Ontem fui a Lisboa e há um maduro que me diz: ‘então pá, vieste a pé?’” Pergunta mais pertinente que inconveniente para o presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de Matosinhos, ULSM, que integra o Hospital Pedro Hispano, que prescindiu da compra de cinco viaturas, para uso pessoal dos membros da administração – no valor total de 175 mil euros –, na tentativa de viabilizar a compra de novos equipamentos para o serviço de neurocirurgia (ver caixa). Brincadeira por brincadeira, Nuno Morujão responde: “como estava calor e eu suado, disse, então não se vê que sim!”
Como a cumplicidade entre os membros da administração não é crime, todos se tocam quando o assunto é trabalho – e daí já estreitaram laços de amizade. Assentiram, em uníssono, trocar um direito por uma necessidade; o carro por equipamento médico. E ninguém anda a pé se não quiser. Utilizam os veículos pessoais – mas só quando viajam para lá de um raio de 100 quilómetros, recebem pela gasolina e portagens. É já habitual. Não é inédito no Hospital Pedro Hispano que a rubrica destinada à compra de carros administrativos se destine a outros fins. Desta vez é que a verba não se diluiu em pequenos gastos.
EVITAR A MORTE EM DOSES SUAVES
“Evitamos a morte em doses suaves.” Pablo Neruda escreveu a frase que nunca mais descansou Nuno Morujão. O texto completo do poeta chileno anunciava-se num qualquer placar, na baixa lisboeta. O médico anestesista já habituado a incursões à capital, acompanhado pela sua mulher, para o deleite do teatro, ópera e exposições, ficou preso ao texto. No Natal, foi surpreendido pela prosa de Neruda. Sobre a sua secretária, no hospital, repousa uma cópia do texto.
Nascido em Santa Maria da Feira há 56 anos, filho de pais funcionários públicos, Morujão foi criado pela madrinha e avó, dos 5 aos 12 anos. O curso de Medicina, que iniciou em 1968, relembra uma formatura no ano da Revolução e um casamento que prolonga até hoje.
As palavras são traçadas pelo seu pensamento organizado; conta diversas histórias; o olhar foge-lhe para as paredes e as mãos desenham expressões. É bem humorado. A especialidade em Anestesia é das mais complexas artes de pensar em medicina, defende Morujão – que começou a trabalhar no Hospital de São João, no Porto, depois do atribulado ano de 1974 e durante 20 anos. O convite para integrar o Hospital Distrital de Matosinhos surge neste ano, ainda o Pedro Hispano estava em tijolo. Descansado no Algarve, em Setembro de 2002, recebe um telefonema do presidente da Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte a convidá-lo para presidir à ULSM. Pensou não aceitar. Decidiu não recusar.
Neruda, no seu texto, arranca ao médico a convicção de que a partilha é arte tão nobre como renegar o despesismo: “assistimos diariamente a pessoas que têm o conhecimento e o guardam para si.” Portanto, há exemplos a seguir.
Diriam os génios das letras: ‘ah, a poesia, Miguel Torga e Aquilino Ribeiro são os dois homens da terra – no sentido prosaico’. Terra que muito diz a Joaquim Pinheiro da Silva. “Manuel chegou, deu a umbigada na mulher”, cita de cor o director clínico. É Aquilino. Amante da força de Herberto Helder, o médico neurologista tem, nas suas palavras, o poético e o humor. “E Eça? ‘A Relíquia’ é o melhor dele. A única coisa que acho que joga bem no ‘Crime do Padre Amaro’ é aquela actriz... a Soraia.”
"TEMOS DE NOS APROXIMAR DOS DOENTES"
Para Pinheiro da Silva, há um princípio a seguir na medicina: “nós [médicos] é que temos de nos aproximar dos doentes, não são eles de nós.” E como atleta amador habituado a correr maratonas, teve a ideia de aplicar o dinheiro dos carros em novo equipamento hospitalar.
Nascido em Barcelos, a 20 de Junho de 1962, o director clínico da ULSM continua a dar consultas, às quintas-feiras, para os doentes de sempre – alguns, que já segue desde que trabalhou em Braga.
O humor, a característica mais transversal deste Conselho de Administração – com Nuno Morujão na presidência desde finais de 2002 e, em 2005, renomeado. O terceiro e último médico a integrar a actual administração é António Neto, filho de um ‘João Semana’. “Recordo-me de ir fazer domicílios com o meu pai tinha eu 5 anos – e, quando as estradas não permitiam o acesso aos automóveis, íamos em carros de bois.” Foi a identidade que criou por influência do pai.
António Neto, nascido a 28 de Abril de 1955 no Porto, viveu em Aguiar da Beira e especializou-se em medicina familiar. Trabalhou muitos anos na ARS do Norte e, por isso, abdicou do seu consultório próprio. Mas os doentes que o conhecem têm o seu número de telemóvel.
MODELO DE FINANCIAMENTO É O MAIOR PROBLEMA
Nem por força das responsabilidades, como vogal executivo, deixa de fazer urgências no Centro de Saúde de Matosinhos. António Neto quer fazer “uma experiência” a escrever ficção. Ele tanto fala de um assunto sério como conta uma anedota. As reuniões do Conselho de Administração são muitas vezes invadidas pelas gargalhadas inspiradas nas suas tiradas, diz Célia Gouveia Rosa – a única mulher na Administração, a única que não veste bata branca e a mais nova.
