O “Presidente dos afetos” tem uma agenda preenchida e não pára. Veja a entrevista exclusiva da CMTV.
Marcelo igual a si próprio. Uma correria infernal. Durante três dias acompanhámos, de manhã à noite, a agenda presidencial. Três dias, quatro cidades, nove eventos e, entre compromissos, a entrevista possível ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
Ao primeiro agendamento, os cinco minutos disponíveis entre o ponto final numa entrega de um prémio e a partida para mais ilustres a galardoar, seguindo-se um jantar, sabem a pouco... O Presidente concorda: "Conversamos depois do jantar".
Hotel Sheraton, no Porto, a equipa do Correio da Manhã aguarda a chegada do Chefe de Estado... Mas, Marcelo que é Marcelo não pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem. Incapaz de travar a língua antes, durante e depois de todos os eventos oficiais, madrugada dentro, a chamada do assessor de imprensa: "A entrevista ao Presidente fica para amanhã!". O mesmo local, nova hora, pelo meio da tarde, mas já com a cerimónia seguinte a ditar um final anunciado.
Marcelo, o Presidente do afeto - Parte I
Marcelo chega, cumprimenta, senta-se. O tique de comentador: "Isso está? Funciona o som? Funciona?". O acelerar do pontapé de saída, o tom é o do professor, "Está? Vamos lá então..."
Temos estado a segui-lo exaustivamente. A energia nunca acaba?
Não... É evidente que, às vezes, o programa é cansativo. Por exemplo, nas viagens ao estrangeiro, sofro com a mudança de fusos horários. Aqui, em Portugal, há dois tipos de situações: a primeira relativa ao que está programado, que às vezes é muito. A sequência de compromissos demora sempre mais do que o que está programado. Depois, ou se é muito estrito – entra-se, dá-se os prémios, fala-se e sai-se – ou, e é esse o meu esquema, ao entrar se querem falar comigo, falo. Se, no final, querem falar, falo. É muito difícil falar a duas ou três pessoas e não falar às outras vinte ou trinta. Isso complica a programação e transforma-a num quebra-cabeças. Depois, os improvisos, que permitem descobrir coisas enriquecedoras mas criam à equipa que vai a acompanhar, ou que preparou o programa, vários baques de coração.
Eu já era exatamente igual àquilo que sou. Já tinha essa experiência, como professor e na intervenção na comunicação social. E não mudei o registo. Tinha de fazer essa escolha no começo do mandato. Se mudasse ficava artificial, nem eu me sentia bem, sentia-me no fato de outros, que são diferentes e foram diferentes, em tempos diferentes. Decidi continuar a vestir o fato que sempre vesti. A ser como era.
E isso é bom?
Acho que é muito bom porque uma coisa é haver cerimónias preparadas, com discursos escritos, outra é o improviso. Chego e há realidades novas e aquele discurso já não dá e mudo. No dia a dia, quando vou fazer compras, quando vou à praia para nadar, quando tenho momentos para passear, que são poucos, quando as pessoas me falam dos seus problemas, isso continua a ser como era antes de ser Presidente. As pessoas dizem o que sentem e o que pensam com a maior das naturalidades. Isto filtrado, por equipas ou cerimónias, resultava num afastamento das pessoas.
Os portugueses estão mais otimistas?
Num primeiro momento estavam na expectativa, a ver o que é que dá. Uns tinham votado em mim, outros não, outros nem sequer tinham votado. Os que não tinham votado preferiam outra pessoa, outra mensagem, outra ideia e ficaram num compasso de espera para ver o que é que dava, e para ver, também, o que é que se ia passar no País. Foi isso que encontrei em março, abril, maio. Na transição da primavera para o verão, comecei a sentir que as pessoas estavam um bocadinho mais serenas, aquilo a que eu chamo ‘descrispadas’. Mesmo quando os políticos continuavam num combate muito forte, eu não encontrava o mesmo tom na rua. Ou porque tinham recebido um bocadinho mais de dinheiro ou porque, de qualquer forma, estavam a sentir-se um pouco mais à vontade. Eu via-as a programar coisas que, no ano anterior, não tinham programado. Férias, por exemplo. Via mais movimento na rua, nos cafés. Sentia-se isso. E sentiu-se no verão, claramente. Os números do 3º trimestre vieram confirmar uma intuição que tinha do dia a dia. Tenho sentido este clima na sociedade portuguesa. Vale o que vale. A realidade económica é uma realidade que precisa de consistência para ser duradoura.
