A “Operação Vagô” envolveu o desvio de um avião entre Casablanca e Lisboa, em 1961. Foi a primeira acção do género no Mundo e serviu para distribuir panfletos anti-salazaristas.
Lisboa acordou a 10 de Novembro de 1961 sob uma chuva de panfletos anti-salazaristas. Os papelinhos caíam do céu e irritaram o regime.
A acção de sequestro, então inédita no Mundo, contestava as eleições Legislativas daquele ano e centrou-se no avião Mouzinho de Albuquerque, um Super Constellation da TAP, desviado a meio do percurso entre Casablanca (Marrocos) e a capital portuguesa por seis operacionais.
Foi esta acção, pensada por Henrique Galvão e chefiada por Hermínio da Palma Inácio, que deu início a essa nova modalidade de acção revolucionária: o sequestro de aviões por razões políticas. E, apesar de todas as catástrofes que directa ou indirectamente terá inspirado mais tarde, acabou sem derramamento de sangue, embora o avião tenha estado sob a mira de dois caças portugueses.
Acompanhado de mais cinco revolucionários, Camilo Mortágua, Helena Vidal, Amândio Silva, Francisco Vasconcelos e João Martins, Hermínio da Palma Inácio, então com 39 anos e profundos conhecimentos de aviões – tinha sido voluntário na Força Aérea, de onde fora expulso – foi o grande obreiro do sequestro.
O embarque em terras marroquinas decorreu sem suspeitas, uma vez que todos os “piratas” eram portadores de documentação válida e de bilhetes como um passageiro comum. Helena Vidal, em avançado estado de gravidez, usou a sua farta barriga para dissimular a entrada de cinco pistolas a bordo.
Caricata foi a situação em que se viu envolvido Palma Inácio, que antes de embarcar teve de se livrar de um numeroso grupo de miúdos marroquinos que insistia em engraxar-lhe os sapatos. A recusa deveu-se ao facto de ser o único que transportava a sua pistola presa na meia esquerda. Mas também a volumosa bagagem de mão (sete sacos), que escondia os 100.000 panfletos depois distribuídos, causou algum problema.
“Operação Vagô”. Assim foi designada esta acção de luta contra a ditadura de Salazar, que teve início com a descolagem do voo de Casablanca às 9h15. De modo a não levantar qualquer tipo de suspeita, os seis sequestradores sentaram-se em lugares bem dispersos.
Já sobre solo português, e quando faltavam 40 minutos para se aterrar na Portela, Palma Inácio deu ordem para que se iniciasse a tomada do avião, que apanhou 17 passageiros e sete tripulantes desprevenidos.
De imediato, juntamente com Helena, Palma Inácio deslocou-se ao “cockpit” do avião munido de uma pistola calibre .32, que prontamente apontou à cabeça do comandante Sequeira Marcelino. As intenções foram de imediato difundidas. “Isto é um sequestro.
Ou levas o avião sob as minhas ordens, ou prendo-te e passo eu a pilotá-lo”, avisou Palma Inácio. Marcelino optou pela primeira hipótese. O plano era simples: “bombardear” Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro com panfletos, antes do regresso a terras marroquinas.
O comandante do Super Constellation ainda argumentou que a gasolina para o regresso não seria suficiente, mas Palma Inácio, com profundos conhecimentos de aviões, sabia que tal não correspondia à verdade. Evitar o derramamento de sangue era uma das prioridades do comando.
A discrição foi a máxima possível. Mantendo sempre a calma, os operacionais pegaram mesmo num ramo de rosas que estava no cockpit e distribuíram pelas senhoras presentes. Dentro dos possíveis, a simpatia foi conquistada, ao ponto de alguns deles terem ajudado no lançamento da propaganda nos pontos previstos.
Pelo meio, muitos copos de vinho e whisky foram servidos. Com Lisboa à vista, o sexteto começou a ultimar o lançamento dos panfletos. Uma vez que o avião já se encontrava em território nacional, havia que tomar todas as precauções para evitar eventuais ataques contra o aparelho, pelo que foi necessário baixar para os 3.000 pés de altitude.
Só assim seria possível lançar os folhetos e evitar que o Super Constellation pudesse ser alvo da contra-ofensiva dos forças militares ao serviço de Salazar.
