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São professores e foram agredidos por alunos ou familiares deles dentro do lugar onde só se devia ensinar e aprender
Rui levou uma cabeçada à saída do portão. Ficou com cortes na orelha, nariz e boca a sangrar. Foi para o hospital. Margarida foi agredida na biblioteca. Torceram-lhe o braço e o dedo. Ficou três meses em casa de baixa, sem conseguir mexer um ou outro. Sónia recebeu, noites a fio, telefonemas anónimos e ameaças de morte que lhe custaram problemas familiares. Também já cuspiram na garrafa de água que leva consigo para as aulas. Isabel foi empurrada do cimo de uma escada e só parou no chão enquanto lhe apertavam o pescoço.
Rui não se chama Rui, Margarida tem outro nome no registo e nem Sónia responde por Sónia junto daqueles que a conhecem. Os nomes fictícios ditos acima protegem homens e mulheres que fazem do ensino a sua profissão. Professores que foram (ou ainda são) vítimas às mãos dos alunos naquela que deveria ser a segunda casa de uns e de outros: a escola. São vítimas envergonhadas, muitas vezes a braços com depressões que durante largos meses as acompanham. Em 2009 foram agredidos quase 300 professores. Nas duas últimas semanas foram tornados públicos pelos menos quatro casos no País – fora aqueles que se escondem entre as paredes da escola e de lá não chegam a sair. Por vergonha.
A ‘BALEIA’
Custódia, professora de Português do ensino secundário em Vila Franca de Xira, vive "em permanente sofrimento. Como sou gordinha sou alvo dos alunos. Enviam-me e-mails a chamar-me baleia, bisonte e outros animais grandes". No início de cada aula escrevem no quadro da sala ‘hoje temos aula com a orca’. Ou ‘hoje temos aula com a baleia’. Quando não escrevem no quadro, escrevem nas paredes ou desenham baleias com spray no carro da professora.
"Se vou no corredor eles desatam a rir e a fazer comentários ao meu rabo. Fiz queixa à direcção, que me disse para ignorar porque se trata de crianças embora sejam jovens com mais de 15 anos". Optou por se calar. "Evito passar nos corredores e raramente escrevo no quadro para evitar que me atirem coisas para as costas. Já pensei muitas vezes acabar comigo porque não sei durante quanto mais tempo vou aguentar".
José Sousa também conhece bem os efeitos da violência psicológica. De tal forma que, quando fez 55 anos, o professor de Matemática pediu reforma antecipada, "apesar do corte de 46%. Deixei o ensino por tudo o que passei, não aguentava mais um dia", desabafa o ex-docente de uma escola em Vila Nova de Gaia. "Sou gago e de cor, estavam sempre a gozar. Chamavam-me preto durante as aulas e cheguei a ser agredido por um aluno de 15 anos à saída da escola. Um dia desmaiei na sala de aula, tiveram de chamar o 112 e estive um mês sem dar aulas. Outra vez, um aluno de 20 a Matemática, filho de um polícia, roubou-me os códigos de um cartão de telemóvel e fez chamadas. A mãe pagou-me 400 euros mas era mais de 1000 euros".
PÔR FIM À VIDA
Elvira Madureira viu-se "obrigada a recorrer à aposentação voluntária, há cerca de um ano, porque não aguentava mais" depois de 34 anos a leccionar. Nada aconteceu até ao ano de 2006. "Houve um dia em que uma aluna irrompeu pela sala de aula e dirigiu-se a uma estudante minha com agressividade. Pedi para se retirar e peguei-lhe no braço para a conduzir para a porta. Agrediu-me de forma violenta, causou-me lesões que me impediram de fazer todas as actividades do dia-a-dia".
