‘Frank Sinatra - The Golden Years’ é o título da colectânea sobre ‘A Voz’ que o ‘Correio da Manhã’ proporciona aos seus leitores a partir de dia 29 deste mês. No total são 22 CD, com 440 canções. Cada dois discos sairão acompanhados por um livro que, além de uma biografia original do cantor, incluirá uma audição musical comentada sobre muitas das canções. Trata-se de um trabalho notável de José Duarte
Por que é que aceitou biografar e comentar Frank Sinatra?
Fazia falta. Sinatra é vítima de muitos boatos, sabe-se pouco sobre a vida dele. Para além da música, a colectânea tem um ensaio de biografia extenso, detalhado, não original, mas baseado numa bibliografia que a própria colectânea refere. Não há nada inventado, só saber adquirido, muita investigação, para o que contei com a colaboração de Miguel Torres. Estamos orgulhosos do que fizemos. O projecto satisfez-me porque gosto do Sinatra desde miúdo. Foi um bom professor de inglês.
Quando é que o descobriu?
No final dos anos 50, princípios dos anos 60, quando gravava para a Capitol em discos como ‘I’ve Got You Under My Skin’, com arranjos clássicos hoje e na altura inovadores. Estudar a discografia do Sinatra é muito interessante por se percebe a evolução que ‘A Voz’, com A e V grandes, sofreu, aproximando-se do jazz. Foi então que ele alcançou o maior sucesso como músico. E justamente.
Mas é avesso à ideia de Sinatra como um cantor de jazz?
Sou. Não se deve confundir Sinatra com um cantor de jazz, porque não o é, embora andasse próximo. É um vizinho do lado que se dava bem com os músicos de jazz. Muitos pormenores que existem nas gravações com orquestra com arranjos de Nelson Riddle são prova desse encosto ao jazz. Manteve colaboração com músicos como Harry Edison, um trompete com surdina que fazia uns trinados dialogando com Sinatra, dentro da tradição do jazz. O Sinatra era um cantor aceitável na época e aceitável hoje. Não envelheceu, morreu. É um tipo moderno que não passa de moda. Ouve-se hoje como nos anos 50. É um clássico como Beethoven ou os Beatles.
Essa vizinhança com o jazz é uma ideia recente ou antiga?
É antiga, e não sou só eu que tenho a ideia. Há, também, muitos que, erradamente, o consideram um cantor de jazz. Não é. Um cantor de jazz tem de saber cantar blues e Sinatra conta só um ou dois blues em toda a discografia. O blues é uma música sentida e o que Sinatra fazia a cantar era brincar com a música. É a ideia do ‘play’ em inglês. Ele cantava e ganhava milhões de dólares divertindo-se. Contagiava quem o ouvia, extasiava as meninas.
Os cultores de jazz gostam dele?
Todos os apreciadores de jazz gostam de ouvir o Sinatra, porque para além de Bing Crosby, ele foi ainda influenciado por Louis Armstrong e Billie Hollyday. Isso percebe-se no atraso das palavras em relação ao ritmo, no avanço, no swing. Ele mentia quando dizia que escolhia as canções para o seu repertório pela letra e não pela melodia. Basta pensar na quantidade de canções que interpretou. Só nos 22 CD da antologia que o Correio da Manhã vai apresentar, há 440 e são uma pequena parte do que ele cantou. Imagine-se o que era saber muitas centenas de letras de cor e lembrar-se das inflexões, de quando mete ou tira uma palavra. Ele estava sempre a recriar. E enquanto no jazz os compositores se podem chatear com os músicos por eles retocarem uma música, com o Sinatra, os letristas ficavam danados por ele lhes trocar as palavras.
Saía-se sempre bem a recriar?
As canções do Sinatra têm de se ouvir várias vezes para se descobrir os requebros e as invenções. Obviamente nem tudo foi brilhante. Felizmente, quando eu o descobri, já tinha passado o tempo das orquestrações de Alex Stordahl, de quando gravava para a Columbia. Foi a altura em que ele tirou as cordas e meteu os sopros. Os arranjadores seguintes eram mais pelos sopros. Trouxeram swing, força e melhorou a maneira do Sinatra cantar. Antigamente, os vocalistas começavam a cantar a dois terços da duração da faixa, o começo e meio eram ‘big band’. O vocalista cantava uma vez o tema e acabava. Com Sinatra ouve-se a orquestra ao fundo, ele começa a cantar no princípio e só se cala no fim. Com autoridade e vaidade que só lhe ficavam bem.
Sinatra interessa aos jovens?
