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Sexo e em português

No Cinema ou na TV, as cenas ousadas estimulam os sentidos

16 de maio de 2010 às 00:00

As imagens são a pedra-de-toque das emoções. E lá nisso uma boa telenovela ou um bom filme podem ser excitantes. O sucesso da novela ‘Gabriela’ foi tal que em 1977 parou o País, esvaziou os cinemas, fez queimar os refogados nas cozinhas, e até condicionou os horários da Assembleia da República. Seria só pelo erotismo? "O que lhe digo é que, quando a Sónia Braga – a ‘Gabriela’ – entrava em cena, a temperatura subia por aí acima" – recorda animado o então director de programas da RTP, José Niza, que logo a seguir contrapõe que o sucesso se deveu não só à volúpia mas aos "excelentes actores, uma forma mais livre de representar aliada à musicalidade do português falado à brasileira e ao talento do escritor Jorge Amado".

Quase 20 anos depois, o português do Brasil deu lugar ao nosso português materno numa telenovela que "no início todos pensavam ser imoral": a ‘Jura’ – conta Atílio Riccó, director de projecto e primeiro realizador do enredo que "servia para mostrar tudo o que acontece na vida dos casais". Sim, sexo inclusive. Pelo menos em dez a 15 dos 140 episódios – Atílio não sabe precisar.

"Cenas eróticas suscitam uma resposta correspondente de excitação" no espectador, verbaliza Sandra Vilarinho, investigadora do Laboratório de Investigação em Sexualidade Humana (SexLab). Só "em pessoas com crenças mais conservadoras poderão suscitar algum choque".

A sensual ‘Letícia’ de ‘Jura’ – papel interpretado pela actriz Ana Rocha – apareceu muitas vezes nua, mas não completamente. "A nudez não me choca nada. O sexo faz parte da vida e é com essa naturalidade que deve ser encarado, era uma frase que repeti imenso à época das filmagens. A verdade é que estas cenas são puramente técnicas, apesar de a maioria das pessoas não acreditar". Embora também se explore o voyeurismo de ver actrizes despidas na televisão.

Atílio Riccó – que já tinha produzido a telenovela brasileira ‘Pantanal’, que passou em Portugal num horário tardio para restringir o acesso ao nudismo dos actores em algumas cenas – defende a produção de ‘Jura’, argumentando que "ninguém nunca mostrou nada frontal, a não ser os seios. Ninguém nunca mostrou as pessoas a fazerem sexo ou o casal nu. Um produtor não vai fazer nada que agrida o público". E mesmo os actores que filmam cenas mais íntimas são altamente resguardados.

"Existe, numa fase inicial, algum constrangimento, mas mais ligado à nudez e à exposição do corpo perante outras pessoas. A partir do momento em que se faz uma ou duas cenas e nos habituamos à atmosfera que nos rodeia, tudo passa a ser encarado normalmente, como qualquer outra cena" – conta a actriz Ana Rocha. "Nessas situações não podemos estar preocupados com o corpo, com o quê ou quem está atrás da câmara. É preciso fazer um exercício de abstracção e aí reside o profissionalismo do actor".

As equipas de filmagem são reduzidas ao menor número de elementos para que tudo gire à volta de uma cena que tem de se mostrar credível. Tem que ser bem filmada, com sentido estético e sensual. "Em Portugal há dois casos exemplares de como a nudez e o sexo foram bem integrados no guião: ‘Ballet Rose’ e ‘Equador’" – analisa o crítico de televisão Fernando Sobral. "Hoje, o sexo é uma coisa banal em televisão e em todos os canais. Não é como nos Estados Unidos, em que os canais oficiais são muito conservadores e só os canais por cabo se podem dar ao luxo de apresentar conteúdos mais controversos".

Em ‘Paixões Proibidas’ a actriz São José Correia despiu-se contracenando com o actor brasileiro Felipe Camargo – a duquesa ‘Elisa de Mandeville’ e ‘Alberto de Miranda’, na novela. "Encaro uma cena de sexo como outra qualquer. Mas há sempre um bocadinho mais de tensão, mesmo entre a equipa, do que noutras cenas mais banais. Estamos ali a partilhar um bocadinho da nossa intimidade" – conta a actriz.

"Os constrangimentos têm de ser minimizados. Também depende muito da confiança que já temos com a equipa que trabalha connosco. No entanto, há alguns anos participei numa série em que isso não aconteceu (‘29 Golpes’). Eu tinha uma cena de nudez e sexo com o Paulo Pires, colega que não conhecia e, ainda por cima, era logo a primeira que tínhamos de filmar. E foi difícil. Ninguém estava preparado para partilhar o seu corpo. Foi do género: ‘olá boa tarde, eu sou a São José’; ‘olá, eu sou o Paulo Pires’; e depois tínhamos logo de filmar. Mas o profissionalismo também reside aí: é preciso assumir que se tem essa dificuldade".