Sucederam-se meses de "tratamentos de fisioterapia, psiquiátricos e psicológicos pagos por mim". Devido aos custos, Elvira viu-se "obrigada a pedir empréstimos para pagar as consultas de especialidade no particular, para conseguir a tempo os relatórios para as juntas médicas" e endividou-se. "A minha situação económica tornou-se insustentável e entrei em insolvência. Devo mais dinheiro do que consigo receber de pensão, para a qual descontei 33 anos e meio. Para pôr fim ao suplício cheguei a tentar o suicídio".
A psicóloga Joana do Carmo, que fez parte da Linha SOS Professor, conhece de cor estes casos. "Quando a convivência é difícil os docentes vivem um clima de ansiedade permanente. No caso da agressão, as manifestações associam-se a quadros de stress pós-traumático, como ataques de pânico, crises de ansiedade, recusa em ir à escola e medo de andar sozinho, mas também quadros depressivos".
Durante muito tempo, Carlos Silva, de 30 anos, ficou com marcas no corpo. As da alma ainda permanecem. Não esquece o ano de 2008, em que leccionava Música nas Actividades de Enriquecimento Curricular numa escola a norte, contratado por uma autarquia. "O miúdo portava-se muito mal mas naquele dia estava pior. Agrediu-me ao soco e pontapé. Mais do que o acto, magoou-me a humilhação. Fiquei tão traumatizado que tive de cortar o cabelo – porque ele mo puxou. Metia-me nojo o meu próprio cabelo. Desde aí que também sofro de problemas urinários e penso que deve ter sido dos pontapés que levei nos testículos, fiquei com sequelas que não consigo provar porque na altura só fiz raio-X".
Mas o pesadelo de Carlos repetia-se todos os dias quando ouvia os alunos comentar a frase que ainda hoje não lhe saiu da cabeça: ‘O professor de Música levou no corpo’. "Não tive apoio da escola nem da câmara. Aconselharam-me a não apresentar queixa sob pena de não ter colocação no ano seguinte".
MURROS E PONTAPÉS
Artemisa Coimbra, professora de Inglês há 32 anos, só fraquejou na ambulância que a transportou até ao hospital onde recebeu cuidados médicos depois de uma violenta agressão no corredor de uma escola no Norte do País. "Senti-me injustiçada, mas depois comecei a ver a coisa ao contrário: eu não fiz nada de que me possa envergonhar, por isso vou denunciar". A agressão aconteceu em 2008.
"Repreendi uns alunos que estavam a usar impropérios. Um deles respondeu-me torto e levei-o ao conselho executivo. Deixei-o lá e quando estava no corredor fui surpreendida. Ouvi um insulto, olhei para o lado e só tive tempo de ver o rapaz já em cima de mim". Levava as mãos ocupadas, com o computador, livro de ponto e pasta. "Fiquei muito maltratada. Os óculos saltaram--me e fiquei lesionada numa perna devido aos pontapés que me deu com botas grossas e também levei murros e estalos". O agressor, de 16 anos, foi julgado dois anos depois e considerado culpado. "Foi feita justiça".
O mesmo não pode dizer a professora de Educação Física Lisa Cruz, há doze anos no ensino. O aluno de 11 anos que lhe rompeu um tendão e arrancou parte da articulação do polegar numa escola de Aveiro "saiu impune. Quando fui ao tribunal de menores perguntaram-me qual achava que era o castigo adequado. Disse que queria uma indemnização pelas despesas médicas e que achava bem que fizesse trabalho comunitário na escola".
Um ano depois o veredicto foi ouvido no mesmo tribunal: "Disseram ao menino que tinha de ser assíduo, pontual e ter positivas. O meu pedido de castigo não foi aceite, a minha indemnização não foi paga. Dois anos mais tarde o caso acabou por ser arquivado. Claro que ficou muito bem na fotografia porque o Procurador [Geral da República] veio dizer que já tinham sido abertos não sei quantos casos e que os meninos estavam a ser punidos. Mas para nós, que andamos no terreno, não passou de uma fantochada".