Marcelo, o Presidente do afeto - Parte II
Em nove meses de Presidência, que marca já deixou?
Acho que é ser o que sempre fui. Todos os Presidentes que me antecederam foram o que eram, em momentos diferentes. O Sr. General Eanes foi o que foi, um grande militar a fazer a transição para a democracia. O Dr. Mário Soares era o que era, uma pessoa extrovertida, muito próxima do cidadão comum. Gostava de viver, vivia e vive com prazer. Também viveu com prazer e abertura a Presidência. O Dr. Jorge Sampaio, sendo uma pessoa preocupada, mais contida, era muito sensível, até emotivo. Tinha um tipo de afeto mais intimista. O Professor Cavaco Silva tinha ficado na memória como um primeiro-ministro com grande influência na vida do País, um homem de gabinete, racional e decidido. A dúvida era saber como é que se adaptava à realidade presidencial. Num tempo muito difícil, teve uma primeira fase pacífica e de grande empatia. Depois teve uma fase muito difícil, que foi a da crise e em que qualquer presidente ou primeiro-ministro ‘passa as passas do Algarve’.
Eu era uma experiência diferente porque era uma pessoa que, sendo um tímido à partida, fez um esforço para se extroverter muito novo e ficou o extrovertido que as pessoas conhecem. Não havia nenhum português que não me tivesse ouvido na rádio ou lido no jornal, ou visto na televisão. E, portanto, a dúvida era – será que ele agora vai ficar importante? Sobe-lhe à cabeça? Fecha-se lá no gabinete? Ou é exatamente igual àquilo que era quando o víamos no domingo à noite? As pessoas perceberam que é a mesma pessoa, só que com outras responsabilidades. Ali tratava-se de comentar os que tinham responsabilidades. Agora trata-se de ser comentado por ter responsabilidades.
Quando este Governo fez um ano, realçou a estabilidade alcançada. Acha que se não existisse uma Presidência como a sua se conseguiria essa estabilidade?
Fica-me mal mencionar o papel que o Presidente da República teve ou não teve nestes meses. Isso cabe aos portugueses julgar. Só posso dizer que fiz o que podia para ser igual a mim próprio e para criar um clima que penso que acabou por ser criado. Tive mais ou menos sucesso? Os portugueses julgam agora, julgarão daqui a seis meses, julgarão no fim do mandato.
É o ‘Presidente dos Afetos’ mas sempre que for preciso dar um ‘murro na mesa’ vai dá-lo?
Uma coisa é ser ‘Presidente dos Afetos’, outra é haver uma lei com a qual não concordo, e nessa situação veto. Se há uma decisão de que discordo, comunico a minha discordância. Muitas vezes é uma comunicação privada. O interesse do País, com todos os Presidentes, exigiu que a maior parte dos contactos com o Governo ou com o Parlamento fossem privados, sobretudo com o Governo. Uma coisa é a pessoa ser como é, como diz, no plano dos afetos, outra é haver momentos em que se concorda ou se discorda.
Daqui a 10 anos, caso seja reeleito, que marca acha que vai deixar?
Daqui a cinco... o mandato é de cinco, não é de dez anos. Tenho nove meses, sei lá que marca é que deixo ao fim de cinco anos. Uma das vantagens de ter feito análise política, é que analisei vários Presidentes da República. Sei que uma coisa são os juízos que se têm sobre eles, num determinado momento, outra coisa são os juízos que se têm no fim do mandato. Depois há os juízos que se têm com uma perspetiva histórica. Isso muda. Muitas vezes com uma perspetiva histórica, os que nós considerámos que não nos satisfizeram assim tanto, depois prestamos-lhes justiça. E há também os juízos diferentes da opinião pública. A democracia tem essa riqueza. Só é definitivo aquilo que é essencial.
Foi considerado pela redação do Correio da Manhã e da CMTV ‘A Figura do Ano’. Que reação isto lhe merece?
Fico muito lisonjeado mas se fosse eu a escolher, escolheria, por ser português, António Guterres. É uma grande posição internacional, aquela que ele atinge. Não encontraremos outro português a atingir, tão depressa, algo de semelhante, se é que alguma vez mais acontecerá. Mas fico lisonjeado. Provavelmente, a escolha quis dizer que no ano em que é eleito um Presidente da República, não tanto ele, mas a eleição dele é um facto marcante. É assim que vejo.
