‘Planeta Cor-de-Rosa’ é o novo livro da jornalista Luísa Jeremias, que mergulha nos bastidores do universo das celebridades.
Luísa Jeremias dirige há 15 anos revistas ‘cor-de-rosa’ e isso faz dela uma das maiores especialistas neste tema. Por isso, escreveu ‘Planeta Cor-de-Rosa’ (ed. Casa das Letras), livro que desvenda alguns dos mitos e incertezas deste mundo de glamour. O título da obra vem de uma crónica que escreve há mais de dez anos e que, atualmente, é publicada no site Flash! e é rubrica no programa ‘Flash! Vidas’, da CMTV.
Qual o intuito deste livro?
Há muitas questões que ainda não estão respondidas sobre este universo. Dirijo revistas de sociedade há 15 anos e embora seja um tema sobre o qual se fale muito, pouco ou nada foi escrito. Há muitos mitos, poucas explicações. É um livro que desconstrói este mundo que mudou muito ao longo destes 15 anos. Mas este não é um lavar de roupa suja. A verdade é que este mundo é muito divertido.
De que forma ?
O segredo é levarmos aquilo que fazemos enquanto jornalismo muito a sério, mas não nos levarmos muito a sério. No fundo, tudo isto é entretenimento.
Tem amigos entre os famosos?
Tenho e damo-nos todos lindamente mas os campos estão bem separados.
Mas é um tema que também traz dissabores, processos, acusações. Como se lida com isso?
Como em qualquer outra área do jornalismo. Lida-se com processos. Fazer revistas de sociedade não é só fazer histórias lindas e fabulosas. O caso da Bárbara Guimarães, por exemplo. Ela preferia não ter aparecido por aquelas razões e nós também preferíamos não ter de dar aquele tipo de notícias.
O que mudou mais?
Mudou tudo. Sobretudo por causa das redes sociais. Enquanto no início de 2000 íamos atrás da notícia, agora já não é preciso porque toda a gente põe tudo em todo o lado. Basta seguir as redes sociais dos famosos para estar ao corrente do que se passa na vida deles. Eles tornaram-se os seus próprios fotógrafos e dão conta da sua própria vida. Ora, isto alterou as regras todas. Mas temos de continuar a ir atrás da notícia, porque as pessoas querem saber o resto. E nós não somos agentes dos famosos. Há que desconstruir a história.
Os famosos não se tornaram menos ingénuos?
Claro que sim. Tenho um capítulo que fala precisamente sobre isso. As redes sociais são a mais inteligente descoberta dos famosos para contarem a vida que eles querem contar. E aqui há que juntar a crise em que entrou toda a comunicação social que levou a haver menos gente, menos investimento, e que faz perigar um bocado esta indústria na qual todos precisamos uns dos outros - é bom que se diga isso.
É uma troca equilibrada?
As celebridades precisam da imprensa e das televisões. Nós precisamos deles para ter histórias, até porque ao público não basta o que é publicado nas redes sociais. Mas isto é um negócio. Nos últimos tempos é comum ouvir-se a frase: "Vocês querem é vender revistas!" É claro que sim! E os famosos querem ter muitos seguidores e vender o seu próprio produto. Tenho um capítulo que fala desta lógica de trabalhar: ‘Eu uso-te, tu usas-me, nós usamo--nos.’ E é nesse contexto que todos precisamos uns dos outros.
Em Portugal, quem são as figuras que melhor se sabem gerir?
