Uma investigadora norte-americana diz que há menos diferenças psicológicas entre os géneros feminino e masculino do que aquelas que imaginamos. As que existem, são mal interpretadas.
Serão as mulheres e homens tão diferentes entre si como se imagina Adão e Eva – vistos como o cor-de-rosa e azul? Estatisticamente, o sexo feminino domina os cursos universitários e a taxa de desemprego, há mais mulheres que homens no mundo e vivem mais anos. Isto quer dizer: Elas têm menos oportunidades de emprego. Entre casais há dificuldades de diálogo e de convivência. Nas raparigas criam--se problemas de autoconfiança nos adolescentes. “Se as mulheres e os homens descobrirem o quanto são semelhantes, os seus casamentos correm muito melhor”, diz Janet Shibley Hyde, autora de um estudo sobre as semelhanças entre géneros. “Este reconhecimento também nos ajuda nas nossas vidas profissionais, porque não nos impõe barreiras entre homens e mulheres.” As diferenças são mais significativas nas prestações físicas e na sexualidade. Moderadas na agressividade.
As hipóteses de semelhança entre géneros sustentam que homens e mulheres são similares nos seus comportamentos psicológicos, mas não em todos. Diferenças há nas medidas da sexualidade, que também admitem variáveis – na masturbação e para a aceitação de relações sem compromissos entre o casal. No entanto, há factores externos, considera Janet Hyde, quase ausentes por serem recíprocos. “As características sócio-culturais são uma influência óbvia, mas também há diferenças emocionais e orgânicas condicionadas pelas diferenças cerebrais e impregnações hormonais”, explica Santinho Martins, sexólogo e Presidente da Associação Portuguesa de Sexologia.
Orgasmo é considerado por muitos casais sinónimo de satisfação sexual – “activado emocionalmente pela mulher e fisicamente pelo homem”, esclarece Santinho Martins –, mas as diferenças na sua manifestação são quase nulas atendendo a que cada pessoa exprime à sua maneira esse prazer. Em todo o caso, como não existem instrumentos que o possam medir, o especialista considera que “a mulher manifesta melhor verbalmente as suas emoções, o homem fá-lo de forma física.”
Neste sentido, “a sofisticação do diálogo entre os dois elementos do casal é diferente”, diz o psicoterapeuta Vítor Rodrigues. Uma boa comunicação é essencial para resolver conflitos, mas “as mulheres conhecem as emoções e os homens tendem a bloqueá-las”. Se, apesar de todos os esforços de diálogo, ambos acreditam que já falaram de tudo – por vezes, entra-se num diálogo surdo, aparentemente falam da mesma coisa, mas na realidade não o fazem porque não se entendem –, começam a entrar em áreas de conversação a evitar. Vítor Rodrigues revela que o passo seguinte é o “bloqueio franco na comunicação”. Rotura que pode levar à separação. “A arte de manter uma relação remete-nos para a sedução – interesse puro e simples pelo outro.”
As diferenças entre homens e mulheres dependem muito das normas sociais e é possível identificar a influência desse contexto nas acções pessoais. “Hoje, já não há discriminação em função da lei, mas já houve”, recorda Elza Pais, presidente da Estrutura de Missão Contra a Violência Doméstica e docente de Sociologia na Universidade Católica. Acontece que os resíduos dessas leis persistem por vários anos nos contactos sócio-culturais. Acumulam-se as queixas contra a discriminação das mulheres no local de trabalho e acesso ao emprego, no ensino, ou simplesmente na paternidade. Substima-se o valor das pessoas em função do género sexual.
O estudo de Janet Hyde desmistifica algumas afirmações frequentes: É falso que haja diferenças entre o género feminino e masculino nos exercícios de matemática; é falso que as raparigas na adolescência tenham menos autoconfiança que os rapazes; é falso que as mulheres comuniquem com estranhos de forma diferente dos homens. As aptidões físicas para desportos, maior agressividade psicológica e o dom de interromper as conversas são características dominantes no rapaz. O que pode influenciar as expectativas dos pais nas prestações escolares dos filhos, havendo uma tendência para que o encorajamento dos rapazes para as ciências e matemáticas e das raparigas para áreas onde não façam uso destas aptidões.
“Não há aqui pessoas mais ou menos inteligentes pelo facto de serem homens ou mulheres. Há pessoas inteligentes.” A expressão de Elza Pais serve para dispersar a ideia de que as diferenças físicas constroem as desigualdades. “Não as podemos associar ao género masculino e feminino – que são diferentes, mas não têm de ser desiguais”.
“Os pais podem tentar dar aos seus filhos oportunidades iguais, enquanto estes ainda forem meninos e meninas” – aconselha a investigadora norte-americana da Sociedade de Psicologia. Desvirtuar as diferenças entre géneros nunca deverá ser uma forma de ‘ultrapassar’ os direitos da mulher no acesso ao local de trabalho, de dissuadir os casais a tentarem resolver conflitos e problemas de comunicação, ou de impor obstáculos desnecessários ao desenvolvimento das crianças e adolescentes.
OLHAR AS DIFERENÇAS
A desvirtuação dos aspectos que marcam as diferenças entre sexos prejudica gravemente homens e mulheres de todas as idades e em diferentes situações da vida. Cinema e literatura exploram muito as diferenças de género e, às vezes, lançam-nas ao mundo como a ‘guerra dos sexos’.
45,9% Actividade feminina
56,5% São universitárias
28 mil divórcios em 2002
56 mil casamentos em 2002
Os tempos mudam, mas há dias passados que marcam gerações. Seguem-se alguns conselhos contra a discriminação do homem e da mulher.
RESPEITO
O respeito pelas diferenças físicas, raciais, de género, estilos ou crenças é importante para que não haja discriminações – comportamento condenável judicialmente. A sociedade deve valorizar comportamentos que promovam a igualdade de direitos e de oportunidades entre géneros.
PARTILHAR
A partilha das tarefas domésticas ou paternais facilita o relacionamento entre os casais e, principalmente, com os próprios filhos. Não diferenciar actividades domésticas entre os géneros permite que ambos, especialmente as crianças e adolescentes, tenham oportunidades iguais.
COMUNICAÇÃO
A boa comunicação entre casais é essencial para a resolução de conflitos. Mantenha interesses comuns e partilhe descobertas diárias, não viva como se já conhecesse tudo sobre o seu companheiro. Exprima os seus sentimentos da melhor forma e certifique-se de que foram bem entendidas.
EDUCAÇÃO
Não alimente falsas expectativas em relação às prestações escolares do seu filho, aliando-as ao facto de que este seja menino ou menina. Lembre-se de que as pessoas, independentemente do género a que pertencem, desenvolvem diferentes capacidades intelectuais, físicas, emocionais e espirituais.
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