Ter fantasias sexuais é uma coisa comum. Contá-las não. O receio de ferir o parceiro é a principal razão para este silêncio.
Sejam ou não capazes de admiti-lo, a maior parte das pessoas têm fantasias sexuais e – dizem os sexólogos – ainda bem, porque quando a cabeça não tem juízo, entendido, neste caso, como obediência às regras do senso comum, o proveito é dos amantes.
Segundo Kaye Wellings, director do Programa de Saúde Sexual da Escola de Medicina Tropical de Londres, as fantasias sexuais desempenham uma função importante. “Na maior parte do tempo as pessoas comportam-se de uma maneira conservadora, sexualmente e não só. As nossas experiências eróticas representam apenas a ponta do icebergue em relação ao leque de possibilidades. Muitas destas possibilidades só aparecem nos nossos sonhos ou fantasias, raramente na realidade”, explica.
Regra geral – que, como tal, admite todas as excepções – as fantasias dos homens são mais breves e gráficas, enquanto as mulheres tendem a alongar-se, dando importância à narrativa e às relações entre as ‘personagens’. Uma fotografia basta para captar uma fantasia masculina, mas para contar a de uma mulher pode ser preciso um livro.
JARDIM SECRETO
Quem escreveu um livro sobre as fantasias femininas – ‘My Secret Garden’, em tradução livre, ‘O Meu Jardim Secreto’ – foi a norte-americana Nancy Friday, que ali conta algumas e permite compreender por que razão as mulheres nem sempre as partilham com os parceiros.
Uma das mulheres citadas por Nancy atreveu-se a contar ao companheiro que quando fazia amor com ele pensava no jogador de futebol George Best, conseguindo assim excitar-se. O parceiro vestiu as calças e foi-se embora.
Maria S., 24 anos, pensa que o namorado faria o mesmo se ela lhe dissesse que gostava de experimentar uma ‘ménage’, ou seja, uma relação a três, dois dos quais homens. “Namoramos há seis meses. Talvez lhe conte quando nos conhecermos melhor”, admite, tentando disfarçar o pudor atrás de um sorriso.
Fantasias como a de Maria S. são perfeitamente concretizáveis, bastando a vontade e o acordo dos envolvidos. Outras não é possível passá-las à prática, pelo menos fisicamente. Quanto ao pensamento, é, em princípio, livre.
REALIZAR OU ENTÃO IMAGINAR!
O mais importante pode não ser sequer realizar as fantasias: a mulher que pensava em George Best não queria ter relações sexuais com ele e, no entanto, a ‘coisa’ funcionava melhor com o parceiro quando imaginava o corpo do atleta. Mesmo assim, não é de excluir o sentimento de culpa de quem pensa num homem diferente daquele que está ao lado – por cima ou por baixo – dela.
Luísa R., 46 anos, não tem esse problema: quando faz amor com o marido pensa nele e no que estão a fazer os dois. O que muda é o cenário. O quarto, com crucifixo na parede onde está encostada a cabeceira da cama, transforma-se numa praia paradisíaca deserta. “Excita-me a ideia de estarmos nus ao ar livre.”
Além da praia, são lugares comuns das fantasias os aviões, comboios, elevadores, campo aberto, esquinas e bancos de jardim. João T., estudante de 24 anos, é, neste aspecto, uma excepção. “Numa biblioteca, perto da prateleira onde estiverem alinhados os livros de Henry Miller”, revela, bem-humorado.
Mas acaba aqui a excepcionalidade de João T., a quem, tal como a muitos outros homens, delicia a ideia de fazer amor com duas raparigas ao mesmo tempo e levá-las a relacionarem-se uma com a outra enquanto ele observa. “O que hei-de fazer? Sou básico, pronto!”, tenta desculpar-se ante o olhar crítico e brincalhão de duas colegas de faculdade.
Sexo com uma mulher virgem ou com uma prostituta são outras fantasias masculinas comuns, neste caso passíveis de acordo com as femininas, já que, entre as mulheres, muitas já sonharam acordadas com um daqueles papéis. “Quando estou com o meu namorado gosto de imaginar que sou uma mulher sexualmente mais vivida e de desafiá-lo”, conta Maria S..
Há quem faça ‘filmes’, assumindo por exemplo os papéis de Michael Douglas e Sharon Stone em ‘Instinto Fatal’, enredo que, ainda por cima, propicia a ‘ménage’. Há quem vá mais longe, fantasiando sexo forçado. É claro – e vários estudos internacionais mostram-no – que as mulheres que assim fantasiam distinguem claramente entre o que imaginam e a submissão sexual de verdade. Ou seja, é como se desempenhasse um papel num filme cujo guião escreveram e que podem interromper quando quiserem.