Depende das épocas. Antes tínhamos ‘o croquete’ - pessoas que estavam sempre muito bem vestidas, nos melhores sítios, nas melhores festas, que simplesmente ‘eram’. E eram os ‘influencers’ daquela época, que as pessoas seguiam. Depois veio a televisão. Os jovens atores perceberam rapidamente como é que podiam tirar partido da sua beleza, do seu trabalho e criar o seu negócio paralelo. Falando em nomes: numa época mais recuada, a Kiki Espírito Santo, por exemplo, era uma figura de um certo jet set nacional - na época em que ainda havia jet set em Portugal. Mais tarde, a Lili Caneças, que também soube aproveitar. Agora, os 800 mil seguidores da Rita Pereira demonstram o quanto sabe trabalhar bem esta máquina. Tiro-lhe o chapéu, porque sempre foi uma ótima gestora de si própria, muito antes de ter quem a agenciasse a sério.
‘Os croquete’, os falidos, os papa-festas, os aspirantes... Há uma série de personagens neste livro. Afinal, é tudo fachada?
É uma feira de vaidades. Em Portugal, já não há jet set. É muito pequenino. E se alguma vez teve jet set foi antes do 25 de Abril. Ser jet set é diferente de ser famoso. É ser exclusivo, estar nos melhores sítios e festas. Portugal teve muitas fases. Teve uma fase em que se ostentava, antes do 25 de Abril. Depois, teve uma fase em que o dinheiro se escondeu todo ou foi para fora. Depois foi voltando. É a fase do regresso das discotecas, da noite, mas discretamente. Mas o ‘verdadeiro dinheiro’ está em casa. Encontra-se entre si e não se mostra. Sempre foi assim.
E ainda há paparazzi combinados?
Com as redes sociais, os paparazzi deixaram de ter trabalho mas continua a haver. Por exemplo, nas férias no Algarve. O fotógrafo encontra uma figura pública na praia. E esta diz-lhe: "Fotografem-me à vontade, mas façam de conta que eu não estou a ver." Isto acontece. Às vezes, são as figuras públicas que ligam para os fotógrafos e avisam: "vem cá fotografar-me às tantas horas porque vou ao multibanco" ou "vou estar com o meu novo namorado". Faz parte dessa gestão própria que as figuras públicas fazem.
E acontece pedirem dinheiro para se deixarem fotografar ?
Sim. Sobretudo figuras emergentes. Só que ninguém paga. Pelo menos, eu nunca paguei nada. Mas também pedem coisas. Por exemplo, querem pôr peito ou silicone dos lábios e perguntam se nós podemos dar o contacto. É a forma de lidarem com a fama e tentarem tirar algum proveito disso.
Há um capítulo unicamente dedicado ao Cristiano Ronaldo...
É a nossa única estrela à escala planetária. Não temos outra.
É o seu segundo livro. Mas o primeiro era ficção. O que a apaixona na escrita?
Adoro escrever. É das coisas que mais gosto. Foi por isso que me tornei jornalista. Sou filha única e sempre gostei muito de escrever as minhas histórias. Venho de uma casa com muitos livros e muito papel. Entranhou-se.
E sonhava com este mundo?
De todo. Nunca me imaginei aqui, nem queria fazer parte dele. No jornalismo, antes, fiz muitas outras áreas: política internacional, cultura e espetáculos…
Como é que se vai lutar contra a quebra de vendas da imprensa?
Com imaginação. Da mesma forma que os famosos se adaptaram, os jornais e as revistas também se vão moldar aos tempos. Sou diretora da Flash!, que deixou de existir em papel e neste momento é um site. O futuro é digital. Tenho saudades do papel, com o qual tenho uma relação orgânica, mas isto é a lógica do mercado.
O que lhe alivia o stress?
Cozinhar. Muito. E viajar.
Quando viaja não encontra famosos?
Muitas vezes. E também encontro paparazzi à procura de famosos.
Como por exemplo?
Na praia, em Cabo Verde. Vejo um vulto estranho aparecer na praia, com um grande camisolão, todo vestido de preto, a máquina pendurada ao pescoço... nada a dar nas vistas. Era um paparazzo que eu conhecia bem a tentar encontrar o Cristiano Ronaldo e a Merche Romero na altura em que andavam juntos. Não os apanhou. Mas apanhou outras coisas que eu conto no livro...
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