A mala vermelha de Madalena é uma caixinha de surpresas capaz de fazer corar muito boa e pudica gente. À medida que lá de dentro saem objectos eróticos e frascos alquímicos, ouvem-se risos e comentários atrevidos, piadas de bom e de mau gosto. Para trás, noutra mesa, ficaram os pastéis e os bolinhos, o chá, o vinho e “muitas décadas de repressão sexual”.
Quem o diz é Alice, a dona da casa, que convidou para a demonstração um grupo de amigas lésbicas: “As sex-shops são lugares pensados para homens onde poucas mulheres se sentem à vontade. Além disso, apesar das conversas sobre sexo já não serem tabu, ainda há um grande desconhecimento sobre os estímulos ao prazer feminino”. Excelentes pretextos para reunir as amigas num domingo ao final da tarde: “Se não te sentes à vontade para ir até às sex-shops que sejam elas a vir até ti.”
É precisamente uma mini-sex-shop cor-de-rosa, o que Madalena tira da sua mala vermelha. Expostos como numa montra, os objectos parecem brinquedos inocentes, não fosse a forma inequívoca dos vibradores azuis e roxos, o sadismo do chicote, ou a capa erótica de um livro. À sua volta, cerca de 20 mulheres, algures entre os 21 e os 50 anos, escutam atentamente a professora de carrapitos e óculos. Madalena, 48 anos, produtora de guarda-roupa, mãe de filhos e agente de tuppersex nas horas vagas.
NEGÓCIO DIRIGIDO A MULHERES
O Negócio das tuppersex é exclusivamente dirigido a mulheres e começou há vários anos nos Estados Unidos como uma adaptação livre das tradicionais, e também americanas, reuniões tupperware. Em Espanha, a marca “La Maleta Roja” é, a par das boutiques eróticas, a grande moda feminina do ano. Não espanta pois que em Portugal este conceito comece a alargar-se a vários públicos. E são já muitas e muito diferentes, as mulheres dispostas a receberem em sua casa alguém que “as ajude a descobrir outras maneiras de terem prazer”.
Madalena vai apenas na sua sexta demonstração, mas os grupos eram tão distintos entre si – empresárias, classes de fitness, despedidas de solteira – que já se sente à vontade para tirar conclusões: “As mulheres portuguesas são de uma maneira geral muito reservadas, levam tempo a soltar-se. Curiosamente, as mais novas são as mais tímidas. Compram lingerie erótica ou óleos de massagem. As mais velhas, atrevem-se um pouco mais.” Por vezes, também há surpresas, como a história de “uma miúda grávida que não hesitou em levar para casa um G-Spot”. Ou seja, um vibrador vermelho com uma cabeça de cobra.
Em Portugal, a era das tuppersex foi inaugurada há cerca de um ano por uma brasileira que, dado o sucesso, resolveu expandir o negócio e abrir em Cascais uma escola onde ensina mulheres a “fazerem striptease, a terem prazer, a pensar a sexualidade de outra maneira.” Outra das ideias é fazer workshops sobre prazer no feminino, por todo o País. Para Madalena está em curso uma revolução de veludo que vai transformar o papel da mulher na sociedade. E paradigma disso mesmo é o facto de, pela primeira vez, o Salão Internacional Erótico de Lisboa – que decorre na FIL de 21 a 24 de Junho – contemplar uma zona reservada a mulheres, onde serão feitas demonstrações de brinquedos eróticos e onde estas podem aprender a seduzir. Uma espécie de tuppersex pública em ponto grande e em ponto G.
TENTAÇÃO PARA OS SENTIDOS
Filipa, 22 anos, estudante de medicina veterinária, arregala os olhos enquanto Madalena se esforça por demonstrar os efeitos terapêuticos e sensuais de uma esponja em forma de morango. Vibra e não absorve água, “uma tentação para os sentidos.” E o mesmo se diga do pincel que acompanha a tinta de chocolate ou dos óleos de massagem coloridos, com essências disto e daquilo.
“Nas minhas apresentações costumo ir entrando suavemente no tema. Começo pelos estimulantes, a seguir passo para os brinquedos e fantasias e só depois para os vibradores, dildos e complementos”, explica a professora, “a cosmética erótica é a que tem maior aceitação entre os grupos porque é a que menos compromete e, apesar da maioria das pessoas já se conhecerem de outros sítios, há sempre algum constrangimento com os objectos.” Problema que, hoje, parece não existir.
À medida que Madalena vai apresentando os produtos e demonstrando as suas versatilidades, estes passam de mão em mão e são experimentados pelas potenciais clientes. Um gel que deixa a pele macia como seda, outro que serve para estimular os mamilos, outro ainda para lubrificar a vagina.
