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Quando a música era outra

O Tokyo, o Europa e o Jamaica começaram por ser casas de alterne. Hoje são discotecas emblemáticas da capital. Podem fechar em Abril.

20 de março de 2016 às 11:30

Em outubro de 1971, estava Marcelo Caetano sentado na cadeira do poder – de onde Salazar havia ‘caído’ anos antes – quando o Jamaica, até então uma antiga leitaria no Cais do Sodré – abria portas como bar para os marinheiros que aportavam em Lisboa. Depois de temporadas no mar era por ali – bem como nos bares vizinhos – que estes homens procuravam o ‘amor’ por uma noite no regaço das ‘meninas’ que lá os esperavam. Os corpos descobriam-se nos vãos de escada (e em quartos das redondezas) mas todas as casas pagavam policiamento, por isso dentro dos bares só os preliminares aconteciam, em jeito de encosta-te a mim que amanhã já não estou.

Esses tempos há muito que se escrevem no passado: os bares do Cais do Sodré foram-se reinventando a partir de finais de setenta – sem meninas e sem marinheiros – e cativando um público maioritariamente de esquerda, ligado ao jornalismo e ao teatro, até se transformarem (isto sim, muito mais recente) em verdadeiros ‘spots’ da moda na noite lisboeta, numa rua pintada de cor-de-rosa que é hoje uma das 12 ruas preferidas na Europa, elogio feito pelo ‘The New York Times’.

A rua em causa, a Nova do Carvalho, alberga no mesmo prédio não só o Jamaica mas também o Tokyo e o Europa -- também eles emblemáticos e também eles símbolo de uma noite em mudança. O objetivo será transformar o prédio num hotel, o que levou meia Lisboa a lamentar a possibilidade de perder estes clássicos que estão tão enrolados na história da cidade como as meninas estavam com os marinheiros naquela outra época mais ‘bas-fond’ daquele roteiro noturno.

Negócios de família

A história das três discotecas vai muito além da partilha do mesmo prédio e da mesma rua. "O meu pai trabalhava no Europa e trabalhava para outras duas pessoas, Avelino Pereira e Luiz Cabral que eram os sócios do Europa. Quem vendeu o Europa a essas duas pessoas foi um senhor que depois montou o Tokyo. A ideia desse galego era com o dinheiro que ganhara com a venda do Europa, comprar o Tokyo e a loja onde estava o Jamaica para fazer um bar ainda maior. O meu pai descobriu e conseguiu furar o negócio, por isso os dois sócios do Europa deram sociedade ao meu pai como prémio por ele ter descoberto e então montaram o Jamaica", conta Fernando Pereira, um arquiteto que depois da morte do pai, aos 19 anos, não conseguiu deixar o negócio de família.

A mãe, apesar dos 72 anos que carrega de vida, também não. É gerente há 14 anos do espaço noturno e as quartas-feiras são o único dia em que não põe pé na noite. Para compensar dorme "duas a três horinhas depois de almoço" e pondera, se as casas não fecharem, começar a ir de bengala quando a fraqueza das pernas assim o exigir. Maria José Pereira enviuvou há quase 30 anos e nos primórdios do Jamaica só entrava no bar aos domingos à noite, quando a casa estava fechada, sem meninas nem marinheiros. Fernando, o filho, também lembra bem o ritual. "O meu pai sentava- -me em cima do balcão, eu pedia chicletes ou uma Coca--Cola, o Jamaica antigamente tinha uns tambores com um acrílico e os mosquitos ficavam queimados pela lâmpada e os empregados tentavam-me assustar com a bicharada que andava lá em cima. E depois na juventude o meu pai recusava-se a pagar os feriados ao valor que os empregados queriam receber, então era eu que trabalhava nesses dias", recorda.

Música na cabine

Nesse tempo já não havia meninas – o DJ Mário Dias encarregou-se de as ‘expulsar’ com a sua música, ele que no ano quente de 1975, deambulava por Lisboa acompanhado de um grupo de amigos que costumava ir beber copos ao vizinho Europa, onde começou por testar músicas bem diferentes dos slows em que os corpos dos marinheiros e das prostitutas se entendiam na pista, nas folgas do DJ residente. A sua arte não passou despercebida aos donos do Jamaica que o convidaram para assumir esse lugar naquele bar. "Naquela altura era um bar igual aos outros, ouvia-se música que desse para anteceder a parte final, música para os preliminares, como o tema ‘Quieres ser mi amante’ do espanhol Camilo Sesto e os La Bionda que era mais disco sound", recorda o radialista. "Fui impondo muito devagarinho uma mudança na música, que só fez uma rotação de 180 graus quando há um grupo de pessoas que por mero acaso descobrem aquilo: o jornalista António Caeiro, a Leonor Pinhão, o João Botelho, a Teresa Madruga. Este grupo chegou a coexistir com os marinheiros e com as meninas, chegaram a fazer-se amizades porque houve uma altura em que as moças deixaram de parar ali porque já não se safavam, mas iam lá às vezes para estar na cavaqueira", continua o DJ que deu música ao emblemático bar até 1987.

Hoje é o filho, Bruno, o DJ residente do espaço. "Por essa altura já me sentia com outra legitimidade moral para impor a minha música, como Stones, Bob Marley, Doors, mais tarde os Cure e música portuguesa, as bandas rock que começavam a surgir, UHF, Rui Veloso, Xutos, Peste e Sida". E os clientes-tipo do bar, que até então nunca lá tinham ido pela música mas sim pela companhia feminina começaram a estranhar e "a reclamar" mas Mário não deu tréguas à mudança, que acabaria por se estender aos espaços vizinhos. Apesar de ter sido um dos primeiros a abrir, em 1947, o Europa foi dos últimos a deixar de proporcionar encontros entre as meninas da rua e os carentes de afeto que vinham do mar. "O Europa por trás tinha um barbeiro e até uma tabacaria [que também serviam os marinheiros]", conta Pedro Vieira, sócio do espaço desde 2006. Terá sido de lá que muitos dos empregados saíram. Com os bolsos cheios com os dólares dos marinheiros, abriram bares na mesma rua e batizaram-nos com o nome de cidades portuárias. O Tokyo – o bar do meio que foi erguido sobre um antigo ferro velho – é hoje também gerido por Fernando, o filho de Maria José e de um dos fundadores do Jamaica, também ele Fernando, o tal que descobriu a negociata do galego e acabou por ganhar a amizade dos patrões que lhe deram sociedade. "O meu marido, 48 horas antes de falecer disse: ‘se quiserem comprar [a sociedade no Jamaica] não vendas, filha, não vendas’. Veja lá o amor que ele tinha por aquilo. Estas palavras ainda as tenho nos ouvidos". lD

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