Esta é a história de uma pianista que chegou a Portugal numa caravana de madeira e por cá ficou para se dedicar a um coral sinfónico.
Cruza-se o concelho de Torres Novas, no norte Ribatejo e chega-se a uma apagada e envelhecida aldeia, com o estranho nome de Valhelhas. Aí, anualmente ressurgido e quase secretamente burilado, no tranquilo recato de uma antiga granja agrícola, o Coral Sinfónico de Portugal sobrepõe-se a tudo o que um forasteiro menos avisado esperaria encontrar, naquele escondido rincão ribatejano. A estória deste surpreendente e quase insólito fenómeno cultural prende-se com os misteriosos caminhos do acaso. Licenciada em Música, pela Universidade de Gales e como pianista na Royal Academy Music e no Royal College of Music de Londres, Saraswati ruma um dia a Portugal, acompanhada pelo marido e os cinco filhos.
Deslocavam-se então numa antiga caravana em madeira, que a família ainda conserva, talvez como relíquia dessa distante aventura que os trouxe a este extremo da Península. Corria o ano de 1987. Uma avaria na viatura e a fortuita descoberta de uma pequena quinta para venda, em Valhelhas, abriram caminho a uma obra invulgar, de dedicação, de sonhos, de esforço e, acima de tudo, de uma saudável dose de utopia. Para trás ficavam, definitivamente, os projectos de uma confortável vida e de uma carreira. Do passado são agora os concertos que dirigia, nos prestigiados auditórios de Londres e Viena. Em 1990, a maestrina, oriunda do País de Gales, fez nascer na sua quinta Vishuddha, em Valhelhas, um surpreendente e singular acontecimento artístico, resultante da preparação e apresentação do invulgar Coral Sinfónico de Portugal. Ali se juntam elementos de todas as idades, com maior ou menor experiência, porém unidos pela vontade de interpretar grandes obras corais do património mundial.
Coro e orquestra sinfónica, num total de cento e cinquenta elementos, têm vindo assim, desde essa data, a deslumbrar, em cada ano, os numerosos amantes da música erudita, que acorrem ao espaçoso Teatro Virgínia, em Torres Novas, nas noites de concerto em Abril. Solistas nacionais e estrangeiros de prestígio são convidados a interpretar obras sinfónicas dos maiores nomes da música erudita internacional.
Naquele oásis rural, envolto em melodiosa beleza, têm vindo a ser promovidos, desde 1995, cursos e estágios de música e das artes anexas, enquanto Saraswati reparte o seu tempo com o ensino na Academia Nova de Música, em Torres Novas. Por aquele recanto de arvoredo passam muitos nacionais e estrangeiros, que se encantam com a imponente Serra d’Aire. Para quem tem o privilégio de privar com a directora artística deste acontecimento anual, não surpreende a cruzada a que se entregou, neste escondido recanto do concelho de Torres Novas. A grande força que a impele e a total dedicação à arte estão na origem desse sucesso. Saiba-se que Saraswati é nome relacionado com as filosofias orientais do espírito e que o termo Vishuddha, invoca os dons do canto e da voz, nas simbologias hindus.
Toda a aura que envolve a quinta, as instalações e a piscina, sugere, desde então, um local de vivência e criação artística. Ali se encontram, naqueles dias de criar o anual concerto, músicos e consagrados cantores líricos, a par com os jovens alunos, por ventura ávidos de partilhar o sonho e o percurso de uma mulher singular. Limitada ao espaçoso palco do 'Virgínia', Saraswati anseia poder levar o 'seu' coral sinfónico e orquestra a outros espaços do país. As reduzidas dimensões da maioria dos palcos e a escassez de apoios têm adiado a concretização desse sonho. Nada, neste modesto, tímido e descuidado país, se comparará ao apogeu da aventura de uma mulher que, da Grã-Bretanha, um dia rumou a Portugal, para transformar uma degradada e esquecida aldeia torrejana, num espaço mágico, onde a música se venera e os sonhos aconteceram.
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