Seguem-se os brinquedos e jogos, atrevimentos clássicos com direito a comentários jocosos e algumas gargalhadas. Chicotes, algemas revestidas a pele de tigre, máscaras felinas e lingerie atrevida são fantasias do senso comum. Nada que Filipa não tenha ainda visto. Ao contrário do objecto que causa mais furor entre o grupo: o baton 007, um pequeno vibrador de mala em formato de baton, capaz de enganar qualquer inspector de alfândega. Teresa, uma criadora de cães de 48 anos, está fascinada: “Farto-me de viajar e é o objecto perfeito, não sei é se será adequado ao meu prazer.” No seu caso, talvez faça mais sentido adquirir um coelhinho transparente que se enfia no pénis, ou no vibrador, para estimular o clitóris.
LIBERDADE PARA FALAR DE SEXUALIDADE
É esta liberdade para falar na própria sexualidade que Madalena diz faltar à grande maioria das mulheres portuguesas: “As mulheres saem juntas, falam de sexo, mas raramente falam da sua sexualidade ou de prazer”. Sejam novas ou velhas, advogadas, operadoras de caixa ou artistas plásticas. “Nestes encontros abrem-se um bocadinho mais, experimentam coisas sobre as quais tinham curiosidade, imaginam-se a ter, ou não, prazer com elas, descobrem e descobrem-se.”
Filipa, por exemplo, descobriu que as duas bolas de plástico fúcsia que tem entre as mãos – bolas de gueixa ou bolas do amor – são utilizadas por mulheres de tribos orientais e brasileiras para terem prazer, ao mesmo tempo que reforçam os músculos pélvicos e previnem a incontinência. Além de uma óbvia utilidade sexual, têm essa função terapêutica, sendo muito apreciadas por mulheres que acabaram de ter filhos.
Outra das grandes atracções da tarde é um estojo metálico que tem dentro um pequeno vibrador e dildos com vários formatos. Basta trocar o vibrador para o dildo com o formato que se pretende utilizar, enfiá-lo no dedo e já está: “Este objecto não se destina apenas a dar prazer, também alivia as dores de cabeça e a tensão muscular e previne as patas de galinha dos olhos devido a um efeito massajador”. Razões mais que suficientes para convencer Luísa, 32 anos, consultora numa agência de casting: “É que o meu problema são as dores de cabeça”, afirma com alguma malícia.
A curiosidade geral está agora virada para um pénis azul de plástico que Madalena apresenta como Paul e Paulina, uma vez que se destina a estimular ao mesmo tempo a vagina e o clitóris. Trata-se de um pénis “duplo prazer” com funções muito diferentes do Dinky Digger que tem uma forma destinada a estimular o ponto G, é resistente à água e pode ser levado discretamente no bolso. As perguntas sobre a natureza dos materiais e sobre as múltiplas formas de uso surgem em catadupa, enquanto os brinquedos fálicos passam de mão em mão.
A timidez inicial foi completamente ultrapassada e discutem-se preços, materiais, formas ou sensações. Para respeitar a intimidade de cada um, Madalena prefere receber as encomendas por telefone, entregá-las mais tarde. Várias pessoas pedem-lhe o número de telefone, até porque, como faz questão de referir Teresa, “os produtos não são nada caros.” Dir-se-ia que são acessíveis. Baratos até, se incluirmos no preço as duas horas passadas a ver, tocar, cheirar, saborear e provar objectos originais, divertidos, e sobretudo, pensados para as mulheres.
De entre a panóplia de objectos mirabolantes que Madalena retirou de dentro da sua mala vermelha durante a apresentação caseira de Tuppersex, escolhemos uma amostra representativa dos produtos mais vendidos. Eis a lista com o nome, uma breve descrição e os preços.
- Esponja-morango com vibrador
- Para usar no banho – 18 Euros
- Gel pele de seda Para deixar a pele macia e agradável ao toque – 17 Euros
- Óleo corporal Com vários sabores e cheiros (5 frascos) – 50 Euros
- Pincel e tinta de chocolate para desenhar a pele e lamber a obra de arte – 33 Euros
- Kit tigresa inclui lingerie e máscara de tigre – 16 Euros
- Chicote de couro negro – 16 Euros
- Livro Para Além do Sexo um guia para a aprendizagem sexual – 15 Euros
- Cristais para limpar as energias sexuais – 7 Euros
- Bolas de gueixa para ter prazer e reforçar os músculos pélvicos – 20 Euros
- Caixa com vibrador e dildos de vários formatos – 30 Euros
- Rabbit Anel para aplicar no pénis e estimular o clitóris – 18 euros
- Baton 007 Vibrador para o clitóris – 18 Euros
- Pénis Paul e Paulina Vibrador para estimular a vagina e o clitóris – 45 Euros
- Pénis Dinky Digger Vibrador de bolso com forma destinada a estimular o ponto G – 35 Euros
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