Em Portugal, as smart shops vendem erva para ‘ver elefantes a voar’, incensos relaxantes e ‘caps’ energéticas. Tudo dentro da lei e com recibo
Ao bater do meio-dia, hora improvável para a agitação que caracteriza a vida nocturna do Bairro Alto, em Lisboa, a loja da rua Luz Soriano já tem clientes à porta. Lá dentro há um pouco de tudo: chás afrodisíacos, fertilizantes para plantas, cachimbos, mortalhas, kits para cultivo de cogumelos alucinogénicos, sálvia, incensos e happy caps (cápsulas energéticas que garantem trip, dance e space).
Os clientes entram apressados. São executivos em pausa para almoço, estudantes acabados de sair da cama e consumidores regulares que procuram novidades. Nas prateleiras saltam à vista embalagens variadas, que custam entre 5 a 50 euros, consoante o produto, a gramagem e a ‘viagem desejada’. Estamos no mundo das smart shops, que aproveitam o vazio da lista anexa à lei 15/93, que regula substâncias não proibidas, para florescer em Portugal.
Miguel M., 42 anos, vive em Londres – onde as lojas de ‘drogas legais’ foram proibidas – e aproveita a passagem por Lisboa para comprar um vaporizador. "Serve para fumar erva", diz com um sorriso, enquanto recusa posar para a foto. É também o preconceito que impede G., 36 anos, sócio-gerente de uma empresa de informática, de dar a cara. Com passo apressado e pasta na mão, revela nas olheiras avermelhadas que é consumidor regular. Gasta 50 euros por semana e aderiu a estas substâncias ainda era estudante universitário.
O mesmo hábito tocou Emanuel Freitas, 21 anos, aluno de Estatística Aplicada na Faculdade de Ciências, que costuma passar pelo bairro antes de se aplicar no estudo. "Vim comprar ‘fideles’ e incensos, que são erva leve. Por acaso até discordo destas lojas e se compro é por ser legal e mais barato. Não sei se faz mal, mas aqui, se houver problema, sabemos a quem reclamar". Quem compra leva sempre um recibo.
XAMÃ E JOGOS SEXUAIS
Na Magic Mushroom, cadeia de smart shops gerida em Portugal pela canadiana Stépanhie Turcotte, 32 anos, o negócio vai de vento em popa. Inicialmente ligada à pioneira Cogumelo Mágico, que abriu em Aveiro em 2001, a marca cresceu no País graças à despenalização do consumo de drogas leves. Tem lojas em Lisboa, Almada, Porto, Coimbra, Viseu e em breve abre em Sta. Maria da Feira e Montijo.
Mesmo que a lei aperte – como aconteceu a 6 de Janeiro, com a proibição da venda de Mefedrona, a famosa droga ‘miau miau’, e Tapentadol, um analgésico –, as smart shops continuam a agradar, sobretudo "a estrangeiros, norte-americanos, que ficam maravilhados com a liberdade que existe em Portugal, e a quem tem mente aberta". Este consumo está também associado a determinado estilo de vida e se tudo o que simboliza o rito xamâ-nico vende bem na Magic Mushroom são as ‘sex parties’ que imperam junto de quem procura a Freemind.
No bairro de Santos e na Caparica, Dennis Ramos, brasileiro, 33 anos, recebe "clientes de todas as idades e meios sociais. Avós que compram mortalhas e tabaco para ‘shisha’, jovens que querem energéticos e homens e mulheres, com mais de 35 anos, que procuram estimulantes sexuais".
Licores que aguçam o desejo, substitutos de viagra, jogos de tabuleiro por 75 euros, cartas do ‘Kama Sutra’ e dados que deitam à sorte seis posições são os produtos mais pedidos para entrega ao domicílio e na loja on--line. Nas casas de rua, reinam os incensos e os energéticos.