Julgo que sim, não só como cantor com uma voz sem igual, como pelo trabalho no cinema, com dezenas de filmes e um Óscar de Melhor Actor, prémio que o distingue. Em televisão também era um tipo com muito humor. Na minha última estada em Nova Iorque havia por todo o lado uma chuva de cartazes com uma imagem do Sinatra de gabardina, muito conhecida, do filme ‘Pal Joey’, a anunciar um canal que dá, todo o dia, sem intervalos todos os filmes dele.
Que pensa de Frank Sinatra como pessoa?
É um homem feliz e infeliz (up and down), filho de imigrantes italianos que subiu, subiu, subiu e teve o seu topo na altura em que a mulher dele era a Ava Gardner. Foi um tempo de paixão e sucesso. A partir do divórcio começou a cair, a cair, mas levantou-se outra vez. É um homem de luta, palmo a palmo, pela glória. Acabou bem.
Esse sobe e desce tinha sempre a ver com mulheres?
A ideia que tenho é que o Sinatra lidava mal com mulheres. Há uma piada do Dean Martin, outro italo-americano que era grande amigo dele. Telefonou-lhe quando soube do casamento de Sinatra com a actriz de cinema Mia Farrow e disse-lhe: 'Não tens vergonha de casar com uma rapariga mais nova do que o whisky que eu bebo?' Ele casou quatro vezes, a última com Barbara Marx, ex--mulher de Groucho Marx, outra grande personalidade do espectáculo. A primeira foi Nancy Barbato. Está tudo, com pormenores, na biografia que acompanha a colectânea. Até a maneira como a avó o pôs a respirar quando nasceu e a explicação da cicatriz que tinha atrás da orelha esquerda, provocada pelos ferros utilizados no parto.
No ‘showbizz’ triunfou pelo seu valor ou graças à máfia?
Por ele próprio. Era sincero, uma pessoa com força e poder. Tinha amigos porque era italo-americano, filho de imigrantes. Eram pessoas com as mesmas origens nacionais. Os seus amigos eram do coração. Uma vez, em Hollywood, a cantora Sarah Vaughan teve problemas com brancos. Uns dias depois Sinatra fez uma festa em casa só para negros. Era anti-racista.
Acha que ele gostava mais de cantar, de sexo ou de beber?
De cantar. Julgo que cantava quando ia para a cama e também devia cantar quando estava bêbado.
Quantas vezes o viu?
Duas. A primeira em 1975, em Nova Iorque, numa sala da Broadway, onde cantou com a orquestra de Count Basie e Ella Fitzgerald, acabando todos juntos em palco. Aproveitei o facto de trabalhar na TAP e ter viagens de borla. Utilizei um dos voos a que tinha direito. Fui num dia e vim no outro. Foi um espectáculo fabuloso.
Foi a primeira vez que foi aos EUA ver um concerto?
Não. A primeira vez que estive nos Estados Unidos foi em 1966. Recentemente, vim de lá pela 50.ª vez. O fundamental é ver a cidade, mas o deslocar-me ao estrangeiro para ver grandes músicos interferiu decisivamente na minha vida. Quando estudava Economia no ISCEF [actual ISEG], aconteceu ter um exame final no mesmo dia em que o Ray Charles tocava pela primeira vez na Europa. Era em Paris e não fui ao exame. Fui vê-lo e a partir daí a minha vida mudou. Borrifei-me na Economia.
E também viu o Sinatra em Portugal, no Estádio das Antas?
Foi triste. Com a voz que tinha, estava ainda aproveitável, mas já não era o cantor brilhante que eu admirava. Preparei uma entrevista, inspirada pelo método bem sucedido usado por um jornalista italiano. Fui para o mesmo hotel dele, comprei um empregado da recepção que enfiou, debaixo da porta da suite dele, um envelope com uma carta de apresentação e algumas perguntas da entrevista em italiano. Falava pouco de música. Era mais sobre ele, aspectos da sua vida pessoal. Pensei que, falando-lhe de Portugal, de mistura com a Itália, emigração e de coisas que lhe interessavam, a ideia pegasse.
Foi bem sucedido?
Não, ele não viu a carta, nem sequer foi ao hotel que reservara. Depois do concerto, foi directo apanhar um avião e partiu para Espanha.
Houve outros com mais sorte?
Há, pelo menos, histórias muito bonitas como uma que ele contou e eu retomei nos textos da colectânea. O Sinatra fazia amiúde digressões especiais pela Europa, em que trazia o piano no avião e, sobretudo, apresentava-se em Itália. Uma vez actuou para crianças cegas e autorizou que um grupo delas fosse ao camarim falar com ele, no final do concerto. Foi, então, que uma delas lhe perguntou: 'De que cor é o vento, Sinatra?' É uma frase esmagadora. Já viu o que era se o vento tivesse cor?
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