page view

Por menos quilos

Estima-se que existam mais de 300 mil obesos em Portugal à espera de uma operação que lhes salve a vida e devolva a felicidade. Mas o remédio pode demorar anos a chegar.

21 de fevereiro de 2010 às 00:00

Guida precisa de lutar pela custódia da neta. Lucrécia quer resgatar o sorriso dos dias felizes de outrora. Isabel sonha correr com os netos. Fernanda está cansada de esperar. São quatro mulheres com excesso de peso e muitas complicações de saúde associadas. Quatro em 300 mil, o universo estimado dos obesos mórbidos em Portugal que engrossam as listas de espera para a cirurgia de colocação da banda gástrica.

A foto de uma menina sorridente, olhos claros e cabelo ondulado, é a única luz do olhar de Guida Nunes. Soma 164 quilos e 48 anos de vida, durante os quais conheceu mais reveses do que momentos de alegria. "É a minha Luísa. Tem cinco anos. A mãe não lhe liga. Mas o que eu mais gostava era de tê-la comigo. As senhoras da assistência social dizem que quando tiver saúde posso ficar com ela mas agora está internada num lar da Santa Casa", explica. Depois, arruma a moldura e pousa os olhos quase húmidos no trânsito da CRIL, a única vista possível do seu rés-do-chão no bairro de realojamento da Boavista, em Lisboa.

Guida quase não sai de casa. Conhece melhor os corredores do Hospital de Santa Maria. "Volta não volta, lá vou parar às urgências para receber oxigénio. Deixei de trabalhar. Não consigo fazer quase nada sem ajuda, nem a minha higiene", lamenta enquanto desdobra uma folha de papel A4 com a lista de 20 doenças que vem acumulando ao longo dos anos: Hipertensão, quistos nos ovários, hérnia, diabetes, depressão, fibrilhação auricular crónica, apneia do sono, anemia.

A obesidade atormenta-a desde nova. Quando nasceu a primeira filha, há 32 anos, pesava 114 quilos. Tentou várias dietas mas recuperou sempre. Perdeu a esperança e fez duas tentativas de suicídio, à medida que os quilos se somavam a "outros desgostos da vida". A cardiologista disse ‘basta’ e encaminhou-a para o Santa Maria. Esperou quase um ano pela primeira consulta mas agora é seguida por uma equipa multidisciplinar, da qual fazem parte psicólogos, nutricionistas e endocrinologistas.

Na sala de espera do Hospital de Santa Maria as histórias não são muito diferentes das de Guida. Gente que acumula anos de sofrimento e não tem dinheiro para recorrer ao privado. "Nós somos uma consulta de fim de linha. Quando os doentes aqui chegam estão desesperados. A maior parte é assim desde a infância. Foram sendo sucessivamente marginalizados. Muitos estão desempregados e a viver do rendimento mínimo. Habitualmente ninguém tem pena de "gordos", só se tem pena de magros. Todos têm doenças associadas, muitas incapacitantes", explica Isabel do Carmo, responsável pelo serviço de endocrinologia do Hospital de Santa Maria.

DOS 80 AOS 120

Fernanda Cabral está prestes a ver o fim desse calvário. Encaminhada para a cirurgia há dois anos, aguardou ano e meio pela primeira consulta. Os 120 quilos valeram--lhe uma hérnia discal, artroses nos joelhos e anca, ácido úrico e colesterol. Nada que lhe roube a vontade de tornar mais felizes os meninos do lar de reinserção social no qual trabalha. "Sou administrativa, mas às vezes gosto de ir para a cozinha e contribuir para os dias de festa. Mas estar em pé é complicado".

Perdeu a conta às tentativas que fez para emagrecer e não esquece que foi uma delas que tornou a situação irreversível: "Aos 38 anos tinha 80 quilos e fui ao dr. Tallon. Estava na moda. Na altura emagreci mas depois voltei a engordar e nunca mais consegui perder peso. Foi assim que cheguei aos 120", recorda. Sabe que a colocação da banda implica muita disciplina e meses de recuperação difíceis (nos primeiros três só pode ingerir líquidos e depois o organismo só aceitará quantidades ínfimas de comida), mas não tem medo: "Se calhar sou louca, mas só esta operação me pode ajudar. A espera é que é desesperante".

O sacrifício maior de Lucrécia Dias é sair para comprar roupa. "Deixei de andar de calças porque não consigo encontrar modelos que me sirvam. Visto o 46 e a maioria das coisas não tem nada a ver comigo", desabafa.

Lucrécia nem sempre foi assim. Aos 17 anos, quando casou, pesava 67 quilos, bem distribuídos por 1,65 de altura. Depois vieram os filhos, dois rapazes, e os ponteiros da balança enlouqueceram. A morte dos pais, "que viviam na mesma rua" e sempre foram o seu "maior apoio", fê-la cair na armadilha da depressão. Encontrou conforto no frigorífico, mas entrou numa espiral de sentimentos de culpabilização e isolamento. Chegou a estar dois meses internada no Hospital Júlio de Matos, ao mesmo tempo que atingia os 140 quilos. Agora gostava de ter uma " vida normal como toda a gente". E por falar em outra gente, Lucrécia não acredita no protótipo do ‘gordinho feliz’. "Isso não existe. Ninguém consegue ser feliz assim", conclui.