Conta quem experimentou que os efeitos são "do outro mundo". Uns vêem "bolas cor--de-rosa e elefantes a voar" depois de tomar sálvia divinorum, erva alucinogénica usada pelos índios sul-americanos; outros elogiam a "aceleração" causada pelos energéticos e substitutos de Ecstasy. A procura é tanta que aos fins-de-semana há fila à porta, garante quem mora na vizinhança. E para fazer a festa completa, entre jogos de sexo, energéticos e relaxantes, muitos investem 200 euros de uma vez.
‘GESTOR DE PEDRADAS’
Mariana, esteticista de 40 anos, aproveita o cair da noite para comprar incensos. Discreta, demora menos de sete minutos a comprar: "Isto vicia".
Horas mais tarde, Rui M., 39 anos, troca o fato e gravata obrigatórios ao gestor de telecomunicações por roupa mais leve para comprar a dose habitual. Prefere, por "estatuto", as lojas do Bairro Alto e do Príncipe Real, apesar de conhecer as de Cascais e Almada. Compra bloom, um fertilizante para plantas vendido com a indicação explícita de "não ingerir", mas que se fuma ou inala, conforme a disposição. "Já era viciado e estou mais protegido dos dealers ao comprar aqui. Sei o que levo e evito as chantagens de outros mercados, onde o risco é grande", confessa em surdina. Os tiques nervosos mostram que as ‘drogas novas’ se colam à ‘pedrada’ da sua vida: "Energéticos para aguentar o trabalho, incensos para relaxar e ‘caps’ para animar as festas".
Luís Vasconcelos, técnico do Instituto de Droga e Toxicodependência, alerta que o perigo deste consumo está associado, precisamente, ao contexto recreativo em que é feito, onde circula muito álcool. Um aviso partilhado por Francisco George, da direcção-geral de Saúde: "Muitos acidentes de automóvel são provocados pela conjugação de álcool e psicotrópicos, que afectam a concentração".
O problema surge por estes produtos – que têm as mais diversas proveniências, dos EUA a Madagáscar – não serem ilegais, nota Luís Vasconcelos. "A tabela da ONU, que regula o sector, trabalha sobre substâncias e basta alterar o grupo de moléculas para que fiquem dentro da lei. Alguns produtos de natural têm apenas a substância a que estão associados. No entanto, por não causarem dependência física, a chamada ressaca, o seu uso é menos visível".
MISTURAS EXPLOSIVAS
São precisamente as misturas que levam Stéphanie, neuropsicóloga e ‘coacher’ de formação, a ouvir todas as reclamações. "Os nossos produtos têm informação no rótulo e os colaboradores aconselham os clientes, no entanto é impossível controlar todos os consumidores. Muitos misturam álcool e fármacos, e por isso sentem efeitos adversos", que vão das taquicardias à falta de firmeza e perdas de memória. "Aconselhamos a não tomaram nada sozinhos", mas os problemas surgem com os adolescentes de classe alta, a quem é vetada a entrada.
"Vêm em bando, são informados, trazem muito dinheiro e reagem mal quando não vendemos. Já ocorreram complicações, não escondo", diz Stéphanie e recorda um casal que "entrou na loja aos gritos" após uma das filhas ter dado entrada no hospital. "As análises mostravam que tinha tomado ‘coca’, que não vendemos aqui. Curioso é que vieram com a filha mais nova e, à medida que esta falava, deram-se conta de que sabia tudo sobre drogas. É preciso estar atento", avisa.
ASAE APENAS CONTROLA LOJAS QUE ESTÃO LEGAIS
"É o vazio legal que protege as smart shops que raramente são apanhadas em incumprimento", diz fonte da ASAE, Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. "Por existir um problema de enquadramento legal, os produtos em venda apenas podem ser abrangidos na listagem de suplementos alimentares ou fertilizantes".
Nas acções efectuadas em Dezembro, "foram apreendidos produtos que suscitaram dúvidas, mas pouco mais foi possível fazer do que obrigar a alterar a rotulagem e explicitar para que efeito são consumidos. As análises são caras e não existem meios para uma fiscalização rigorosa".
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