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Reciclar, uma tarefa para os mais jovens

Saltar do papelão para as embalagens e ouvir o vidro a partir. O exemplo das crianças está a mudar hábitos lá em casa.

26 de fevereiro de 2006 às 00:00

Areciclagem pode ainda soar como um fenómeno estranho ou tarefa maçuda para muitos, mas está a entranhar-se nos hábitos. Com mais ou menos primor, mais ou menos técnica, há cada vez mais famílias que constroem o seu esquema de separação dos materiais. E quando o exemplo não parte dos pais, as crianças são as primeiras a questionar as atitudes dos adultos.

Afonso tem apenas oito anos, mas lá em casa já é ele quem dita as regras do jogo da separação. A curiosidade começou a despontar cedo, e Afonso passou a dar mais importância ao comportamento dos que o rodeavam. Em casa via os pais a separar o papel do restante lixo. Mas, quando visitava os avós paternos, estranhava não haver qualquer preocupação em distinguir os materiais.

Ana Fernandes, mãe do menino, viu--se surpreendida pelas constantes perguntas. O despontar da ‘idade dos porquês’ foi o impulso – o lixo lá de casa passou a ser o alvo das atenções. “Questionava muitas vezes os avós para saber porque não faziam a separação e depois insistia connosco para lhe tentarmos explicar.” Das palavras Afonso passou à acção. “Ele achava graça ir por trás do avós e tirar as embalagens para levar para a reciclagem.” Em casa também não houve tréguas e, depois de questionar a mãe sobre o local onde devia pôr as embalagens de plástico e vidro, Afonso decidiu seguir o exemplo de uma figura da animação televisiva para pressionar a família com mais questões complicadas. “Mãe, o Verdocas faz reciclagem do óleo. E nós, podemos fazer ?” A pergunta deixou Ana Fernandes sem palavras.

E como é de pequenino que melhor se aprendem os exemplos, Afonso achou por bem começar a ensinar o irmão de 16 meses a colocar correctamente ‘o lixo no lixo’. “O mais pequeno já deixa a fralda no caixote, os papéis no papelão e foi o Afonso que lhe ensinou tudo.” Agora vive-se um duelo lá em casa. “O mais velho chateia-se quando o irmão troca o sítio das fraldas e o pequenino, desde que aprendeu a separar, passou a amarrotar os trabalhos do Afonso. Quando damos conta já eles estão no papelão.”

OS FERNANDES são apenas uma entre as muitas famílias que fazem do domingo o dia ideal para ‘viajar até ao ecoponto’. Traduzidos em números, estes passeios de equipa resultam em toneladas de embalagens que a Sociedade Ponto Verde envia para a reciclagem. Entre o lixo industrial e doméstico, só em 2005 foram recicladas mais de 27 mil toneladas de plástico, cerca de 14 mil toneladas de metal e quatro mil e quinhentas toneladas de madeira. O campeão é o papel, que viu 132 mil toneladas de material transformadas, seguido de perto pelo vidro.

E quando os exemplos faltam em casa, são novamente as crianças a promover a empatia dos mais velhos junto do bichinho da reciclagem. “Os miúdos são mais plásticos do ponto de vista da sensibilidade”, explica o psicólogo para a educação e director do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, José Morgado. “Ir ao vidrão é uma tarefa de responsabilidade e os miúdos assumem com muito boa vontade este tipo de tarefas, estando muito atentos ao que os adultos fazem.” Por isso, José Morgado arrisca uma conclusão: “As crianças adoram tomar conta dos adultos, mas infelizmente damos-lhes poucas oportunidades de nos ensinarem.”

AS ESCOLAS são o sítio ideal para desenvolver um comportamento mais próximo da questões ambientais. O Jardim de Infância da Santa Casa da Misericórdia de Oeiras apostou, há três anos, num projecto ligado ao ambiente. Agora tem um ecoponto à porta, participa num projecto de reciclagem de óleos e desenvolve com os alunos mais velhos um conjunto de actividades onde a educação para a reciclagem é prioridade.

Além de ser a mãe do ‘comandante’ Afonso, Ana Fernandes é educadora de infância naquele jardim. Por isso, aproveita todas as oportunidades para ensinar às crianças pequenos hábitos de reciclagem. Na sala até aos três anos há saquinhos para colocar os restos dos recortes que fazem. “Os mais velhos têm três caixotes à entrada da sala para fazerem a separação e, quando estão cheios, levam-nos até ao ecoponto.”

Para que tudo isto não se transforme num processo rígido, a tendência natural é criar actividades lúdicas que os ensinem e divirtam. Todos os anos as prendas do dia do pai, da mãe ou até mesmo de Natal são feitas do reaproveitamento de materiais. Latas, embalagens e cartão fazem as maravilhas dos mais pequenos e alegram o coração dos pais. “Cortamos o papel miudinho, deitamos-lhe água, ensinamo-los a fazer pasta de papel, a pintar e simultaneamente a reciclar.” E quando é altura de animar as hostes, os “copos de iogurte são cheios com massas, arroz ou feijão, colados e envolvidos em papel autocolante.” Ana diz entusiasmada: “São óptimos instrumentos musicais.”

