O futebol contado às criancinhas que não sabem que a bola já foi de couro. As alegrias e tristezas que fizeram a história do desporto-rei. E que prova como uma bola e onze jogadores de cada lado cativam multidões em todo o mundo.
A queda da Bolsa de Wall Street, em 1929, arrastou vários governos latino-americanos. A crise nos preços da carne, do café, do açúcar, das bananas desestabilizou economias frágeis e, em 1930, numa série de golpes de Estado, os generais chegaram ao poder na Bolívia, Argentina, República Dominicana... No Brasil, políticos e militares formaram uma Junta de Governo e deram o poder a Getúlio Vargas.
Um país ficou imune a essa tendência: o Uruguai. Estava ocupado a organizar o primeiro Mundial e só pensava em grandes coisas, não tinha tempo para trocos. Mas não foi para preservar a sua democracia que o Uruguai foi encarregado pelo presidente da FIFA, Jules Rimet, a organizar o primeiro campeonato onde seria entregue a Taça do Mundo.
O Uruguai organizava porque tinha conquistado pergaminhos internacionais. Nos Jogos Olímpicos de 1924, em Paris, a equipa uruguaia era uma desconhecida. Aliás, o Uruguai ninguém sabia apontá-lo no mapa. No jogo inaugural, com a Jugoslávia, subiu ao mastro uma bandeira ao contrário, com o sol para baixo, e o hino tocado era uma marcha brasileira.
Mas o Uruguai ganhou 7-0, foi por aí fora e acabou campeão olímpico. A mãe do futebol era a Inglaterra, mãe de uma coisa atlética, corrida a direito e pontapeada com força. Já os uruguaios eram a imagem do seu melhor jogador, José Leandro Andrade, engraxador de sapatos, para ganhar a vida, e organizador de cortejos de Carnaval, para vivê-la.
Pobres e alegres. Traziam uma forma de jogar a que chamavam ‘verónica’, porque toureavam, davam baile, ao adversário. Como treinam isso?, quiseram saber os jornalistas. Andrade deu-lhes baile: corriam atrás de galinhas... Os jornais escreveram isso. Nos JO seguintes, 1928, em Amesterdão, tornaram a ganhar, numa final contra a Argentina.
Daí o Uruguai ter a honra do primeiro Mundial de futebol. Meteu-se em brios e construiu um estádio magnífico a que chamou Centenário para celebrar a data da independência do país. Futebol e pátria ficaram definitivamente ligados e a prova era a camisola, a ‘celeste’, como o azul suave da bandeira. Com 100 mil espectadores e 20 mil à porta, a final foi, de novo, contra a Argentina. E, naturalmente, o Uruguai ganhou (4-2).
Naturalmente porque, em 1928, na noite anterior ao jogo, o cantor argentino Carlos Gardel tinha ido ao hotel de Amesterdão, onde se alojavam os seus compatriotas, e cantou-lhes um tango, ‘Dandy’. Dois anos depois, em Montevideu, Carlos Gardel voltou ao hotel dos argentinos e cantou-lhes o mesmo tango. Desde aí, o mundo tirou duas lições: 1) com o futebol nunca se brinca com azares e 2) com um argentino ao lado é prudente não trautear o tango ‘Dandy’. Trinta mil argentinos tinham vindo de barco, pelo Rio de la Plata, para assistir à final de Montevideu, mas o nevoeiro atrasou os barcos.
Quando puseram os pés no cais já se sabia resultado. Muita Argentina ainda hoje não acredita que a final de 1930 tenha acabado assim. O jornal francês ‘L’Équipe’, com tantas tradições no futebol que foi ele que começou por organizar a Taça dos Campeões Europeus, nas vésperas deste Mundial-2006 lançou uma bela edição com as suas primeiras páginas sobre as finais de todos os Mundiais.
Hoje, ‘L’Équipe’ tem sob o título: “Jornal do Desporto e do Automóvel”. Em 1930, ‘L’Équipe’ ainda se chamava ‘L’Auto’. A 31 de Julho, a primeira página tem como principal notícia a ida à América dos ases do ‘Tour de France’, apresentado como “a mais gigantesca competição desportiva dos tempos modernos”. Outros destaques: um editorial, ainda sobre a Volta, a presença dos tenistas franceses na Taça Davies, e um campeonato de atletismo feminino... Só a meio da página, a uma coluna, a informação: “O Uruguai ganha a final da ‘Coupe du Monde’ batendo a Argentina por 4-2”.
O Mundial do Uruguai teve só quatro países europeus, e não muitos grandes no futebol: França, Bélgica, Jugoslávia e Roménia – três semanas de barco desencorajaram a deslocação. Em 1934, em Itália, o Uruguai, despeitado por a Europa não ter estado em força no seu Mundial, também não compareceu e seria o primeiro e último campeão em título a não jogar no campeonato seguinte.
Em Itália, só estiveram três selecções do Novo Mundo: Estados Unidos, Brasil e Argentina. Viagem inútil, os três cairiam ao primeiro jogo de eliminatória: 12 mil quilómetros por 90 minutos. Na final de 1930, Luisito Monti jogou pela Argentina. Em jogo a anterior, contra a França, foi tão bruto que os franceses alcunharam-no de ‘Dillinger’, então ‘gangster’ na moda nos Estados Unidos.
Mas na final contra o Uruguai, Monti fez uma primeira parte muito docinha, até dava a mão a adversários caídos. No intervalo, a equipa apanhou-o a chorar. Mostrou uma carta de ameaças: “Se jogas duro, a tua mãe morre”. E Monti foi suave em toda a final. A Argentina não perdoou ao seu bruto, acusou-o da derrota. Ganhou a Itália que o importou e nacionalizou (ele era filho de italiano). Eis Luisito Monti na selecção italiana no Mundial de 1934.