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Três dias todo-o-terreno - A agenda do Presidente no Norte do PaísIsto é mais difícil do que chegar ao céu!", desabafa Marcelo, engolido pela multidão, ao tentar subir as escadas do Auditório Vita, em Braga, depois de ter aberto o I Fórum Missionário. Este é o ‘pão nosso de cada dia’ de Marcelo Rebelo de Sousa. Um Presidente "ensanduichado" entre beijos e abraços "rápido, senão não chegamos ao cimo", pede Marcelo, travado para mais uma selfie presidencial. Meia hora para subir os degraus. Mais vinte minutos até chegar à porta de saída. Mais um dedo de conversa, "vamos tirar uma fotografia com este intelectual!". Sai mais um flash, venha mais uma selfie: "Caramba, não ficou? Ó mana venha cá para ficar na foto!".
A fazer fé em si. Assim vai Marcelo. A "ser como já era", mas agora em "esquema" presidencial. De comenta-dor a comentado, a imagem mantém-se. O professor líder de audiências é agora o Presidente recordista de sondagens. "A pior coisa que pode haver é a pessoa determinar o seu comportamento pelas sondagens", reage Marcelo, depois do estudo de opinião lhe atribuir um índice de popularidade de 97%. Percentagem nunca antes alcançada por um Chefe de Estado.
O facto leva um antigo Presidente a render-se às evidências. Eanes que fez promessa, "nunca me pronunciar sobre os cidadãos que me sucederam no lugar", acaba por confidenciar que Marcelo "é uma evidência", um Presidente "que tem tido uma ação que tem contribuído largamente para tornar menos crispada a sociedade".
E é no dia a dia, na rua, de norte a sul do País e ilhas, que o ‘Presidente dos Afetos’ sente, de toque em toque, o pulso ao povo. É o ‘beijómetro presidencial’ que mede a alma dos portugueses. De manhã à noite há palavra e atenção para todos. Assim foi durante os três dias em que acompanhámos, a agenda do Presidente da República.
"Todo-o-terreno"
Sexta-feira, 10h30 da manhã, Marcelo recebe os 200 militares que regressam de uma missão, de quatro meses, ao serviço da NATO. A meio do Tejo, o Chefe de Estado embarca na fragata ‘Álvares Cabral’. Permanece a bordo, duas horas, até o navio atracar na Base Naval do Alfeite. Depois de navegar, Marcelo passa a voar. Às três da tarde, o Presidente parte, de avião, para o Porto. Segue de carro para Braga.
Às 16h45, Marcelo, um autêntico "todo-o-terreno", já está a visitar o Centro Clínico Académico, do hospital de Braga. É recebido com uma salva de palmas. Pelo corredor do hospital, Marcelo vai andando e acenando, as pessoas atropelam-se para o alcançar. A ovação ecoa no edifício. As palmas vêm de cima, de baixo, dos lados. Funcionários e doentes de caras coladas aos vidros para vê-lo passar porque "ao vivo e a cores é outra coisa".
O evento é institucional, mas o ‘Presidente dos afetos’ nunca nega o dedo de conversa, os beijos, os abraços, a fotografia. Durante a visita, não segue o planeado. E, em cada sala, as conversas são como as cerejas. "Há 11 anos, tive um cancro da mama, fazia quimioterapia, mas era muito agressivo. Agora não. Já faço caminhadas, não tenho enjoos, nem cansaço, nem falta de ar. Aqui sou muito bem tratada", testemunha Fernanda, que é se guida no centro clínico visitado pelo Presidente. "Hoje, vive-se com isso", diz-lhe Marcelo. "Vai-se vivendo Sr. Presidente, um dia de cada vez". Outro gabinete, nova realidade. Um jovem médico explica o seu trabalho. O Chefe de Estado ouve atentamente e interrompe: "E está feliz?
Isso é que é fundamental." O tempo de Marcelo atropela o do programa presidencial. Atrasado para o compromisso seguinte, à saída, ainda recebe um presente. Uma das medidas emblemáticas deste executivo, explica, Ricardo Rio, presidente da Câmara de Braga, foi trazer o autocarro até à porta do hospital. "Não me diga que tem aí um autocarro para mim?!", lança Marcelo. "Não! Tenho uma coisa melhor, um passe social".