Sequeira Marcelino, com vontade de colocar um ponto final nesta aventura, ainda se fez à pista 5 do Aeroporto da Portela, mas Palma Inácio reagiu de imediato, lançando-se sobre os comandos do avião e gritando ao mesmo tempo: “Se tentar aterrar o avião então ficamos todos já aqui”.
De modo a evitar o desastre, Marcelino desistiu então da ideia e voltou a acatar as ordens revolucionárias, solicitando autorização à torre de controlo para voar a baixa altitude sobre Lisboa. Para sua surpresa, o pedido foi concedido, o que deixava no ar a ideia que toda a acção estava combinada.
A descida drástica de altitude levou a que dois dos revolucionários tivessem vomitado. A despressurização da cabina foi efectuada e, a partir daí, foram abertas as janelas de emergência e lançada a propaganda anti-salazarista. Metade da operação estava completa...
O regresso a Marrocos foi efectuado a baixa altitude, de modo a que o avião não fosse detectado pela Batina, nome do radar do Montejunto. Pelo caminho, o comando ainda atirou panfletos sobre o Barreiro, Setúbal, Beja e Faro.
No entanto, os seis revolucionários, bem como os restantes ocupantes do avião, viveram momentos de angústia quando dois caças Sabre, que haviam levantado voo da base de Montreal, foram avistados.
Algum tempo depois de o sequestro ter terminado, um piloto de um dos Sabre confessou ao comandante Sequeira Marcelino que tinham ordens do general Gomes Araújo, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, para abater o Super Constellation caso este não aterrasse em solo luso.
Para alívio de todos, os pilotos dos caças avistaram o avião da TAP mas não o quiseram abater.
O Super Constellation aterrava em Tânger três horas depois de ter levantado voo em Casablanca, numa viagem que, originalmente, era para ter durado hora e meia.
Na pista do aeroporto, o capitão Henrique Galvão recebia os seis companheiros de luta, que imediatamente deixaram as imediações de carro. A tripulação, assim como os passageiros, foram levados para as instalações da polícia de Tanger.
Aí, o comandante Sequeira Marcelino ouviu, numa sala contígua, as rolhas das garrafas de champanhe a saltarem. Os revolucionários festejavam o fim de mais uma acção anti-Salazar.
O grupo viajou, posteriormente, para o Brasil, apesar das fortes pressões do Governo português para que fosse extraditado. A poetisa Natália Correia dedicou um dia a Palma Inácio o epíteto de “O último herói romântico”. N
O “piratinha do ar”
Quem diria que um jovem de 16 anos conseguiria ludibriar a segurança de um aeroporto e desviar um avião? De facto, no dia 7 de Maio de 1980, um estudante, que vivia no Feijó, decidiu encetar uma aventura nos céus e desviar um Boeing 727 da TAP.
Rui Manuel Costa Rodrigues, que ficou conhecido como “Piratinha do Ar” – hoje é um destacado funcionário do departamento comercial da RTP –, andava a tirar o 6º/7º ano no Externato Crisfal, em Lisboa.
Embarcou num voo de ligação entre a capital portuguesa e Faro, mas acabou por desviá-lo para o Aeroporto de Barajas, em Madrid. As suas razões nunca ficaram esclarecidas, mas tudo apontava para divergências com os pais.
Rui Rodrigues, um jovem pacato e obcecado por OVNI, empunhando uma pistola de calibre 6.35 do pai mas sem carregador, apanhou desprevenidos os 86 passageiros e sete tripulantes do aparelho.
Apesar de empunhar a arma, mostrou-se sempre simpático. O avião, que saiu de Lisboa às 21h46, aterrou em Barajas às 23h49. As negociações com as autoridades duraram a noite inteira. João Sá Coutinho, embaixador de Portugal em Espanha, mediou as conversações com o jovem “pirata”.
O jovem exigia viajar para a Suíça e um resgate de mais de 10 milhões de dólares. Após longas conversações, e com um ataque surpresa da polícia espanhola a pairar, tudo acabou por se resolver, com o estudante a libertar os passageiros.
Rui Rodrigues regressou a Lisboa no mesmo avião e, assim que voltou a pisar solo luso, foi preso e levado para os calabouços da Judiciária. A simpatia do jovem foi tal que a tripulação do Boeing, bem como alguns passageiros, prontificaram-se a depor a seu favor.
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