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Popa d’Aço

Em Portimão vive um homem com voz de rouxinol. Não ambicionava viver das cantigas, mas cedo o talento foi-lhe reconhecido. Os seus boleros deixaram saudades em África. O regresso a casa empurrou-o para a miséria.

06 de fevereiro de 2005 às 00:00

Sempre que o dia estava ventoso preferia ficar em casa, para não dar cabo da popa que domesticava à custa de doses cavalares de brilhantina. Foi por isso que o jovem Fernando Baptista conquistou a alcunha de ‘Popa d`Aço’. Mas este não foi o único penteado pelo qual se tornou popular. Nos seus tempos de pré-adolescente chegou a exibir o cabelo cuidadosamente espetado, semelhante ao da personagem do filme na berra –‘Jamuga’.“Nunca tive tendência para a vaidade”, insiste no entanto em afirmar.

Agora, os pesados 62 anos e uma vida de demasiadas quedas e tropeços tiram-lhe o orgulho que depositava na farta cabeleira. É talvez por isso que teima em tapá-la com um chapéu, acessório sem o qual aliás não se aventura na rua. E do aprumo e elegância de outros tempos, sobra-lhe um roupeiro repleto de fatos com cortes ultrapassados, sujos e surrados de tanto uso.

A vida do terceiro e último filho de um casal de portimonenses simples e humildes é uma longa e atribulada novela. Fernando Baptista começa a cantar incentivado pela mãe, mas é a Banda da Mocidade Portuguesa, que, aos nove anos, lhe introduz o ‘bichinho’ da música. É ali que aprende a tocar saxofone, o que lhe dá estímulo para, aos 16 anos, formar o primeiro conjunto musical – Riviera – no qual toca saxofone, contrabaixo e é vocalista.“O Garganta era o trompetista, o Fernando tocava viola, o Rogério Mão era acordeonista e o Mário estava responsável pela bateria”, é assim que começa a desfiar o rosário de recordações enquanto bebe o habitual ‘whisky’ da tarde num dos cafés de Portimão que costuma frequentar.“Era um grande grupo de música latina. Tocávamos música de baile e animávamos muitas sociedades filarmónicas, muitos carnavais e finais de ano. Tenho muitas saudades do grupo”, acrescenta, cabisbaixo, enquanto dá mais um trago do copo que segura com a trémula mão.

A sua voz de rouxinol chega aos ouvidos dos empresários da noite algarvia que não se mostram indiferentes ao potencial do jovem. O músico é contratado pelo Casino da Praia da Rocha, um dos espaços nocturnos mais badalados do Algarve, passando a ganhar 110 escudos por noite, mais do que o próprio pai, fundidor de profissão. “Eu era o Popa d’Aço”, responde sem falsas modéstias quando lhe perguntam se era assediado por muitas mulheres.E deixa escapar um leve sorriso.

Apesar do sucesso no Algarve, a ambição leva-o a tentar a sorte na capital. De um dia para o outro aterra na vida nocturna da grande cidade. Dá os primeiros passos no Carpa, um bar situado na baixa onde ganha 75 escudos por noite, dos quais 45 pagam o quarto na pensão Castilho. “Foi uma grande mudança, eu olhava para os outros todos engravatados, de cachecol e eu com um fatinho de ‘papillon’. A noite era uma maravilha, os músicos davam-se todos uns com os outros e mal acabávamos de trabalhar juntávamo-nos para cear até às tantas”, recorda nostálgico. Dito isto acrescenta:“Oito dias depois da primeira actuação de boleros já era conhecido na noite”. Um sucesso que o leva a actuar em diversas casas como o Príncipe Negro ou a Cova do Galo. A aventura lisboeta é sol de pouca dura, porque mal completa 19 anos é chamado para a tropa.

A VIAGEM DA SUA VIDA

Corria o ano de 1962 quando, num 17 de Março e após nove dias de viagem, atraca em Angola. “Batalhão 442, não me esqueço”, frisa. Durante 18 exaustivos meses, Popa de Aço vê-se embrenhado no mato serrado, obrigado a olhar sempre por cima do ombro, numa atitude de desconfiança. Passa por lugares e situações que lhe tiram a alegria para cantar. Ao fim de um ano de pesadelo, volta à civilização e visita, pela primeira vez, Luanda. A animação nocturna da cidade angolana centra-se no bar Bambi e é para lá que Fernando Baptista se dirige. É lá que sobe de novo ao palco para cantar.

Quando regressa à caserna os soldados da sua Companhia são visitados pelo Conjunto Artístico do Quartel General. Trata-se de um enorme grupo de animação composto por cantores, palhaços, ilusionistas, entre outros. “Foi a minha sorte!”, exclama. “Mal o espectáculo inicia toda a gente começa a chamar-me para ir cantar. Subi para o palco e cantei uma música da Rita Pavoni, que a malta da tropa gostava”, acrescenta. Três dias depois, é convidado a juntar-se ao conjunto de artistas em Luanda.

Com o conjunto Artístico percorre todos os acampamentos militares da então colónia portuguesa. “Onde estivessem militares a precisar de levantar os ânimos, o grupo, como por magia, aparecia”, recorda. Em seis anos, dá centenas de concertos, mas há um que preferia esquecer . Foi numa noite de Natal quando militares de um acampamento próximo viajavam em dois jipes para assistir à actuação e caíram numa emboscada. Morreram todos. “Acabaram-se as cantigas, acabou tudo nesse dia. São as tais coisas da tropa”, afirma num encolher de ombros.

