Os jogos de quiz estão na moda em Portugal e há até quem viva a fazer perguntas aos outros, caso de Júlio Alves
Quem coroou Napoleão imperador no dia 2 de dezembro de 1804? Que planeta do Sistema Solar tem o dia mais longo que o ano? Como se chamavam os navios gémeos do Titanic? Qual a língua oficial dos Estados Unidos da América? Que dia só existiu três vezes na nossa história e ficou conhecido como o Dia de São Nunca?
Se não souber a resposta, não se sinta mal – o nosso objetivo não é esse. Se não sabe responder, é porque não costuma jogar quiz – todas elas são perguntas clássicas do passatempo que chegou a Portugal nos anos 90 e desde então se espalhou por restaurantes, bares e coletividades, uma verdadeira invasão de cultura geral que se tornou um fenómeno de popularidade.
De tal forma que, agora, quem chega a um bar e vê uma série de cabeças baixas a escrevinhar em papéis com uma concentração mais associada a torneios de xadrez do que à movida noturna já não estranha: há cada vez mais espaços onde as pessoas se reúnem para pôr à prova conhecimentos nas mais diversas áreas, da geografia à história, passando pela ciência, pelo desporto e pelas artes. Para muitos é uma espécie de digestivo depois do jantar, antes de deitar a cabeça na almofada. Para Júlio Alves, de 47 anos, é a profissão que lhe paga as contas.
O autor do livro ‘O Grande Livro do Quiz’ (Ed. Manuscrito) conheceu este passatempo – que nasceu nos pubs britânicos nos anos 1980 – em 1995, numa altura em que só os bares ingleses e irlandeses em Lisboa organizavam noites dedicadas às perguntas e respostas. Três anos depois, Júlio era gerente de um bar na capital e decidiu fazer uma noite de quiz adequada à cultura e ao público português. "Não se tratava apenas da questão da língua, mas também dos temas e de atitude: os ingleses têm mais fair-play do que os portugueses e do que os latinos em geral. Para aquilo resultar, eu tinha de ser muito mais rígido nas regras – os portugueses tentam sempre contornar as regras – e ao mesmo tempo o jogo tinha de ser menos sério, mais divertido. Rapidamente tive de começar a fazer um quiz duas vezes por semana e em 2003 abri um bar maior chamado ‘Quiz’, que juntava duas vezes por semana mais de 20 equipas, eram 120-130 pessoas a jogar."
O bar entretanto fechou, mas o passatempo continuou: Júlio é ‘quiz master’ (como quem diz, organizador de torneios de cultura geral) em quatro bares de Lisboa, mas muitos outros se lhe seguiram. Ganha uma média de 40 euros por noite – "mas os organizadores também têm eventos privados que complementam as noites regulares e também existem outros modelos de quiz mais elaborados que são, naturalmente, mais bem remunerados", explica, sobre um trabalho que, com a prática dos anos, demora ‘apenas’ três horas a preparar. Na fase de pesquisa de informação para elaborar o quiz, as enciclopédias e a internet dão uma preciosa ajuda ao organizador. Já aos clientes, todas as ferramentas que não a memória estão vedadas durante o jogo, não há cá batotas permitidas.
No formato tradicional, o quiz tem 50 perguntas para toda a sala, respostas por escrito. No fim da noite, corrigem-se as provas e é anunciada a pontuação. Em 2004, apareceu o quiz de cascata, com respostas em tempo real, oralmente, e em que a eliminação se faz por rondas.
'CHOURIÇO' É BOM
"Muito importante é fazer um quiz adequado ao público que temos à nossa frente. Uma das piores sensações que um jogador pode ter é fazerem-lhe uma pergunta e ele não ter a mínima ideia do que é que se está a falar. E uma das mais divertidas é um ‘chouriço’, que é responder a primeira coisa que lhe vem à cabeça porque não tem a certeza e chega ao fim e a resposta está certa." Júlio dá vários conselhos às equipas, aprendidos à custa das duas décadas que tem neste papel: "Não deixem nada em branco. Se não sabem, inventem. E a quem tem a certeza absoluta digo que escreva a resposta nem que tenha de bater aos outros elementos da equipa. Por outro lado, se não tiver, que fique calado para não estragar a dinâmica. Porque muitas vezes um sabe uma pontinha, o outro sabe outra, e assim por partes chega-se à resposta certa." Outro conselho precioso de Júlio é, "sempre que se pergunta qualquer coisa que é mais ou maior – quem produz mais milho, quem pesca mais, por exemplo –, uma boa aposta é responder ‘China’, porque muitas vezes é mesmo".
Um dos desafios é lidar com o mau perder. "Mas isso também alimenta o jogo, é como no futebol. Se as coisas no futebol não dessem discussão, o futebol já tinha morrido." Uma das histórias que lhe ficaram na memória foi a pergunta que um amigo resolveu fazer ao público. "Quis tramar a malta da geografia e gerar alguma polémica: ‘Onde ficam os ilhéus de Langerhans?’ Ninguém acertou, porque os ilhéus em causa são... no pâncreas", ri-se o ‘quiz master’, para quem um dos temas mais delicados de abordar é a ciência. "É preciso ter muito cuidado, porque o que é verdade hoje pode não ser verdade amanhã. De vez em quando, aparece-me um que me diz: ‘Ó Júlio, olha que agora já descobriram que isto não é assim.’ Eu aceito sempre. Um erro que um organizador não pode cometer é estar ali a provar alguma coisa. Eu não quero provar que sei mais do que os outros. Estou apenas a compilar perguntas e a apresentá-las de forma divertida."
E o público diverte-se – mais não seja porque à saúde da vitória ou da derrota bebem-se uns copos para digerir uma ou outra. Os habitués são "mais homens, mas as mulheres são as mais corajosas. Mesmo sabendo que nunca jogaram quiz na vida ou que não são particularmente cultas, são corajosas. Quando entram no bar e pergunto se querem jogar, dizem logo que sim. Os homens são mais tímidos, têm mais dificuldade em pôr-se à prova e admitir que falharam. Por outro lado, as grandes vedetas do quiz, pelo menos em Lisboa, são homens. Há pessoas que vejo entrar e já sei qual é a equipa que vai ganhar o jogo", explica Júlio, que nunca faz nenhum quiz sobre caça, touradas ou reality shows. Por isso, se sabe na ponta da língua a diferença entre um forcado e um toureiro, as técnicas da caça e não perde pitada dos concursos que juntam na mesma casa anónimos que se querem tornar famosos, isso não lhe servirá de muito num quiz deste organizador. Por outro lado, se souber que quem coroou Napoleão imperador no dia 2 de dezembro de 1804 foi ele próprio; que o planeta do Sistema Solar que tem o dia mais longo que o ano é Vénus; que os navios gémeos do Titanic se chamavam Olympic e Britannic, que os EUA não têm língua oficial e que o Dia de São Nunca é 30 de fevereiro… está pronto para passar no teste.
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