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Seinfeld e o mistério das cartas de um louco

Imagine que é dono de um casino e alguém lhe escreve a perguntar se pode jogar vestido de camarão com molho tártaro na cabeça?

22 de janeiro de 2006 às 00:00

Ou que faz parte da Universidade do Texas e recebe a carta de um gigante, com problemas de álcool, a confirmar a palestra de 21 de Fevereiro, algo de que nunca ouviu falar? Como reagiria? Nos últimos dez anos, centenas de empresas e personalidades, desde o gigante Walt Disney ao antigo vice-presidente Al Gore, receberam nas suas caixas de correio envelopes endereçados por um tal Ted L. Nancy. Mas agora imagine que Ted Nancy nem sequer existe...

A Gradiva editou há semanas ‘Cartas de um Louco’ (‘Letters from a Nut’ – 194 páginas), um livro tão misterioso como hilariante. É um convite irresistível, e sem complexos, para espreitar correspondência alheia envolta num mistério que permanece indecifrável. E que vale a pena investigar. Sendo um exercício de loucura, nada melhor que começar a pesquisa na casa de banho do hotel Ritz-Carlton, em Chicago, onde a Domingo encontrou o relatório de um detective. O que se transcreve a seguir, em exclusivo mundial, são excertos desse relatório, que acaba de forma abrupta.

«Facto A. A 12 de Julho de 1995, Ted Nancy escreve à gerência do hotel para saber se foi encontrada nas instalações uma espada militar prussiana que terá sido deixada na casa de banho dos homens. O senhor Nancy explica que, ao soltar as calças para alcançar guardanapos, retirou a espada – que está alojada numa bainha de veludo falso cravejada de jóias falsas. No final, o senhor Nancy elogia o peixe-espada do restaurante. “Magnífico.” Facto B. John Almanza, do departamento de segurança do hotel, comunica que nada foi encontrado, mas que está disponível para qualquer questão. Uma primeira análise dos factos permite concluir que John Almanza era, quando ocorreram os factos, responsável pela segurança do hotel. Por outro lado, é também seguro afirmar que a espada militar prussiana não apareceu. (Uma pista até agora pouco explorada coloca-a algures no Reino de Tonga, no Pacífico).

A dúvida, no entanto, subsiste em relação ao autor da carta. Ao que foi possível apurar, o senhor Nancy, de nome completo Ted L. Nancy, é responsável por centenas de cartas dirigidas a entidades e personalidades norte-americanas. De resto, o volume de correspondência é tal que já foram publicados três livros com as referidas missivas. Após várias diligências, foi possível apurar que a correspondência de Ted Nancy parte da seguinte morada: 560 North Moorpark Rd. #236, Thousand Oaks, CA 91360. Numa visita ao local, ficou claro que vários jornalistas tinham já feito o mesmo exercício. E chegado à mesma conclusão. O endereço indicado corresponde a uma caixa postal numa loja num centro comercial. A dona do estabelecimento, Rosemary Afara, afirmou nunca ter visto ninguém recolher a correspondência, que o dinheiro do aluguer fica na caixa e que só falou com a pessoa ao telefone. “É sempre a mesma voz e não me parece a de Jerry Seinfeld.”

A referência a Jerry Seinfeld, multimilionário e comediante, abriu um novo caminho na investigação. As teorias são mais do que muitas. Uma delas diz que o comediante e o escritor de cartas são uma e a mesma pessoa. Outros, incluindo o próprio Jerry, dizem que foi o destino a uni-los. Perante tantas dúvidas, tornava-se obrigatório falar com o comediante. De acordo com Jerry Seinfeld, foi em Agosto de 1995 que pela primeira vez teve contacto com as cartas de Ted Nancy. “Reparei num punhado de cartas que se encontravam em cima de uma mesa. Li uma, depois li outra, e depois li ainda outra. Desatei a rir em voz alta para as cartas, e com igual força para as respostas das empresas e entidades que se seguiam a cada carta. A seguir li algumas das cartas aos meus amigos e pouco tempo depois a sala inteira estava a rir e a passar um bom bocado.”

VAI GOSTAR SE... É fã incondicional do humor da série televisiva Jerry Seinfeld e se acha que as cartas, sejam elas quais forem, não devem necessariamente ser chatas.

GÉNIO NA TV

Jerry Seinfeld é um dos mais conhecidos comediantes americanos. As aventuras que, durante quase uma década, viveu semanalmente na NBC, ao lado de Elaine, George e Kramer, tornaram-no multimilionário. Sempre recusou produzir novos episódios da série com o seu nome e, actualmente, voltou ao circuito de ‘stand-up comedy’, actuando em clubes de comédia por toda a América. Sobre os livros de Nancy diz que encontrou as cartas em casa de um amigo e admite que, uma vez, talvez se tenha cruzado com o autor, num obscuro clube de comédia. Talvez, lembra Jerry, que, apesar de ter assinado o prefácio de três livros, garante que não assinou mais nada.

Ted L. Nancy escreve a uma loja a dizer que um manequim é parecido com o seu falecido vizinho, e que gostaria de o adquirir para aliviar o sofrimento da família, felicita Al Gore por ser o melhor vice-presidente americano, e deseja-lhe que ocupe o cargo para sempre, alerta hotéis e motéis para a sua chegada com colchão, máquina de bebidas ou espelho próprios – informando sempre de que não precisa de ajuda a carregar os objectos –, vende unhas de jogadores de basebol famosos e entra numa intensa discussão com o Reino de Tonga a propósito da sua espada militar prussiana desaparecida.

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