Também as autarquias promovem tácticas de sensibilização das populações. Muitas fazem a recolha dos materiais para reciclagem porta a porta, outras, ainda, distribuem caixotes de separação para o lixo.

O QUE ESTIMULA AS CRIANÇAS?

“O crescimento é um processo de construção, e a reciclagem usa a capacidade da criança manusear e separar os objectos par dar a ideia da transformação em coisas novas”, uma opinião defendida pelo pedo-psiquiatra Carlos Farate. Reciclar “coisas sujas e poluídas” para lhes dar uma nova utilidade, podendo palpá-las, funciona como incentivo. A publicidade é factor chave. ”Faz-se uso da imagem da criança porque reciclar é o futuro”, é a ideia do renascimento. E nada melhor do que uma criança para captar a atenção de outra. “Desperta o imaginário infantil”, defende.

NÚMEROS DA RECICLAGEM

Muitos acham ainda que a separação dá trabalho e não tem efeito prático. Olhar para os números pode ajudar a mudar essa opinião.

- 1,3 kg é o valor de resíduos que cada um de nós produz diariamente

- 1 lata de bebida pode ser infinitamente transformada sem perder a qualidade

- 1 tonelada de papel reciclado evita o abate de 15 a 20 árvores

- 5 garrafas de plástico recicladas dão origem a polyester suficiente para fazer uma t-shirt XL

- A energia poupada pela reciclagem de uma garrafa de vidro dá para manter uma lâmpada de 100W acesa durante 4 horas

ECOPONTO CASEIRO

Cada família sabe como melhor orientar a arrumação em casa. Mas, para evitar um avolumar de sacos e caixotes, pode colocar a imaginação a trabalhar e, com os seus filhos, construir um ecoponto com caixas de cartão. É um exercício simples que os pode divertir e elucidar na separação.

MAIS EFICIÊNCIA

Sempre que pretende reciclar uma embalagem deve escorrer e despejar o seu conteúdo. Para evitar maus cheiros deve também passá-las por água. Sempre que possível espalme-as, assim ocupam menos espaço. O transporte é mais fácil e diminui o número de idas ao ecoponto.

EVITAR ENGANOS

Embalagens de produtos tóxicos não podem ser colocadas no ecoponto. Electrodomésticos, pilhas e baterias também não devem ser separadas como metais. Quanto ao papel, as embalagens com gordura, o papel de alumínio ou o papel autocolante não entram no ciclo do cartão.

JOGO DA SEPARAÇÃO

A separação dos materiais deve ser uma actividade divertida. Crie alguns jogos, faça regras e estabeleça fasquias. Para captar a atenção dos mais novos, leve-os consigo até ao ecoponto. Descobrir o local correcto de entrega e ouvir o som das garrafas no vidrão é um estímulo.

OPINIÃO DE DULCE GARCIA

OUTRAS RECICLAGENS

A CABEÇA É UM ARQUIVO e de vez em quando é preciso arrumá-la. Dizem os especialistas que ao longo da vida existem dois apagões voluntários na memória: o primeiro aos 14 anos, para se poder partir mais levezinho para a idade adulta; o segundo perto dos 40 anos, quando já temos o nosso quinhão de riso, de amor e de mágoa, e é preciso arranjar espaço para deixar entrar novos inquilinos e realojar os que vale a pena irem connosco até ao fim.

NO INTERVALO DESTAS duas etapas, o melhor é ir praticando alguns rituais higiénicos de fácil execução. Por exemplo: deitar fora maços de lembranças difusas que nos impeçam de acreditar que a melhor coisa do mundo ainda está para vir.

É DIFÍCIL VIVER UM GRANDE AMOR se passarmos o tempo agarrados a fotografias baças de homens ou mulheres que se perderam do nosso caminho ou a quem largámos o braço de livre vontade; é impensável concretizar sonhos se nos convencermos de que a ousadia é uma receita exclusiva da juventude. E acima de tudo, é impossível sermos felizes se não acreditarmos, por pouco que seja, que esse estado de alma está ao alcance da nossa mão.

HA MILHARES DE PESSOAS que vivem no tempo errado. O antigamente em que eram felizes e não tinham preocupações, nem dúvidas, nem medo. E agora tudo é feio e mau e desapontante. Talvez o apagão não tenha chegado a estas cabeças, que assim vão deambulando pelo tempo certo, o presente, com uma espécie de horror ao outro, ainda melhor, que há-de vir: o futuro.

A CABEÇA É UM ARQUIVO. E como todos os arquivos precisa de ordem e de manutenção. Várias coisas podemos decidir em relação a essa torre do Tombo que albergamos em cima dos ombros. Uma parece-me determinante: queremos fazer dela uma coisa viva ou morta?

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