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Esta é a extraordinária história do guitarrista dos James. O inglês que, por amor a uma portuguesa, ajudou ao ‘assassínio’ de um notável grupo de ‘rock’ e disse adeus às terras de Sua Majestade.
Com um ano de idade, Saul Davies já andava de cidade em cidade com os pais, professores de crianças deficientes. Como as escolas em que trabalhavam estavam localizadas em lugares isolados, “escondidas do mundo e das pessoas, habitava em estranhos edifícios com loucos”, o que acabou resultando num acumular de experiências inusitadas. No início dos anos 70, viviam numa comunidade do Norte da Escócia onde o ambiente social era, “no mínimo, anormal”.
Aos cinco anos já ia com os progenitores aos festivais, assistindo aos concertos dos Doors, Jimi Hendrix, The Who ou Jethro Tull. Depois dos espectáculos, a vida voltava à rotina numa comunidade constituída por “13 ou 14 famílias, mulheres de bigode, deficientes, comidas que outras pessoas dariam aos cães, muitas crianças, música e animais. Ainda no outro dia, o meu pai me lembrava que o meu primeiro trabalho foi tirar o leite às vacas”. Cresceu neste ambiente até aos sete anos, altura em que vai para a escola “com umas coloridas roupas de ‘hippie’, a cheirar a bosta e com o cabelo, que nunca tinha sido cortado, a cair até ao rabo”.
No início da vida escolar, um professor propôs à sua turma a troca da Mate-mática por uma hora de aula de violino, ideia que o pequeno e franzino Saul achou “genial porque detestava números”. Aparentemente, todos concordaram que o jovem tinha talento. Anos mais tarde, quando quis desistir, “por causa do futebol”, os pais obrigaram-no a continuar. “Eu queria ser um grande jogador e não um violinista com ar de homossexual”, ironiza Saul num piano bar da Foz do Porto, ao cair de um dia cinzento a lembrar Liverpool, cidade onde nasceu. Não devia ser fácil para os Davies viverem na condição de única família inglesa isolada nas terras longínquas da Escócia. “Éramos uns estranhos, frequentemente violentados por sermos diferentes”. Um dos irmãos, adoptivo, oriundo das Ilhas Maurícias, “não era apenas inglês, mas inglês e preto”, o outro irmão era inglês e deficiente. “Tudo isso acentuava a nossa diferença.”
Por vezes, a relação com as outras crianças chegava a ser violenta. “Quando descíamos do autocarro, arrancavam as lâmpadas do tecto para as atirarem, através das janelas, contra as nossas costas.” Nada que os fizesse perder a postura. “Nós tínhamos o carácter típico de alguém que vive a três ou quatro quilómetros de uma estrada, em regime comunitário. Comíamos o que produzíamos, não tínhamos TV, o rádio era a nossa única e fantástica ligação ao mundo.” Por isso, Saul procurava integrar-se na vida social da escola, sendo “o melhor músico, o capitão da equipa de futebol, o que ganhava as corridas de atletismo e o que ‘comia’ as irmãs deles”.
PLATÃO E FUTEBOL
Filho de mãe filósofa e o pai psicólogo - que tinham decidido ajudar crianças com particulares necessidades -, a educação era radical. “A minha mãe leu-me ‘A República’, de Platão, quando tinha 10 anos.” O meu pai levava-o todas as tardes de quarta-feira, numa motocicleta, até a um local a 17 quilómetros, para ver os jogos de futebol na televisão, conta Saul. Estava, à conta desta conversa, a perder um jogo do Deportivo de la Corunã, clube de que é fã.
Depois do divórcio dos pais mudou para a costa Este de Inglaterra e começa a tocar violino numa orquestra onde conheceu “uma figura, Adrian Oxaal” (o mesmo que, 19 anos depois, foi guitarrista dos James). “Era muito parecido comigo.” Meses depois era baterista numa banda que criaram juntos, cujo nome caiu já no esquecimento. “Escrevíamos canções, compúnhamos, não íamos à escola, tomávamos ácidos, ficávamos dois ou três dias a improvisar trancados num apartamento iluminado por uma luz de candeeiro da rua. A música era uma porcaria mas nós adorávamos fazer aquilo. Vivíamos as mesmas fantasias dos demónios do rock n’roll.” Tinha 16 anos, quando o pai “desapareceu com uma mulher”, deixando-lhe um recado para a vida: “és suficientemente adulto, tens aqui dinheiro para pagares as contas, confio em ti, estuda, porta-te bem, adeus”.
‘Atinou’ e foi para Manchester com o objectivo bem definido de se tornar advogado. “A advocacia não era, decididamente, uma disciplina que me atraísse.” Ficou, no entanto, sete anos na cidade, até partir para Amesterdão onde, depois de ter vivido num moinho com uma comunidade religiosa, acabou por sobreviver a tocar violino na rua e a morar com um grupo de prostitutas espanholas. De regresso a Manchester, formou-se em Arqueologia, “algo de fascinante enquanto emoção”, voltando a ser “relativamente normal. De repente, as minhas duas grandes paixões, música e futebol, passaram a desempenhar um papel secundário na minha vida”.
