino. Mulheres sacrificadas do campo, como foi a sua avô, mulheres depois do 25 de Abril libertas social e sexualmente, como aquelas censuradas pelo poder local transmontano. “E no entanto, umas e outras, as do campo e as das cidade, ainda hoje silenciadas aqui como na Ásia.”
Adelaide falou mirandês até ter de aprender, na escola, o português. O externato em Miranda, que frequentou depois da primária, ficava a 17 quilómetros, distância percorrida a pé para casa ao sábado. A volta era de autocarro. A mãe levava-a pela mão à paragem a cinco quilómetros, a pé ou de burrico. Em Especiosa, aldeia que não vem em mapa de escala pequena, ela desenhava a giz na pedra escura, desenhos apagados para poder voltar a desenhar outra vez. “Lembro-me de, no quinto ano, pintar uma composição com uma sandália e um daqueles alfinetes dos kilt. Eu não fui para Artes porque de Especiosa não se ia para Artes. Não se dizia que se queria ser pintora porque para a minha família, pintores só aqueles que pintavam os tectos das igrejas e mesmo assim, esses, eram homens.”
Por cima da lareira da casa de Meleças, a cabeça de um tigre arreganha o dente numa ferocidade empalhada. Foi o pai da pintora que o caçou. A rotina da rapariga transmontana mudou quando ele, emigrado em Moçambique, mandou chamar a família – Adelaide e a mãe. Foi a primeira liberdade, em Sá da Bandeira, onde mesmo assim não saía à noite. Naqueles tempos só o Moulin Rouge era atracção nocturna, duvidosa para menina, filha única. “Eu cresci numa aldeia pequena, estudei numa cidade pequena, onde tudo era proibido às mulheres. A minha primeira liberdade chamou-se África. A segunda veio depois da Revolução.” A pintura foi a terceira libertação; a de uma vontade muito grande, oprimida, escondida da maioria dos amigos. Os mesmos que depois se surpreenderam quando lhe descobriram o talento.
Na Escola Gama Vaz, no Cacém, em 1993, o pintor e colega de docência Daniel Nave ensinou a pintar um grupo de professoras, entre elas Adelaide. “Andava há muito tempo com isto cá dentro mas não conhecia as técnicas, nem os materiais. Depois da aulas do Daniel, em 1994, acabei na pintura a óleo e com liberdade de deitar para fora aquilo que estava cá dentro. Foi o ano de maior produção e, esses quadros, eu não os vendo.”
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