Isabel Teixeira que o diga, pois há muito que vai "tentando equilibrar os dias melhores com outros menos bons". Ainda assim é uma força da natureza. Já sofria de obesidade e ainda foi a Fátima a pé, cumprir uma promessa feita nos corredores do Hospital de Almada, enquanto esperava que um dos filhos saísse de uma cirurgia que correu para o torto. A família é a sua tábua de salvação. "Dão-me força para sair (mesmo que isso me obrigue a subir e descer um segundo andar sem elevador a muito custo!), querem que me inscreva na natação e até me compram roupa, coisa que geralmente faço na C&A, porque tem tamanhos grandes e cores mais alegres", conta a ex-operária fabril de 49 anos.

Há três anos que espera pela cirurgia, para a qual foi encaminhada pelo centro de saúde da sua área de residência, Alcochete, onde se chegou à conclusão que todos os seus problemas de saúde (articulações, joelhos, coluna) estavam relacionados com o peso. Chegou a ter a operação marcada mas as complicações colocaram entraves. "Há dias em que a tensão arterial chega aos 26 e os valores das análises ficam descontrolados. Os médicos não podem arriscar. Em breve serei internada para fazer mais uma bateria de exames... Vamos ver se é desta". Se for mesmo ‘desta’, Isabel não tem dúvidas sobre o que vai mudar na sua vida: "Vou desatar a correr com os meus netos pelo jardim fora".

QUATRO TESTEMUNHOS DE UMA VIDA INTEIRA A LUTAR CONTRA A BALANÇA

GUIDA NUNES

Aos 48 anos pesa 164 quilos mas já chegou a ter 178, medindo 1,61 de altura. Veste o XXL. Tem 20 problemas de saúde graves devido ao excesso de peso.

FERNANDA CABRAL

Tem 58 anos. Após várias dietas falhadas espera há dois pela operação. Tem 120 quilos mas gostava de chegar aos 80. Manda fazer a roupa por medida.

LUCRÉCIA DIAS

Actualmente tem 98 quilos mas há meio ano pesava 140. Veste o 48. Sofre de problemas nos ossos, coluna, hipertensão e depressão.

ISABEL TEIXEIRA

Tem 49 anos, 124 quilos e veste o 58. Aproveita as colecções de tamanhos grandes. Os problemas de saúde associados têm impedido a operação.

"É PRECISO QUE SE DEIXEM AJUDAR" (Isabel do Carmo, Endocrinologista e fundadora da Soc. Port. para o Estudo da Obesidade. Coordena a Endocrinologia da Consulta de Comportamento Alimentar do Hospital de Santa Maria.)

"Tanto a banda gástrica como o bypass têm riscos. A primeira torna-se numa situação crónica, porque pode alargar, e o segundo tem mais complicações operatórias e pós-operatórias", diz Isabel do Carmo, directora do serviço de endocrinologia do Santa Maria, avisando que ninguém pode entrar neste processo de ânimo leve. Quanto às listas de espera, até a professora fez ‘ginástica’ para as emagrecer de três para um ano.

"Organizei as listas de espera por datas e prioridades. Alguns doentes aconselhei-os a ir ao Hospital Amadora-Sintra e ao de Évora, que tinham menos tempo de espera. Em relação aos restantes, fiquei eu própria a ver um a um, a pedir análises e a direccioná-los para psicologia e nutrição. Mas nós só abrimos uma porta de esperança. É preciso que as pessoas se deixem ajudar. A lamentação não resolve nada. Muitos dos nossos doentes estão organizados em grupos de inter-ajuda, o que é interessante. Temos de ser capazes de nos deixar pôr em causa, como diz o presidente Mandela..."

UM GUERREIRO QUE SERVE DE EXEMPLO

A história de Alain Guerreiro impressiona pelos números e pelos factos. É um dos dinamizadores e figura inspiradora de todos os que procuram a Afago – Associação de Familiares e Amigos do Grupo de Obesos – do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Sempre foi "grande" mas acredita que os 267 quilos eram uma "capa de protecção" para a perda dos dois filhos gémeos: "A minha mulher entrou em depressão profunda. Eu vinguei-me no frigorífico".

Uma semana depois de começar a ser seguido na consulta de obesidade, sofreu um acidente rodoviário que o atirou nove meses para a unidade de ortopedia. "Eram precisas duas camas para me deitar", relembra com o sorriso de quem nunca se sentiu discriminado. Desde a operação, em Novembro último, já perdeu 60 quilos.

NOTAS

BANDA

É uma espécie de ‘cinto’ à volta do estômago que dificulta a entrada dos alimentos.

BYPASS

É uma ligação ‘directa’ do início do estômago ao intestino que reduz a absorção.

2500

Os 9,6 milhões de euros atribuídos a 19 hospitais públicos beneficiarão 2500 obesos.

EUROS

Cada hospital recebe 5,6 mil euros pelo tratamento da banda e sete mil pelo bypass.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8