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Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

SESTA: O 'IOGA IBÉRICO'

Sinal de preguiça, imagem depreciativa do anedotário alentejano, a sesta tem defensores. E assim se descobre que além dos famosos ‘interlúdios’ de Mário Soares, outros dormitam também.

15 de junho de 2003 às 15:22

A seguir ao almoço, o deputado do PS José Miguel Medeiros esgueira-se para o seu gabinete, recosta-se na cadeira e deixa-se levar de 'fininho' para o consolo do “reino de Morfeu”. À mesma hora, na vila de Ansião, o advogado e escritor Prates Miguel faz uma pausa na consulta dos processos jurídicos, ajeita a almofada no sofá do escritório e inicia uma sesta, que o deixa retemperado para o resto do dia.

Os dois ‘dorminhocos’ estão separados por uma distância de 180 quilómetros, mas unidos numa causa: a devolução do hábito da sesta à maioria dos portugueses. Consideram que o repouso após a refeição é meio caminho andado para a “harmonia dos ritmos biológicos, alívio do ‘stress’ e, em consequência, para a melhoria da qualidade de vida e higiene mental".

Desta convicção nasceu a Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta (APAS) e o convite a Mário Soares, para sócio honorário. Conhecido por gostar de descansar as pálpebras em cerimónias mais demoradas, embora sem perder “o fio à meada” dos discursos, o ex-Presidente da República já aceitou a proposta. E vai ser o sócio número um de uma associação que, mesmo antes de formalizada, ficou já bastante conhecida. Ao escritório de Prates Miguel (sede provisória da APAS), além dos inúmeros pedidos de adesão, tem sido um corrupio de pedidos de entrevistas, inclusive de jornalistas estrangeiros. Ultrapassados pelo interesse suscitado pela iniciativa, os principais fundadores da associação vêem-se agora confrontados com um grave e perturbador dilema: “Criámos a associação para promover o descanso e ficámos com mais trabalho”, ironiza Prates Miguel, consciente que, apesar de desgastante, esta fase inicial é fundamental para a afirmação do projecto e o cumprimento da missão.

FECHAR OS OLHOS POR DOIS MINUTOS

A versão portuguesa da sesta, ou “ioga ibérico” como o cantor Pedro Barroso gosta de lhe chamar, quase passou de moda, por terras lusas ao contrário do que se passa em Espanha ou no México, com a “siesta”. Nalgumas zonas rurais, em particular no Alentejo, o repouso após o almoço continua a fazer parte dos hábitos diários dos cidadãos. Mas longe vão os tempos em que se fazia a “Espera da Sesta”, no domingo seguinte ao da Páscoa, um pouco por todo o País. As pessoas reuniam-se em grupos e iam para o campo, onde dormiam a primeira e profilactica sesta do ano.

Agora, tudo é diferente. Os tempos modernos são pautados pela rapidez e o mundo do trabalho não se comove com saudosismos. As regras laborais apertam os horários e parar, ainda por cima para dormir, é coisa certamente inconcebível para a maioria dos patrões. Daí que a constituição da APAS tenha sido digerida em silêncio pela generalidade das associações representativas das entidades empregadoras. Prates Miguel e José Miguel Medeiros, dois dos principais responsáveis pelo nascimento da associação, põem água na fervura. “Não vamos fazer campanhas para hostilizar ninguém. O que pretendemos é criar um fórum de opinião sobre os benefícios da sesta. Queremos saber se os portugueses a aceitam como um benefício ou a encaram como um tabu”.

Para Nelson Lima, director do Instituto da Inteligência, os aspectos benéficos da sesta estão mais que estudados e provados. O difícil é recuperar a prática deste hábito, tendo em conta o actual modelo de organização dos horários laborais em Portugal. De qualquer forma, os benefícios para a saúde parecem ser indiscutíveis.

“O cérebro consume 25 por cento de toda a energia do corpo”. Como tal, “qualquer processo que permita repartir o esforço do trabalho intelectual” é um tónico na “corrida desenfreada” em que a maioria dos cidadãos está inserida.

Segundo o responsável, ninguém devia estar “mais de hora e meia em esforço intelectual contínuo”. Os professores, por exemplo, não têm grandes possibilidades de respeitar este conselho. Entre esta classe profissional, a consquência do 'non-stop' tem efeitos preversos: “dez por cento sofrem de esgotamento”, como concluiu um estudo recente elaborado pelo Ministério da Educação.

Neste contexto, ao contrário da sesta, Nelson Lima defende um modelo assente em pausas laborais (duas de manhã e duas à tarde), não inferiores a dez minutos. E vai mais longe, ao propor que as empresas promovam cursos de formação de relaxamento rápido, junto dos seus empregados. Em última análise, o director do Instituto da Inteligência aconselha-nos a fechar os olhos por dois minutos, se possível de hora a hora, para “manter o cérebro em boas condições”.

O escritor José Eduardo Agualusa é que não tem dúvidas: “Estou certo de que dormir a sesta é em si mesmo um sinal de inteligência”.

A Adega Cooperativa de Vila Nova de Foz Côa anunciou, no dia 2 de Junho, a alteração: três horas de almoço para descanso dos trabalhadores. Tinha sido a primeira ‘vitória’ da Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta (APAS) que, nesse mesmo dia, no Cartório Notarial de Ansião, era constituída por 15 pessoas. No lote dos sócios-fundadores figuram nomes de deputados, advogados, jornalistas e artistas. Foi criada para divulgar a prática da sesta “enquanto pausa de repouso intercalar na actividade laboral, conducente à harmonia dos ritmos biológicos e alívio do ‘stress’" e nasceu de uma ideia de Prates Miguel, logo acolhida por José Miguel Medeiros.

OS FUNDADORES

Nome: Manuel Prates Mendes Miguel

Idade: 54 anos

Estado Civil: Divorciado, com dois filhos (um rapaz

de 18 anos, uma rapariga com 22 anos)

Naturalidade: Montargil

Residente: Ansião

Habilitações Académicas: Licenciado

em Direito

Profissão: Advogado

Outros cargos: Presidente do Conselho Fiscal dos Bombeiros Voluntários de Ansião, presidente da Assembleia de Freguesia de Montargil, director do semanário “O Correio de Pombal”, chefe de redacção do mensário “Horizonte”, sócio-fundador da Associação Portuguesa de Escritores Juristas e membro efectivo da Associação Portuguesa de Escritores.

Outras actividades: Tem sete livros publicados, na área da prosa e poesia.

Nome: José Miguel Abreu de Figueiredo Medeiros

Idade: 42 anos

Estado Civil: Casado, com três filhos (um rapaz de 15 anos, dois meninos gémeos com 11 anos)

Naturalidade: Avelar, Ansião

Residente: Avelar

Habilitações Académicas: Licenciado

em Geografia

Profissão: Deputado à Assembleia da República

Outros cargos: Presidente do Atlético Clube Avelarense (desde 1984), sócio-

-fundador da Associação Nacional para

o Desenvolvimento Local em Meio Rural, docente na área do Turismo na Escola Profissional Profitecla (Coimbra), presidente da Federação Distrital de Leiria do Partido Socialista, presidente da Fundação Nossa Senhora da Guia (Avelar).

Outras actividades: Está a concluir uma pós-graduação em Relações Internacionais.

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