Célia circula no hospital para conhecer todas as caras. A economista não é, nem de longe nem de perto, fria como os números. E não se priva de críticas: “o modelo de financiamento destas instituições é o maior problema porque o grande pagador é o Estado. No fundo a instituição ganha mais dinheiro promovendo a doença. Quando deveríamos ter era mais dinheiro para promover a saúde.”
A vogal executiva nasceu em Angola, a 20 de Abril de 1972. Recordações, nenhumas. Saiu de lá com 3 anos, para seguir o pai para França. Entrou para a faculdade em Bordéus, mas como recusava a dupla nacionalidade, parte, aos 18 anos, para estudar em Coimbra. Dedicada, profissionalmente, à assistência comunitária – já que foi antes directora da área administrativa e financeira da Segurança Social da região Centro –, compara a realidade das urgências hospitalares francesas com a portuguesa: “em França ninguém vai às urgências por uma dor de dentes, uma febrezinha.”
Por trás da secretária, no seu gabinete, conhecem-na como forreta. “Mas não deixo de dar resposta.” E, sempre presente, na mesma mesa, Matilde, a bebé de 16 meses que lhe dar ar de mamã.
A última bata branca da administração veste-a Camilo Areias, o enfermeiro director. Prefere não falar da família. É mais comedido. Fanático por trabalho, são os projectos que dão luta os que gosta mais. Por isso, acreditou nesta administração hospitalar e interrompeu serviço nos centros de saúde. “Trabalhei 20 anos no hospital e cinco num centro de saúde. Quando sair daqui só gostaria de ir para um centro de saúde.”
Camilo Areias nasceu em Guimarães, a 14 de Setembro de 1958. Vibra com desporto: bicicleta, corrida, actividades marítimas. Até andar de mota – só o capacete lhe corta a fruição do ar livre.
À semelhança da ‘troca’ de carros por equipamento, o enfermeiro trocaria uma das duas unidades de Cuidados Intensivos do hospital, por uma de internato de média e longa duração (para apoiar os idosos da região).
QUANTO CUSTA CARROS PARA A ADMINISTRAÇÃO?
Ao prescindirem do direito à compra de viaturas para uso pessoal, os cinco administradores da Unidade Local de Saúde de Matosinhos deslocam-se nos seus carros próprios. Mas será que os 35 mil euros que recusaram gastar por cada carro chegaria para adquirir uns iguais aos seus?
Os dois Volkswagen Passat do presidente do Conselho de Administração e o director clínico, custam, novos, 35 280 euros (o motor 1.9 Tdi). A mota, Honda NT700 Deauville, igual à do enfermeiro director, custaria 9160 euros. O Volkswagen Golf da vogal executiva custa, novo, 26 578 euros (1.9 Tdi) e 18 612 euros, a versão 1.4 a gasolina. Finalmente, o Peugeot 407 1.6 Hdi de outro dos vogais custaria 33 620 euros.
SEM AUTOMÓVEIS MAS MELHOR EQUIPADOS
O novo equipamento chegou ao serviço de neurocirurgia do Pedro Hispano no início de Agosto (conforme avançou o Expresso): um microscópio, um sistema de neuronavegação e uma broca de precisão. Instrumentos que permitem localizar e eliminar lesões com precisão. Apesar de não se destinar só à cirurgia epiléptica – a título de exemplo –, no caso de um doente epiléptico com descargas que dão origem a uma crise convulsiva localizadas num único foco, através da indicação cirúrgica, será agora mais fácil removê-lo.
Esta unidade hospitalar adquiriu o equipamento, no valor de 700 mil euros, no âmbito do programa Saúde XXI, que o financiou em 75 por cento. Só numa segunda apreciação, tendo já garantidos os 175 mil euros poupados com a decisão de não comprar os cinco carros (ou seja, os restantes 25 por cento), viram aprovada a candidatura.
"TENHO ORIGENS RÚSTICAS"
O director clínico, Joaquim Pinheiro da Silva, não nega o berço: “Tenho origens rústicas, não tenho origens urbanas. Sou um rapaz de aldeia.” Foi ele quem teve a ideia de aplicar, na compra de equipamento, o dinheiro poupado pela decisão de não comprar carros para a administração.
O enfermeiro director, Camilo Areias, não troca o trabalho em Centros de Saúde por hospitais. Já para o presidente do Conselho de Administração, Nuno Morujão, este cargo é “transitório”. É do exercício clínico que mais saudades tem, apesar de dar uma mãozinha sempre que pode.
HÁ QUEM RECORRA ÀS URGÊNCIAS PARA TRATAR PROBLEMAS MENORES
O que mais choca a economista Célia Gouveia Rosa, vogal executiva, é que algumas pessoas recorram às urgências hospitalares para tratar problemas menores, ocupando serviços necessários para o atendimento daqueles que realmente precisam. Diz que isto não acontece em França, onde viveu e estudou dos 3 aos 18 anos – aliás, nota-se pelo sotaque.
António Neto, o outro vogal executivo, considera que o médico de família é essencial para qualquer cidadão. Muito influenciado pelo seu pai – um médico de aldeia à moda antiga –, respeita tanto o exercício da medicina e os doentes, como a ele próprio.
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