José Niza acredita que passada a "overdose" do erotismo e da pornografia, tudo acabou por se banalizar. "Há uns anos, na TVI, o José Eduardo Moniz apostou nesse tipo de programas para captar audiências, o que foi conseguido mas também foi fugaz", analisa. "Recentemente, dá ideia de que houve uma retracção devida à exaustão do tema e do público".

O BRASIL LIBERTADOR

Fernando Sobral é da opinião que as novelas brasileiras foram extremamente importantes. "Libertaram a mentalidade portuguesa de certos espartilhos. No fundo, liberalizaram os costumes e representaram um corte em termos culturais na televisão portuguesa". Já o brasileiro Atílio Riccó acha que há uma grande diferença cultural entre os dois povos irmãos. "O brasileiro, pelo próprio Carnaval onde elas aparecem despidas e pelas praias lotadas de Ipanema com elas de biquini fio dental, é um povo mais descontraído".

Sabemos que a visão é muito importante para despertar o nosso desejo sexual, assim como todos os outros sentidos, explica a sexóloga Vânia Beliz. "O erotismo abre-nos as portas da fantasia e que crise está instalada na nossa capacidade de fantasiar! Cada vez temos mais certeza em relação ao seu poder no desejo. Os portugueses, como certamente todos os outros, gostam de uma boa cena de sexo, uns menos explícita outros mais".

Nos últimos anos, a abordagem da sexualidade passou a ser diferente. Explica a socióloga Sofia Aboim que "esconder a sexualidade seria algo ingénuo. Não é só uma mudança cinematográfica, é social. Mas, evidentemente, há um lado comercial: o sexo vende. Por isso, as personagens passaram a ser portadoras de uma sexualidade mais explícita e menos longínqua da do comum cidadão".

O SAL DO CINEMA

"O que seria da comida sem o sal?" – compara Alexandre Valente quando questionado sobre a importância de uma boa cena de sexo no enredo de um filme. O realizador, autor e produtor de ‘Second Life’, que em 2009 levou às salas cem mil espectadores, sabe do que fala, pois o mais comentado sobre o filme andou à volta de uma certa cena lésbica entre Sandra Cóias e Liliana Santos.

"O cinema é composto por emoções e estas cenas transportam o espectador para um imaginário susceptível de criar um passa-palavra que exalta a curiosidade, seja pela beleza da cena em si, seja pela polémica. Quando penso este tipo de cenas, vejo-as como um ingrediente. E o que seria da comida sem ingredientes?" – justifica.

Só que nem sempre o despudor reside em imagens, também acontece nas temáticas. Como o incesto, que dá o mote a ‘Como Desenhar um Círculo Perfeito’, o novo filme de Marco Martins, agora em exibição. "O tema é abordado de forma natural. Não há nas personagens uma consciência moral, o espectador é que a tem". Quanto à cena propriamente dita, com uns generosos dez minutos de duração, Marco Martins assume o "exibicionismo" puro e duro. "No cinema o sexo é sempre trabalhado de forma voyeurista. Neste caso, a ideia foi explorar a emoção e não os corpos, sobretudo se se tratar da ‘primeira vez’ de ambas as personagens", afirma o cineasta.

O actor Rafael Morais, 20 anos, foi o protagonista, a par com a actriz Joana de Verona. "Encarei de forma natural. Conversámos muito sobre a cena e houve ensaios", esclarece. Ainda assim, Marco Martins defende que o sexo continua a ser um tabu no grande ecrã. "A maior parte dos filmes são pouco sensuais. Há películas de Alfred Hitchcock em que os actores nem sequer se beijam mas têm uma carga sexual mais marcada do que na maioria dos filmes de hoje".

Recuando na história do cinema, percebe-se que levar o sexo ao grande ecrã sempre foi uma tarefa só para audazes. "Durante 50 anos, até os beijos eram proibidos no cinema português. Há um beijo que ainda hoje me surpreende, no filme ‘Dois Dias no Paraíso’ [de 1957, realizado por Arthur Duarte]. E há um primeiro nu – de Guida Maria –, em 1973, no filme ‘A Promessa’", relembra António-Pedro Vasconcelos, que assinou três filmes com exposição sexual – ‘Call Girl’, ‘Os Imortais’ e ‘O Lugar do Morto’. Este último foi o que teve maior audiência. Pelo meio havia uma cena de sexo, interpretada por Ana Zanatti e Pedro Oliveira em cima do capô de um carro, que o cineasta acredita "ter contado" para o sucesso nas bilheteiras.

Na época, o sexo era raro e sempre envolto em grande polémica. "‘O Último Tango em Paris’ foi o primeiro a chegar a Portugal com linguagem sexual aberta. Foi exibido a seguir ao 25 de Abril e esgotou bilheteiras. Havia excursões de espanhóis para virem ver o filme a Portugal", recorda António-Pedro Vasconcelos. O cineasta não acredita, porém, que alguém procure um estímulo erótico quando vai ao cinema. "Se o público quiser ver pornografia aluga. No cinema, os filmes são feitos com actores conhecidos e, às vezes, há uma curiosidade mórbida em vê-los expostos. Mas o sucesso é efémero. As pessoas gostam é de uma boa história".