Nos três meses seguintes ao incidente, Lisa não conseguiu mexer a mão direita e dedicou-se a fisioterapia intensiva. "Eram os alunos que tinham de escrever o sumário por mim, a minha mão dominante estava completamente inutilizada". Lisa foi agredida depois de separar dois alunos que estavam a intimidar um mais pequeno. "Um outro aluno, que não tinha nada a ver com aquilo, ficou chateado porque não houve porrada. Então começou a insultar-me. Não correu pior porque eu sei técnicas de autodefesa" – lembra a professora.
José Ferreira, de 42 anos, também passou "um mau bocado". "Fiquei duas semanas sem dormir, apanhei uma depressão pela primeira vez na carreira". Estava a dar uma aula de Educação Física, com os alunos a fazer abdominais e dorsais, quando "pus o pé nas costas de uma aluna para a obrigar a trabalhar mais um bocadinho, normal. O pai procurou-me, começou-me a chamar filho disto e daquilo e ameaçou-me de que tinha ucranianos a trabalhar para ele e que num instante eu desaparecia sem deixar rasto". Mas para o professor o pior ainda estava para vir. Dois dias depois viu na primeira página de um jornal regional o título ‘Professor de Educação Física agride aluna’. Cinco meses depois, o pai da aluna foi obrigado a escrever dois pedidos de desculpa nos jornais onde tinham saído as notícias.
Já Ana Costa, de 51 anos, tentou separar dois estudantes que discutiam dentro da sala de aula, em Ourém, onde era professora. "O aluno estava medicado e, conforme me disse para sair da frente, deu-me um empurrão com o braço e deslizei pela sala. Fiz uma ruptura muscular, fiquei com hematomas na perna e o braço direito ainda hoje não está bom". Apesar de tudo, não critica o aluno e percebe as circunstâncias.
"O pai estava preso e a mãe tinha morrido de sida. O garoto não teve culpa, consigo perceber que estava sob pressão". Mas hoje, e ainda assim, Ana afasta-se e não intervém quando assiste a confusões. Elvira depende da filha para comer e procura trabalho noutra área, que lhe permita sobreviver. Carlos, se pudesse, dava aulas de porta aberta até ao fim da vida. Adozinda Cruz, a professora de Francês que em Março de 2008 foi notícia por causa da discussão do telemóvel que incendiou o YouYube – na Secundária Carolina Michaëlis, no Porto – nunca mais voltou a dar aulas.
CRISE PODE POTENCIAR NOVAS AGRESSÕES
"Chegam até nós menos pedidos de professores vítimas de violência por parte dos alunos nas escolas" – considera Ana Paula Grancho, da Associação Nacional de Professores. "Em parte, a razão deve-se ao facto de antes este ser um assunto-tabu, que o Ministério insistia em negar. A verdade é que nos últimos anos foram tomadas medidas determinantes ao nível da lei – como o facto de a violência contra os professores já ser considerada crime público, o que dá uma segurança maior a quem apresenta a queixa", explica a docente.
Além disso, continua, "foram reforçadas as equipas da Escola Segura e as direcções regionais passaram a ter uma plataforma de participação obrigatória de todas as ocorrências". Ainda assim, Ana Paula Grancho demonstra preocupação com a crise do País: "Vão começar a chegar-nos alunos mal alimentados, que por estarem sem comer estão mais mal humorados e que por conseguinte vão implicar com os professores e colegas. Teremos este problema para resolver".
NOTAS
APOIO
Linha SOS Professor acabou em 2009, mas mantém-se o apoio do espaço Convivência nas Escolas.
OFENSAS
No ano lectivo de 2010/11 GNR contabilizou 206 ofensas à integridade física no interior das escolas.
INQUÉRITOS
Em 2009 foram contabilizados 145 inquéritos abertos na Procuradoria Distrital de Lisboa relativos à violência escolar.
DESABAFAR
Em sites na internet como a ‘Sala dos Professores’, com fóruns, os docentes muitas vezes desabafam sobre as agressões.
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