HOMENS NUM AUTOCARRO
Certa noite, num ‘pub’, a namorada da altura incentivou-o a subir ao palco com o violino para acompanhar um grupo conhecido localmente. “Na plateia estava Larry Gott, guitarrista dos James, que o convidou a ir a uma audição com uma banda cujo nome eu nunca tinha ouvido falar”. No dia seguinte, a sua vida mudou completamente. A verdade é que, dez dias depois, Saul Davies estava com os James, a fazer a primeira parte de uma das suas bandas preferidas, os New Order. Nessa primeira ‘tournée’ tocou bateria, guitarra, baixo, violino, enquadrando-se imediatamente no espírito do seu novo grupo. “Eles viviam dentro de uma caixa fechada e ficaram entusiasmados com a ideia de alguém de fora conseguir, tão facilmente, entrar no mundo deles. Tudo podia ter dado errado”.
A partir dos anos 90, as coisas sucederam em catadupa. “Concertos, festivais, o ‘Woodstock’, com 250 mil pessoas a assistirem ao nosso espectáculo, o respeito de grupos como os Stone Roses ou os Happy Mondays, os memoráveis concertos com os Nirvana ou com Neil Young, os fãs, os ‘hits’. Numa altura, em que ainda não tinham trocado as bicicletas pelas ‘limousines’ tinham chegado aos ‘tops’ mundiais.
Durante doze anos, Saul Davies foi um dos músicos em destaque nos James. Até ao dia em que, num espectáculo da Wembley Arena, com Brian Eno a acompanhá-los, começou a perceber que as coisas estavam a chegar a um ponto limite. “Recebemos uma carta de uma rapariga japonesa com uma foto com os nossos discos e uma faca ensanguentada por cima, dizendo que, se não lhe respondêssemos, que se suici- daria e que nós éramos os responsáveis. “Quando se atinge um plano em que as pessoas estão interessadas em ti só porque tocas uma determinada banda, as perspectivas de vida tendem a ser falseadas. No fundo, somos apenas músicos, escrevemos canções, gravamos, tocamos, temos um trabalho muito simples”. “Mas as pessoas sempre pensam que há algo de mais misterioso por trás do que aquilo que se apresenta.” Eram então “sete homens num autocarro, em digressão quase permanente e brigas frequentes. Nós tínhamos que falhar.”
Ana Brandão, natural do Porto, estudava em Viseu, cidade onde, numa noite do ano de 1999, os James foram actuar. Tinha sido convidada pelo promotor do concerto que “estava a tentar seduzi-la e decidiu impressioná-la, levando-a aos camarins”. Por uma estranha coincidência, obra do acaso “e muita sorte para mim, conhecemo-nos, falámos, ficámos amigos. Depois daquela sensação que tinha encontrado uma irmã, trocámos números de telefone, dissemos adeus e fui tocar na China. Estranhamente, poucas semanas mais tarde, voltámos a Portugal para mais uma série de concertos”.
Saul Davies que, enquanto músico dos James, morou em Vancouver, Toronto, Barcelona e Bruxelas, percebeu que se estava a “apaixonar loucamente” por uma portuguesa. Num concerto muito tardio da Queima das Fitas do Porto, “que teve início já passava das três da manhã, com toda a gente do grupo muito cansada e bêbada, o outro guitarrista percebeu-me mal e deu-me um murro na cara. Ana estava lá, ficou assustada, tentou-me confortar e eu no chão, cheio de vergonha”.
Decidiram casar; conheciam-se há oito meses e queriam ter filhos juntos. “Fizemos amor nos estúdios em que estávamos a gravar aquele que seria o último álbum dos James”. Foi ali mesmo que conceberam Vincent. O casamento é antecipado e realiza-se em Vila Nova de Cerveira, com todos os elementos do grupo. Alguns meses mais tarde Saul, Ana e Vincent partiram naquela que seria a última digressão com os James. “Na ilha da Madeira percebemos que estávamos a chegar ao fim. Havia muito ‘stress’, brigas entre os músicos, discussões muito azedas. No jantar que antecedeu o concerto percebi que não queria continuar. E disse a todos o que pensava. Tim Booth, o vocalista, concordou comigo.” A despedida ficaria marcada para o Manchester Arena, espectáculo que produziu um CD duplo e o DVD “Getting Away With It...Live”. Saul Davies e família voltaram para Portugal.
O TEMPERO DOS EZ SPECIAL
Saul Davies iniciou um novo projecto, intitulado Ainslie, com Mark Hunter, teclista dos James, tendo terminado um disco em que participam os bateristas dos Blind Zero e dos EZ Special. No Porto conheceu os EZ Special com quem criou uma relação musical “intensa”. Saul decidiu trabalhar com o grupo português porque percebeu que “eles tinham talento”. Sobre o grupo de Santa Maria da Feira diz: “Os EZ Special representam a primeira grande possibilidade de um grupo português ter sucesso em Inglaterra.”
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