O dia já vai longo, mas longe de terminar. Marcelo segue para a visita ao laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia. Já à saída as palavras de um popular: "Presidente, vá com Deus!". Ora, nem mais, a deixa perfeita para o evento que se segue: o I Fórum Missionário. "O que nos une a todos?". Marcelo é convidado do arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga, para abrir um ciclo de conferências. Nove e meia da noite, auditório cheio em Braga, e o Presidente finalmente sentado. Para os que consideram que há um ‘Marcelo no País das Maravilhas’, o Chefe de Estado explica que é um "otimista realista". Porque "sou cristão e sou professor", explica.
Quase onze da noite. Termina o evento. Marcelo é "esmagado". "Rápido, rápido... senão não chegamos ao cimo das escadas", sugere mas anda a passo de caracol.
Segundo dia
Estamos agora, em Guimarães, no Hospital da Senhora da Oliveira. São 11h00 da manhã. Os protagonistas da noite anterior repetem-se. Dom Jorge Ortiga vem para abençoar, antes de Marcelo descerrar a placa de inauguração da remodelação da Unidade de Cuidados Intensivos Cardíacos. Segue-se a visita à unidade e os cumprimentos ao que Marcelo apelida "a tropa de choque". Uma fila de médicos, enfermeiros e auxiliares alinhados. Todos corridos a abraços e beijinhos. Na sala a abarrotar pelas costuras, a homenagem ao Dr. Fernando Alberto da Silva, que passa a dar o nome ao auditório do hospital. A filha do homenageado grita pelo progenitor: "Pai, venha! Agora é a sua família afetiva. Venha, para tirar o retrato com o Presidente dos Afetos". Há muito barulho, muita agitação na sala. Com fotógrafos e operadores de imagem em atropelo, para captar o momento, o Chefe de Estado organiza "primeiro as televisões, depois os fotógrafos. Temos de colocar ordem nisto!". Casa arrumada em Guimarães, parte para o Porto.
No Centro de Congressos da Ordem dos Médicos, no Porto, Eduardo Barroso espera pelo "mais antigo e melhor amigo", que lhe vai entregar o Prémio de Mérito de Gestor Hospitalar. O médico confidencia: "Ele não me disse nada. Não sei o que vai fazer, o que vai dizer..."
O momento é de emoção. Depois do abraço apertado, Marcelo entrega o prémio ao amigo Barroso. O cirurgião dirige-se a Marcelo, "não faço parte dos 3% dos portugueses que estão descontentes com a sua presidência". E Eduardo Barroso ainda tem muito mais para dizer: "O País parece outro. Tenho amigos altamente colocados, não neste Governo, mas no Partido Socialista, que me telefonaram e disseram que eu tinha razão. Disseram-me que Marcelo é, tal e qual, como eu lhes tinha dito", remata Barroso.
A noite ainda é uma criança e segue no Porto, com os Jovens Empreendedores. A cerimónia acontece no Mosteiro de São Bento da Vitória, após o jantar, e estende-se madrugada dentro.
E fala, fala, fala
Entre entregas de prémios, discursos, beijos, abraços, autógrafos e selfies... Há, ainda, tempo, à margem de cada evento, para responder à comunicação social. Marcelo fala, se for preciso, de manhã, à tarde e à noitinha. Fala da morte de Fidel. Volta a dizer o que pensa da CGD. Reage às sondagens. Confirma que a relação com António Costa nem sempre foi "um mar de rosas".
Ao terceiro dia de agenda, Marcelo abranda o ritmo. A manhã é só sua. O almoço é privado. Após a refeição e antes do compromisso oficial do dia, há a entrevista concedida ao CM (páginas anteriores). A conversa acontece no Sheraton, no Porto. Marcelo já parte do hotel atrasado.
Está calmo, o mesmo não se pode dizer dos "homens do Presidente". E percebe-se porquê. A cerimónia estava marcada para as 16h10. A entrevista ao CM termina às 15h50 e Marcelo ainda sobe ao quarto do hotel. Quando desce, no elevador transparente, cumprimenta todos, e mais algum. Troca as voltas ao staff. Dos assessores à segurança, quem acompanha Marcelo tem de dar corda aos sapatos. Já além da hora, Marcelo chega ao Palácio da Bolsa, no Porto, para o Portugal Solidário 2016 - Entrega do Prémio Manuel António da Mota. Na sala, Eanes está sentado ao lado de Marcelo. Trocam impressões. Na hora de subir ao palco, faz sinal com a mão, dispensa o discurso escrito. "Decidi continuar a vestir o fato que sempre vesti", tinha-nos dito Marcelo. Até agora, aos olhos da maioria dos portugueses, continua a vesti-lo bem.
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