SENTIMENTOS DE CULPA
Mas nem tudo são rosas. Também há espinhos, de que são exemplos o sentimento de culpa, quando se fantasia com outro parceiro, e a suspeita de anormalidade, quando os desejos expressos são contrários àquilo que alguém julga ser e possivelmente é. O dilema foi resolvido nos anos 50, com o célebre ‘Relatório Kinsey’: “É fácil entender por que é que algumas pessoas se sentem culpadas e preocupadas com as suas fantasias. Mesmo assim, ter uma fantasia não é, por si só, geralmente encarado como indicação de um problema psicológico ou de uma desordem de personalidade”. Está escrito.
EXPLICAÇÃO DAS FANTASIAS
Qual é a origem das fantasias sexuais? E porque diferem tanto de pessoa para pessoa? É no inconsciente que os especialistas têm buscado as respostas para estas perguntas, alegando que as fantasias podem revelar aspectos secretos, não conscientes, de cada personalidade.
Nesta linha de raciocínio, quem, por exemplo, se imagina sexualmente submissa/o ou passiva/o pode estar a expressar desejo de experimentar prazer sem responsabilidade pessoal e, logo, sem a culpa associada, em alguns casos, à relação.
As mais frequentes fantasias masculinas podem classificar-se nos seguintes grupos:
- Domínio: as mulheres assumem o controlo do seu próprio prazer e do prazer do parceiro.
- Insaciabilidade: as mulheres consideram-se sexualmente irresistíveis e exigem do parceiro que se comporte à altura.
- Outras: as mulheres retiram excitação com a ideia de outra mulher presente.
Sem tirar o mérito aos métodos particulares de cada um, aqui ficam algumas sugestões para desenvolver e tirar partido de fantasias sexuais. Bom proveito.
RELAXAR
Tire tempo e torne o espaço agradável, de maneira a criar um ambiente relaxado. Respire fundo, tomando consciência do seu corpo. Imagine que líquidos agradavelmente quentes circulam no seu corpo, das pontas dos pés à cabeça, particularmente na zona genital.
RECORDAR
Recorde uma experiência sexual que tenha considerado boa e faça como se estivesse a projectar um filme dentro da sua cabeça. Todos os detalhes são importantes. Projecte de novo o ‘filme’ mas num cenário diferente, com sensações mais fortes e discurso mais elaborado.
PRATICAR
Com a prática pode tornar-se mais experimental. Numa relação a dois, e para que a fantasia não perca intensidade, atribua um papel ao seu parceiro. Imagine por exemplo que estão os dois no cenário do ‘filme’ e combine o que o seu parceiro está a fazer com o que imagina.
SONDAR
Partilhar fantasias e desempenhar um papel na fantasia do parceiro pode aumentar a confiança e intimidade do casal. Ou não. As fantasias são extremamente pessoais. Revelá-las pode ter riscos. O melhor é falar antes com o parceiro, abordando o assunto, para ver como reage.
OPINIÃO DA JORNALISTA DULCE GARCIA
Não é preciso ir a Manhattan, escrever no ‘New York Observer’ ou usar sapatos Manolo Blanick para ter fantasias sexuais. Isto no caso das mulheres, claro, porque os homens – ao que consta – têm-nas em qualquer taberna ou vão de escada. Basta ir ao universo bloguístico para perceber que a sexualidade feminina é hoje governada por essa senhora marota chamada democracia. Os sutiãs queimados, as trocas de casais nas famosas festas da chave – tão bem retratadas no filme ‘Tempestade de Gelo’, de Ang Lee – e as mudanças frenéticas de camas ao bom estilo beat, de Jack Kerouac e William Burroughs, tudo isso é passado.
A grande ousadia desta nova sociedade sem fios é a confissão by internet. Há de tudo nestas confrarias do prazer. Cabeleireiras, executivas, domésticas e universitárias, todas contam o que fazem ou gostariam de fazer quando deixam cair os sapatos de salto agulha e se deitam na cama. Parece que foi preciso importar uma série de televisão americana para se perceber de vez que as mulheres adoram falar dos atributos dos homens – e não propriamente da cor dos seus olhos ou da delicadeza das suas mãos. Elas falam “daquilo” e, como adoram detalhes, vão mais longe do que eles alguma vez foram. Não lhes chegam as questões anatómicas ou as posições, fazem a radiografia completa e posso dizer-vos que muitos rapazes ficariam mortificados se recebessem em casa a avaliação final.
Mas a questão agora é outra, é dissertar à grande sobre a matéria para um auditório mais vasto do que aquele que cabe numa mesa de café. É confessar pecadilhos e descrever maratonas atrás de um anonimato que insufla a ousadia. É também, ou talvez sobretudo, retirar prazer só por saber que se tem tamanha audiência. Lembram-se daquela anedota do náufrago e da Claudia Shiffer, em que ele depois de dormir com ela pede-lhe para fingir que é um homem e poder contar-lhe que anda a “comer” a melhor top-model alemã? Lá está – a suprema glória não é tanto o sexo mas a publicidade à volta dele. Até agora, isso parecia um tique masculino, agora elas começaram a exibi-lo. Tendo em conta o seu jeito para os pormenores, espera-se o pior…
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