Viagem aos bairros mais devedores da Gebalis, gestora das casas municipais de Lisboa onde a inquilina principal é a pobreza
Nestes bairros por entre a cidade das setes colinas não se ouve fado nem ecoam pregões. As histórias que se esgueiram pelas esquinas mostram-nos pedaços de vidas precárias, que todos os meses esquecem a factura da Gebalis, a empresa pública quase falida responsável pela gestão destes centros.
A dívida, "em Dezembro de 2009, ascendia a 19 milhões de euros", segundo Helena Roseta, vereadora da Habitação da Câmara de Lisboa. "Destes, 1,2 milhões estão aprovisionados, 1,9 milhões têm acordos de liquidação com os moradores e 9 milhões estão em contencioso". Na radiografia tirada a seis destes bairros salta à vista casos de alcoolismo, toxicodependência, insegurança e isolamento. Sobra a miséria.
O MEDO DOS DIAS IGUAIS
À medida que avançamos por entre o aglomerado de prédios amarelos do bairro da Alta de Lisboa Centro, responsável por 2,67 milhões de euros de dívida à Gebalis desde 1995, deparamos com olhares desconfiados. E ao contornarmos a esquina de um prédio encontramos o café do bairro que, pouco depois da nossa entrada, se enche de gente. Anabela não vem só. Ao colo traz o seu filho de dois anos e meio, o mais novo dos nove que deu à luz. "Vivo neste bairro há 11 anos. Morava na antiga Musgueira Sul mas aqui é trinta vezes pior. Eles juntaram muitos bairros num só".
A droga, os assaltos e as zaragatas são problemas suficientes para alimentar o seu desalento. "Se pudesse já tinha saído daqui mas não tenho possibilidades". O T4 que divide com os sete filhos, com a mãe e o irmão evidencia a falta de cuidado. O dinheiro do seu rendimento mínimo e da reforma da mãe não chega para tudo: "Não pago a renda há cinco anos, desde que fiquei desempregada. Não tenho possibilidades. Mas graças a Deus até hoje nunca faltou comida". O desabafo é interrompido pela urgência de Dina Silva, de 39 anos, inquilina de um T2 no rés-do-chão. "O bairro tem ratos, baratas, lixo. Há toxicodependentes. É barulho toda a noite. Não me sinto segura".
A renda mensal de 77,50 euros há mais de um ano que não é paga. "Há dias recebi uma carta da Gebalis porque deixei de pagar", conta à medida que abre um dos envelopes. "Temos 20o euros para viver. Vou ao Banco Alimentar".
Pedro Miguel, de 37 anos, não conhece os recantos do bairro da Alta de Lisboa Centro mas sabe de cor a realidade dos que se debatem com a resignação dos dias que, tal como hoje, passa a jogar à bisca numa das mesas do café. "Trabalhei sete anos como padeiro. Quando acabou o contrato mandaram--me embora e eu vim para o bairro da Boavista" – o segundo na lista de maiores devedores, com 1,79 milhões de euros em rendas em atraso. "Há seis anos que não arranjo trabalho. Vou fazendo biscates. Tenho a reforma da minha mãe e não chega a 400 euros. Já tenho 678 euros de renda em atraso. Aqui há pobreza. As pessoas têm vergonha disso", diz.
O branco sujo dos prédios contrasta com as vestes negras das mulheres de etnia cigana. A roupa pendurada nas varandas esvoaça com o vento forte. Chegamos à padaria de Nelinho, ex-jogador do Benfica. "Vivo aqui há 62 anos. A ‘lusiteira’, como era conhecido o aglomerado de casas de lusalite que existia antes do realojamento, foi destruída e deram-nos uma casa. Nos tempos em que jogava futebol morei em muitos locais mas não troquei, nem troco, a Boavista. Um dos meus filhos foi assassinado e não foi aqui. Nesse dia, o bairro entrou em luto", numa solidariedade sem preço.
HAVERÁ COMIDA NA MESA?
Com a sabedoria dos seus 80 anos, Maria de Lurdes analisa à porta da sua casa o pulsar do bairro da Ameixoeira, aquele que soma 1,62 milhões de euros de dívida à Gebalis. "Desde que fiquei viúva que moro sozinha mas não tenho medo. Deus está sempre comigo", diz. Ao longe ouve-se kizomba, género musical que Maria de Lurdes não conhece mas também não estranha. Aqui há lugar para várias etnias mas também para a degradação e infortúnio, algo que Joel Ferraz, 57 anos, presencia há já nove anos, desde que veio viver para o bairro com a família. "No início o bairro era sossegado. Hoje há droga e confusões".
A rotina inerente à profissão de lubrificador de automóveis foi substituída há dois anos pelas idas ao centro de emprego. Os 419 euros do subsídio de desemprego chegam para pouco. "Não tenho feitio para fazer malandrices mas quando cheguei a casa e não tinha o que dar de comer à minha neta deixei de pagar a renda. Devo mais de três mil euros".
A angústia que lhe vai na voz mistura-se com uma revolta crescente. "Há pessoas com dificuldades. Mas também há vigarices. Há quem faça ligações directas da electricidade. Os ciganos assaltam as casas e ninguém os põe na rua. Até a mercearia que aqui existe não tem quase nada e o que tem está estragado".