Embora a naturalidade impere na hora de filmar a intimidade, as equipas de filmagens adoptam medidas especiais e abusam no glamour . "É mais arrojado para os actores do que para o realizador. Tive o cuidado que eles o fizessem de uma forma realista, artística e sensual", confessa Carlos Coelho da Silva, realizador de ‘O Crime do Padre Amaro’. As cenas mais escaldantes requereram ‘preliminares’: "pedi para a Soraia Chaves e o Jorge Corrula se encontrarem e discutirem as cenas de sexo que tinham de filmar. Era para se conhecerem melhor".

Ana Zanatti recorda reacções com 25 anos, quando filmou ‘O Lugar do Morto’. "Houve pessoas que se escandalizaram, outras que apenas acharam um enorme arrojo". Para a actriz, o importante é dar credibilidade à cena, mesmo quando feita em condições adversas, como aconteceu na célebre cena do capô: "Foi filmado com um frio de rachar, às tantas da manhã, num estrada em Sintra e eu apenas com um vestido de seda em cima da pele. Foi cómico porque às tantas comecei a escorregar no capô e o Pedro Oliveira, que estava deitado em cima de mim, foi escorregando comigo até virmos parar ao chão. Claro que tivemos de repetir depois de um enorme ataque de riso que serviu para descomprimir porque o ambiente estava tenso", recorda.

Além do sucesso, ficou ainda a sensação de que se operaram mudanças na mentalidade portuguesa. "Foi uma época muito interessante, porque se tratava de romper com conceitos conservadores. As mentalidades levam gerações para mudar. É um trabalho para se ir fazendo e com ele surgem novas estéticas e novas formas de contar a vida".

"O POTENCIAL DE SORAIA CHAVES FOI UMA GRANDE SURPRESA"

Baseado na obra homónima de Eça de Queiroz e realizado por Carlos Coelho da Silva, ‘O Crime do Padre Amaro’ bateu, em 2005, todos os recordes de bilheteira no que diz respeito à produção cinematográfica nacional. O filme adapta a história para um bairro social de Lisboa , cheio de problemas socioculturais, com as arrojadas cenas de sexo entre Soraia Chaves e Jorge Corrula a causarem especial frenesim entre a imprensa e o público.

"A Soraia foi uma surpresa por ter sido a primeira vez que fez cinema. Foi a última no casting para a escolha da actriz, porque estava a regressar da África do Sul, onde tinha estado a trabalhar. Mas demonstrou potencial, era bonita e sensual", recorda Carlos Coelho da Silva.

CENAS TÓRRIDAS A DUAS DÉCADAS DE DISTÂNCIA

CORRUPÇÃO DE LUXO: ‘CALL GIRL’ (2007)

Novamente com Soraia Chaves no principal papel, ‘Call Girl’ , de António-Pedro Vasconcelos, repetiu as cenas tórridas e o sucesso retumbante. Aqui a história de uma prostituta de luxo dava o mote para um filme sobre a corrupção.

O PRINCÍPIO DA REVOLUÇÃO: ‘O LUGAR DO MORTO’ (1984)

"Leve-me daqui" é a frase que dá o mote para uma jornada de drama, emoção e sexo. A cena, em cima de um capô, entre Ana Zanatti e Pedro Oliveira fez história, tornando ‘O Lugar do Morto’ num dos filmes icónicos do cinema português.

O ONTEÚDO SEXUAL É MAIS EXCITANTE PARA AS PORTUGUESAS DO QUE PARA ELES

Até agora era um dado adquirido que a pornografia tinha como alvo o imaginário masculino. Acontece que um estudo recente revelou que as mulheres portuguesas, quando assistem a filmes eróticos e com sexo explícito, atingem maiores sensações psicológicas de excitação e de prazer do que eles.

Segundo o mesmo estudo da Unidade Laboratorial de Investigação em Sexualidade Humana (SexLab), a resposta sexual fisiológica (erecção e vasocongestão vaginal) não é muito diferente entre homens e mulheres quando vêem estes conteúdos. Estes dados podem ser importantes ao nível do tratamento das disfunções sexuais.

NOTAS

MEIO MILHÃO

Segundo dados da ‘Marktest’, a telenovela ‘Jura’, que passou na SIC em 2006, foi vista por cerca de 555 mil pessoas.

SUCESSO

Em 2007, a co-produção luso-brasileira ‘Paixões Proibidas’ alcançou uns invejáveis 457 mil espectadores.

HISTÓRIA

Quando passou na televisão, vários anos depois da estreia, ‘O Lugar do Morto’ foi visto por 443 mil.

RECORDE

‘Second Life’, de Alexandre Valente, foi o filme luso mais visto de sempre, com quase cem mil espectadores nas salas.

REPETENTE

‘O Crime do Padre Amaro’ já passou quatro vezes na televisão, perante um milhão de telespectadores.

346 mil

Ainda segundo a ‘Marktest’, ‘Sapatos Pretos’ teve 346 mil telespectadores quando passou na TV.

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