Depois de cumprir o serviço militar , Fernando Baptista lança-se como músico na capital angolana. Forma o conjunto musical Caribe Quarteto com o qual actua na Tamar, o melhor bar em que trabalhou, e, paralelamente, participa no programa de rádio local, com a duração de duas horas, ‘O chá das 6’, onde canta numa orquestra com mais de 30 músicos.

No ano de 1969, as canções do Quarteto passam nas rádios, Fernando Baptista começa a ser reconhecido entre os locais, os pedidos de autógrafos são uma constante e ganha três mil escudos por dia, o que lhe dá para ter um estilo de vida folgado. O artista passa a ser um trabalhador noctívago. “Ainda hoje não posso passar sem a noite”, afirma soltando de seguida uma tosse rouca: “Com mais um whisky isto passa”. Como músico reconhecido, a aparência passa a tomar uma parte ainda mais importante na sua vida. “Ia todos os dias ao cabeleireiro para ficar todo arranjadinho. Foi por isso que dei cabo da popa d’aço”, justifica.

As mulheres, as noites sem dormir e o álcool são o seu pão nosso de cada dia. Mesmo assim nunca falha os ensaios do grupo. Participa no concurso o ‘Rei da Rádio’ conquistando o segundo lugar, mas, instigado por grandes amigos que tinham viajado para a cidade da Beira, em Moçambique, resolve mudar-se para o país da costa oriental africana, com vista a actuar no cabaré Jokey Bar, o primeiro das dezenas de bares onde actua. “Um belo dia Carlos do Carmo e Zeca Afonso apareceram na cidade da Beira em digressão. Eles estavam cansados e quem vai acompanhar o grupo Os Duques, por convite? Eu. O fadista quando me ouviu perguntou logo quem é que eu era. Demos um grande espectáculo”, relata Fernando orgulhoso.

Os bares de Lourenço Marques fazem igualmente parte do roteiro, raros são as ‘boîtes’ onde não actua. “Um músico tem de andar sempre com a mala às costas!”, afirma resignado. Uma vida errante e incerta que se torna cansativa para o músico, resolvendo, por isso, mudar o rumo. Compra um bar e um cabaré que transforma num restaurante de cinco estrelas e deixa por completo a música. “Esta foi uma das partes mais difíceis da minha vida, porque o bar ainda tinha clientes mas o restaurante, o Olho, apesar de toda a publicidade, durante ano e meio, esteve às moscas”, admite. Mas, a pouco e pouco começam a entrar pessoas no estabelecimento e o negócio torna-se um sucesso. Fernando Baptista passa de cantor famoso a empresário de sucesso, lucrando mais de 200 mil escudos por dia. Tanto dinheiro dá-lhe oportunidade de fazer algumas extravagâncias. “Quando comecei a ter mais confiança com os empregados ia com eles para o Sengo, um pequeno aldeamento turístico, onde comprei um grande terreno que transformei num local para estar no ‘relax’ com os meus amigos à pesca. Dei-lhe o nome de A ilha do Olho”, adianta enquanto acende mais um cigarro.

REGRESSO FORÇADO

E chega o 25 de Abril de 1974. Os portugueses fogem em massa e Fernando Baptista vê-se isolado. Para além dos fiéis empregados, somente dois amigos ainda permanecem em Moçambique. O negócio, no qual investira tanto tempo e dinheiro, começa a falir. Aguenta dez anos de crise, e, em 1984, decide viajar por três meses para Portugal. Mal chega à cidade natal, apaixona-se perdidamente e nunca mais regressa a África. “Com esta paixão estraguei tudo”, desabafa com um tímido sorriso.

Com algum dinheiro que ainda tem consigo compra um restaurante A Adega do Cozinheiro, que acaba por se revelar um mau negócio. Fernando Baptista vê-se, assim, na penúria, longe dos amigos.

Desesperado.“Apesar de todo o azar consegui não me ir abaixo, arranjei força para trabalhar e continuei a lutar”, explica. Aos 50 anos, volta a viver em casa dos pais , passa por vários empregos, todos longe do mundo da música – vende queijos da serra para os restaurantes de Portimão, torna-se vendedor de material de escritório, passa por empregado de mesa e também por segurança na Torralta. Com este último trabalho consegue alguma estabilidade que lhe permite, por ‘hobby’, voltar a cantar.

O bichinho da música acaba por o desassossegar e assim que tem conhecimento de uma vaga de músico no Hotel José Francês, na Praia da Rocha, não hesita em candidatar-se. Acabado o contrato, vai para o palco do Hotel Algarve e do Hotel Júpiter. “Cheguei a trabalhar nos três ao mesmo tempo, mas não durou muito porque a concorrência é grande”, explica. Actualmente mais velho e desleixado com o visual, e com a voz igualmente cansada apenas tem assegurado um sábado à noite no restaurante Marrachinho, em Alvor. “Se não fossem uns espectáculos que faço por fora, em Silves, onde me pagam 150 euros estava feito ao bife”, desabafa.

Agora o maior receio de Fernando Baptista é não receber mais propostas nos próximos anos. Mas como é que um homem de fé conserva um fio de esperança em que a situação vai melhorar? Mesmo sabendo que o seu futuro estará para sempre encalhado num glorioso passado.“Confesso que muitas noites são passadas em branco, só a pensar no passado”, reconhece com palavras embrulhadas de nostalgia.

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