Mussolini organizou o Mundial como propaganda do fascismo. O estádios tinham um Hércules com a bola nos pés e braço estendido – a saudação fascista que os onze jogadores italianos faziam antes do desafio, virados para a tribuna onde estava Il Duce. Durante os jogos, Monti fazia a saudação fascista, mas com a perna em riste: partiu a tíbia ao austríaco Sindelar e o joelho ao checo Svoboda. E tornou-se campeão do mundo (2-1, à Checoslováquia). Com ele, outros três argentinos importados: Orsi, Guaita e Demaria.
Conta-se que antes da final de 34, Mussolini visitou a equipa italiana e disse: “Os italianos têm de ganhar e os adversários cair, senão...” E passou a mão, em jeito de cutelo, pela garganta. Aos oito minutos do apito final, a Checoslováquia ganhava 1-0. Guaita passou a bola a Orsi, este fintou com o pé esquerdo e rematou com o direito, a bola tomou um efeito estranho e entrou. Monti correu para Orsi e pôs-se a dar-lhe pontapés. Era de contentamento: “Tu salvaste-nos a vida! Tu salvaste-nos a vida!”, dizia o argentino-italiano para o outro argentino-italiano. A Itália estava de tal modo tetanizada com a obrigação de ganhar que nenhum fotógrafo bateu a chapa do golo.
Mais tarde, pediram a Orsi para repetir o efeito da bola, mas vinte vezes ele chutou e vinte falhou. O bruto Luisito Monti fez o balanço das duas finais, assim: “No Uruguai diziam que me matavam se ganhasse, quatro anos depois, em Itália, matavam-me se perdia.” No Mundial de Itália, para o terceiro e quarto lugar jogaram a Alemanha e a Áustria. Vitória à justa alemã (3-2). Para resolver o assunto de vez, pouco antes do Mundial seguinte, 1938, em França, a Alemanha invadiu a Áustria e anexou-lhe sete jogadores para a selecção germânica.
O melhor deles, Mathias Sindelar, negou-se e, nas vésperas de ser preso, suicidou-se. Ao capitão austríaco Nausch, os nazis quiseram obrigá-lo a divorciar-se da mulher, judia. Ele preferiu fugir com ela para a Suíça, onde jogou pelo Grashoppers. Assim, o Anschluss, a anexação da Áustria, do ponto de vista futebolístico só deu Raftl, Skoumal, Neumer, Hahnemann e Stroh. Quase meia equipa, mas muitos menos de alma.
Depois de um primeiro jogo empatado a um golo, o jogo de repetição foi anunciado pela Imprensa alemã como: “60 milhões de alemães com a equipa”. No dia seguinte ao jogo os jornais suíços podiam dizer: “Eles diziam que jogavam com 60 milhões. À Suíça bastaram 11 futebolistas.” Suíça, 4, Alemanha, 2. Foi uma semana bastarda para os nazis: dias antes, o ‘boxeur’ negro Joe Louis mandou ao tapete o campeão alemão Max Schmeling.
No Mundial de 1938 apareceram equipas estranhas, como as Índias Holandesas (o que seria mais tarde Indonésia) e Cuba. Esta perdeu 8-0 com a Hungria, facto que vale só por uma famosa ‘boutade’ do jornalista francês Emmanuel Gambardella que parou de escrever, assim: “Até aos 5-0 é jornalismo. Depois, é estatística.” Mas apareceu, pela primeira vez com grande equipa, os futuros imperialistas do mundo do futebol: o Brasil. Levou Leônidas da Silva, o inventor do pontapé de bicicleta.
Era assim tão bom? Resposta: o jornal francês ‘Match’ contou seis pernas. E Domingos da Guia. Antes de Domingos da Guia, os defesas despachavam a bola. Ele, depois de desarmar o avançado, passava horas a despedir-se da bola. Sair da grande área, demoradamente, com a bola nos pés, ainda hoje se chama, no Brasil, ‘domingada’.
Domingos da Guia tinha um defeito: gostava de chamar os adversários para fintá-los na sua grande área. Defeito, não que a perdesse, mas porque matava do coração os seus adeptos. O Brasil caiu nas meias-finais com a Itália (2-1). De novo na final, com a Hungria, a Itália obedeceu a Mussolini (telegrama curto: “Vincere o morire”). Já que teve de ser, venceram, 4-2.
Desta vez, ‘L’Équipe’ já chama o resultado da final para a manchete. Aliás, já o começo do Mundial fora manchete. O presidente francês Albert Lebrun esteve presente e deu o pontapé de saída. Chutou o chão e a bola ficou quietinha. A França estava mal servida de dirigentes, iria se invadida no ano seguinte. Os anos 40 foram negros por tudo o que se sabe e também porque não houve Mundiais. E a segunda metade do séc. XX nasceu com o maior trauma jamais ocasionado pelo futebol.
Calhou a desgraça aos brasileiros. Assistiam à final de 1950, no Maracanã, 203 850 espectadores (nunca mais tantos viram um jogo ao vivo). Às 16.38, minuto 33.30 da segunda parte, o uruguaio Ghiggia correu pela direita, o guardião Barbosa pensou que ele ia centrar, desguarneceu o primeiro poste, Ghiggia rematou rasteiro e fez golo. Não, não foi “gooooolo!”. Foi golo. Todos se lembram disso: do silêncio.
Tão avassalador que os uruguaios nem festejaram. O silêncio dava medo. Onze minutos depois tudo tinha acabado. Jules Rimet subiu com a sua taça e não havia nem banda de música, nem microfones, nem guarda de honra. Ninguém prevê o impensável. O futebol estava pronto para ter memória, tinha vivido o seu momento histórico. Tinha futuro.
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