Situado na freguesia de Marvila, lado-a-lado com a escola básica, o bairro dos Alfinetes (com uma dívida de 1,13 milhões de euros) está repleto de histórias tão similares que parecem impressas em papel químico. Maria tem 34 anos e cinco filhos a seu cargo. Está desempregada.
"O rendimento mínimo com o abono dos meus filhos chega a 700 euros. Mas estão todos a estudar e há sempre outras despesas. Vale a minha mãe. Há meses em que o dinheiro só chega ao dia 9. Quanto à renda, deixei de a pagar há um ano. Fui agora fazer um contrato com a Gebalis que diz que se eu falhar a renda vou para a rua. Vou tentar pagar, mas de uma coisa tenho a certeza: os meus filhos não vão ficar sem comer", diz.
A precariedade de um tecto ou a despensa vazia não são cenários invulgares para estas famílias. Ana Cunha, de 28 anos, tem impresso na alma as provações. "Fui criada com uma tia e, quando começaram a tratar das casas, tentei arranjar uma para mim. Nunca consegui. Decidi rebentar com uma porta de uma casa e fui para lá com a minha família. Tiraram-nos de lá. Tive de voltar outra vez para a casa da minha tia, um T4, onde vivem nove pessoas. Às vezes falta comida", confessa. A vida só lhe deixou espaço para um sonho, o maior de todos: "Uma casa para viver".
UMA CALMA APARENTE
Firmina Lopes, de 53 anos, não guarda para si grandes sonhos. A mulher de origem cabo-verdiana lava a sua carrinha Kangoo, já ferrugenta, no pátio do bairro das Olaias. Vendedora de peixe há mais de 30 anos, hoje só trabalha duas vezes por semana. "Não vale a pena ir mais vezes porque não vendo nada", situação que complica o já apertado rendimento familiar. "Comigo moram dois dos meus cinco filhos e a minha mãe. Os 84 euros de renda são um esforço enorme mas tenho a renda em dia".
Firmina sabe que nem todos honram os compromissos como ela. O seu discurso é lento, repleto de preocupações, ou não vivesse ela de frente para o bairro Portugal Novo, cujas paredes azuis encobrem vidas precárias. "Este é um bairro desprezado. A minha cozinha ardeu e fui eu que a pintei. Quando chove a água entra pela varanda. E ficámos todos juntos, o que provoca guerra, tiros, gritos". Nuno prefere não mostrar a cara mas desvenda a história do bairro através da rebeldia do seu olhar de 20 anos. "Gosto de aqui viver. Tenho amigos. Ainda gostamos mais das confusões, dá adrenalina. O bairro é perigoso, culpa dos ciganos que querem mandar aqui".
No outro extremo da cidade, o bairro da Horta Nova (Carnide) ganha outro fôlego. As ruas da sua vasta área enchem-se de pessoas, num rebuliço. À porta de um dos cafés está Manel, desempregado com 47 anos. A desconfiança da aproximação dá lugar ao sorriso conhecido por todos os que o cumprimentam. Manel apenas sabe escrever o seu nome mas isso não o impede de descodificar as gentes do seu bairro. "Quase tudo o que mora aqui era do bairro antigo, de barracas. Hoje é calmo. Há sempre violência mas não há tiros". Maria, de 62 anos, tem outra visão. "Há malandragem. O que mais me chateia são os ciganos. Não se pode dizer nada – são vingativos. Mas já esteve pior. Vamos ver quando eles começarem a sair [da prisão]".
A fé em dias despreocupados é ténue. As histórias que cosem estes bairros estão gastas; são o reflexo de uma miséria tão presente que incomoda.
PEDIDOS DE CASA TRIPLICARAM EM 2010
O número de pedidos de casas municipais em Lisboa triplicou este ano. De acordo com Helena Roseta, vereadora responsável pelo pelouro da Habitação, entre Dezembro de 2009 e 31 de Setembro a autarquia recebeu 4729 pedidos, um número bastante superior ao que havia sido registado no ano anterior (1322). Para já, a Câmara Municipal de Lisboa apenas conseguiu entregar sete casas, prevendo, no entanto, a entrega de mais 20 para o final do mês de Outubro e na primeira quinzena de Novembro.
Uma das questões que tem merecido grande atenção por parte da autarquia diz respeito à ocupação de casas de forma ilegal, um cenário que neste momento atingirá mais de 170 casas na cidade. Porque este "é um problema real, que se combate preventivamente e agindo com rapidez", a autarquia irá, já a partir de Janeiro, passar a pente fino todas as casas de inquilinos municipais para aferir a existência de situações irregulares.
NOTAS
19 MILHÕES
Em Dezembro de 2009, a dívida à empresa pública Gebalis ascendia a 19 milhões de euros.
DEVEDOR
O bairro da Alta de Lisboa Centro é o principal devedor, com 2,67 milhões de euros em falta.
PROBLEMAS
Casos de toxicodependência, insegurança, desemprego e isolamento são os mais comuns.
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