Apesar de desenvolver o raciocínio e a criatividade, já só 13 escolas secundárias ensinam a língua morta.
1 / 3
'Grosso modo’, as pessoas ouvem falar do ‘deficit’ do Orçamento de Estado (já nem sabem o que é um ‘superavit’) e do rendimento ‘per capita’ de cada país – mas, quase sempre, nada muda o ‘status quo’, ‘vide’ o que sucede em Portugal. As empresas pedem um ‘curriculum vitae’ a quem concorre a um emprego.
Às vezes, é só um ‘pro forma’, mas, numa prova de acesso, pode-se ficar classificado ‘ex aequo’. Uma questão de ‘lana caprina’, com um ‘lapsus linguae’, pode transformar-se num ‘quid pro quo’. Por falta de ‘quorum’, uma assembleia é adiada ‘sine die’. Quase sem nos apercebermos, estamos frequentemente a falar em latim – que, no nosso tempo, é apenas a língua oficial da Igreja Católica e, obviamente, do Estado do Vaticano.
Nos tribunais – alguns com a máxima ‘dura lex, sed lex’ inscrita numa parede –, os advogados pedem o ‘habeas corpus’ para os clientes que estão presos, pois quase nenhum assume o ‘mea culpa’. Os médicos só passam a certidão de óbito após confirmarem o ‘rigor mortis’. Os biólogos vão observar ‘in loco’ o ‘habitat’ do lince ibérico, um animal ‘sui generis’.
Muita gente escreve "RIP" (‘requiescat in pace’) para dar os sentimentos ou acrescenta um ‘Post-Scrimptum’ à carta, ‘idem’ um "N.B." (‘nota-bene’). Alguns automobilistas compram um Audi ("ouve"), enquanto outros optam por um Volvo ("eu guio"). O emblema do Benfica, como sabem adeptos e adversários, tem inscrito o lema ‘E pluribus unum’ ("De muitos, um"). O melhor é mesmo ir passar um fim de semana a um SPA (‘salus per aquam’).
Numa mesma universidade de prestígio (a sua ‘alma mater’), os alunos de Filosofia estudam Descartes e aprendem o ‘cogito, ergo sum’, os de Literatura o que é o ‘alter ego’ de um autor, os de História quando, ‘in illo tempore’, César disse ‘alea jacta est’ ou ‘veni, vidi, vici’, os de Direito a questionarem ‘quid iuris’, os de História de Arte a conhecer as pinturas de Cristo na posição ‘Ecce Homo’ ou naturezas mortas que são ‘vanitas’, os de Psiquiatria a entenderem o porquê do ‘in vino veritas’, os de Teatro como é o efeito cénico de ‘Deus ex-machina’, os de Música a apreciarem as diferentes versões do ‘Te Deum’, os de cinema a conhecerem o ‘Persona’, de Bergman, e a saberem que a expressão ‘carpe diem’ ("aproveita o dia") ficou famosa devido ao filme ‘O Clube dos Poetas Mortos’ (Peter Weier).
Um brilhante académico é doutorado ‘honoris causa’, um embaixador considerado ‘persona non grata’, um político argumenta com a ‘vox populi’, um sacerdote proclama ‘deo gratias’, um professor pode ter o hábito de exigir que os alunos escrevam nos exames ‘ipsis verbis’ o que vem no livro. A denominação científica da vulgar flor malmequer-dos-campos é ‘calendula arvensis’ e a do cão doméstico escreve-se ‘canis lupus familiaris’.
"Matemática das letras"
‘A priori’, nos tempos que correm, a questão que se coloca é que vantagens há em aprender esta língua morta? Isaltina F. Martins – coordenadora do atual programa desta disciplina para o Ensino Secundário e que foi presidente da Associação de Professores de Latim e Grego (APLG – com sede na Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra) de 1998 até ao passado mês de fevereiro – sustenta que, para lá de "se conhecerem as raízes do nosso idioma", estudar latim desenvolve "o raciocínio, o espírito crítico e até a criatividade".
Por causa da "fama de ser muito difícil" – "a Matemática das Letras" (‘sic’ – ‘sic erat scriptum’, literalmente "assim estava escrito", mas que tem o sentido de "tal e qual") – , a maioria escolhe outras cadeiras de opção, como Geografia ou Matemática Aplicada às Ciências Sociais, e já só 13 escolas secundárias ensinam o clássico idioma. No último ano letivo, "apenas 66 alunos fizeram o exame de Latim no 12º Ano" – Isaltina F. Martins ‘dixit’.
Apesar da fraca afluência de estudantes, desde que deixou de ser disciplina obrigatória, um ‘item’ importante para se perceber a curiosidade existente em relação à forma como comunicavam Virgílio, Cícero e Nero é o facto da recente ‘Nova Gramática do Latim’, de Frederico Lourenço, ter chegado ao 1º lugar no top de vendas da Livraria Bertrand.
E se, na linguagem corrente, se ouvem constantemente expressões como ‘lato sensu’, a condição ‘sine qua non’ para se conseguir manter uma conversa contemporânea numa língua morta é a permanente criação de neologismos no latim moderno. O que é feito pela Fundação Latinitas, sediada no Vaticano, que mantém atualizado o ‘Lexicon Recentis Latinitatis’ (um dicionário com mais de 15 mil palavras).
Desta forma, futebol é ‘follius pedunque ludus’, karaté é ‘oppugnátio inermis Iapónica’, engenheiro é ‘doctor machinárius’, enfermeira é ‘puerorum custos’, jazz é ‘iazensis música’, punk é ‘punkianae catervae ássecla’, snack-bar é ‘thermopólium potórium et gustatórium’, discoteca é ‘taberna discothecária’, gin é ‘pótio iunípera’, whisky é ‘víschium Scóticum’, desodorizante é ‘foetoris delumentum’, depressão é ‘ánimi imminútio’, IVA é ‘fiscale prétii additamentum’, táxi é ‘autocinetum meritórium’, hora de ponta é ‘tempus máximae frequéntiae’ e Internet é ‘interretia’ – ‘etc’ (‘et cetera’ – "e outras coisas mais"). E o tabaco, que chegou à Europa cerca de mil anos após a queda de Roma (no ano de 476), não podia ter originado, entre os falantes originais de latim, a expressão ‘non nicotianun fumun sugere" (isto é, "proibido fumar").
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.