Secundino Cunha fez “reportagem romanceada” de uma portuguesa que tinha o diabo no corpo.
Aquilo que conduz uma mulher jovem, com um curso superior, de uma família de classe média, a espernear e a esbracejar, antes de perguntar a um padre e aos familiares mais próximos, com uma voz grossa irreconhecível, "filhos da p..., cornudos, cab... de m..., que quereis de mim?", é descrito por Secundino Cunha no livro ‘O Exorcismo de Ana C.’ (Esfera dos Livros).
"Se quisesse classificar o livro, chamar-lhe-ia uma reportagem romanceada", diz à ‘Domingo’ o jornalista, de 48 anos, que desde 1991 faz a cobertura noticiosa do distrito de Braga para o ‘CM’, sendo ainda especialista em temas religiosos. Tanto a Ana C. apresentada como médica do Hospital de São João, no Porto, como o monsenhor Alcides Quinteiro, encarregue do seu exorcismo, têm na realidade outros nomes, mas é em factos reais que se baseia o relato do que foi preciso fazer para que o demónio deixasse de possuir o corpo de uma portuguesa que entrou em acentuada degradação física e psicológica após perder o pai, vítima de um ataque de coração fulminante.
Apesar de já ter escrito muitas notícias sobre pessoas que fizeram coisas a que muitos reagem com o desabafo "são horas do diabo...", Secundino Cunha não consegue ser "perentório" no que diz respeito à possessão demoníaca. "Vejo mais o diabo como personificação do mal", refere.
Nunca assistiu a um exorcismo, mas tem a esperança de que o seu livro contribua para eliminar pelo menos um preconceito: "Muitas vezes pensa-se que isto só acontece a pessoas iletradas. Mas não. É um fenómeno transversal".
DO 80 PARA O OITO
Apesar de citar no seu livro Duarte Sousa Lara, um dos padres portugueses que têm autorização do bispo da respetiva diocese para a realização de exorcismos, Secundino Cunha reconhece que a Igreja Católica não lida bem com estas manifestações do mal. "A Igreja passou do 80 para o oito. Nos anos 60, a cada quatro ou cinco aldeias havia um padre que fazia exorcismos. Depois, nos anos 80, houve uma fase em que fugia muito disso", explica. Algo a que terá sido alheio o famoso caso de Klingenberg, ocorrido na Alemanha em 1976, quando dois padres católicos e os pais foram condenados pelo homicídio negligente de uma jovem que fora submetida a diversos exorcismos ao longo de dez meses. Anneliese Michel acabou por morrer, subnutrida e desidratada, aos 23 anos.
Face à relutância da Igreja Católica, entraram desde então em campo os bruxos, curandeiros e afins que prometem livrar de influência maligna quem lhes bate à porta com dinheiro suficiente para pagar - um decilitro de água benta pode custar 400 a 500 euros... - e desespero bastante para seguir indicações muito questionáveis.
Hoje em dia, como um papa no Vaticano que fala muitas vezes no diabo e com a definição de regras muito precisas para os exorcismos solenes, muitos continuam a ser os católicos que buscam ajuda. Mas nem todas as dioceses portuguesas têm um padre habilitado a utilizar água benta, sal, um crucifixo e muita oração para expulsar um (ou mais) demónios daqueles que em frente a si se contorcem e ficam com o rosto quase irreconhecível.
Em casos como o de Ana C., que precisou de vários exorcismos e teve recaídas que a levaram a deslocar-se de cadeira de rodas ao santuário onde decorria o ritual, tornou-se claro que o combate ao demónio está assente em três pilares: "Paciência, Persistência e Oração". Mas o livro de Secundino Cunha deixa um alerta dos exorcistas: "Tudo o que evoque o Além à margem de Cristo e da Igreja é estrada larga para a caminhada do diabo". Duarte Sousa Lara diz mesmo que mergulhar no esoterismo "é como entrar desprotegido na zona das doenças infectocontagiosas de um hospital".
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