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Síria: No coração da tempestade

A onda de revolta que desde o início de 2011 percorre o mundo árabe destronou regimes despóticos e mereceu louvores dos poderes ocidentais. No entanto, o facto de as primeiras eleições livres na Tunísia, na Líbia e no Egipto terem aberto a porta a governos islamitas forçou o repensar do fenómeno. Volvido um ano, as primaveras árabes estão ameaçadas por um Inverno imprevisível.

30 de dezembro de 2012 às 15:00

O mundo árabe entrou em convulsão no início de 2011. A onda de revoltas populares iniciada em Janeiro de 2011 na Tunísia derrubou a ditadura nesse país e levou a processos semelhantes na Líbia e no Egipto. Mas o esperançoso nome de Primavera Árabe com que foi baptizado esse despertar de uma cultura adormecida por dogmas religiosos cedo mereceu reticências.

A morte brutal de Kadhafi, na Líbia, e as convulsões após a deposição de Hosni Mubarak, no Egipto, deram um primeiro sinal de alarme. Os temores viram-se reforçados pela eleição de partidos islamitas, facto particularmente preocupante no Egipto. Com cerca de 90 milhões de habitantes, é o país mais populoso do mundo árabe e é agora dominado pela Irmandade Muçulmana, que procura implantar uma nova ditadura, desta feita de base religiosa.

Seria, contudo, a Síria a consumar a transformação da Primavera Árabe num Inverno interminável que ameaça os instáveis equilíbrios políticos e estratégicos no Médio Oriente.

Desencadeado em Março de 2011, o levantamento contra o despotismo de Bashar al-Assad escalou e tornou-se guerra civil. Os combates devastaram e despovoaram cidades e vilas e fizeram já mais de 50 mil mortos.

Segundo a ONU, há 1,2 milhões de deslocados internos aos quais se somam centenas de milhares de refugiados na Turquia, no Iraque e na Jordânia.

O drama humano vê-se agravado pelas disputas entre poderes regionais e mundiais. Turquia, Irão, Arábia Saudita, Israel, EUA e Rússia são alguns dos protagonistas de um drama com desfecho imprevisível.

O RASTILHO DA REVOLTA

O primeiro acto teve lugar a 26 de Janeiro de 2011. Imitando o tunisino Mohamed Bouazizi, que em Dezembro de 2010 se imolou num mercado de Túnis e acendeu o rastilho da revolta árabe, Hasan Ali Akleh deu o sinal de partida da rebelião contra o despotismo dos Assad.

O líder actual, Bashar al-Assad, chegou ao poder em 2000, após a morte do pai, Hafez al-Assad, que inaugurou a ‘dinastia' familiar ao tomar o poder em 1970. Teve início aí um regime de terror do partido Baath e da minoria alauita, ramo minoritário do Islão xiita ao qual pertence o clã Assad. A maioria sunita síria foi a vítima primordial. Um dos símbolos da brutalidade do regime é o massacre de 1982, em Hama. O pai Assad matou na cidade entre 20 a 40 mil pessoas para reprimir uma revolta liderada pela Irmandade Muçulmana.

Ante nova rebelião, Bashar começou por dar sinais de abertura. Suspendeu 48 anos de um estado de emergência que legitimava a violência contra a população, anunciou novas liberdades e o combate à corrupção. Mas rapidamente ordenou detenções em massa e a repressão de manifestações pacíficas.

Imitando o pai, Bashar fez, no passado 6 de Junho, novo massacre junto a Hama e repetiu a receita em dezenas de outras localidades de maioria sunita. A sucessão dos massacres durante mais de um ano reduziu a nada a revolta pacífica, mas engrossou a resistência armada. Aos rebeldes uniram-se cada vez mais desertores das Forças Armadas do regime, levando consigo armas e viaturas.

EFEITO DE CONTÁGIO

A guerra na Síria fez emergir as divisões étnicas perenes do país, que para alguns se tornou um espelho do Iraque pós-Saddam. Além do fosso entre a maioria sunita e a minoria alauita-xiita, as batalhas em curso revelam outros ódios. Exemplo disso são os massacres de cristãos, perpetrados pelo regime e pela oposição.

O conflito torna-se especialmente preocupante por cruzar fronteiras, pois, a par da crise dos refugiados, está a causar outros contágios. No Iraque, por exemplo, aumentou a tensão entre o governo de Nuri al-Maliki, representante da minoria xiita, e a maioria sunita. Esta, favorável aos rebeldes sírios, exporta combatentes enquanto Maliki abre portas ao Irão (xiita). Aliás, o espaço aéreo do Iraque é usado pelo Irão e pela Rússia para fornecer armas a Assad.

Estas alianças levaram os EUA a recentrar atenções no Iraque, que o presidente Barack Obama abandonara em favor do combate à al-Qaeda e também aos taliban no Afeganistão e no Paquistão. Para seduzir Maliki, os EUA prometem armas e missões de apoio e treino, mas o presidente iraquiano faz jogo duplo e negoceia com a Rússia arsenais mais económicos e expedidos com maior rapidez.

XADREZ POLÍTICO

Entre os outros actores cruciais do xadrez político e geoestratégico centrado na Síria destaca--se a Arábia Saudita, país interessado em limitar a influência síria e iraniana no Líbano, onde o Hezbollah (xiita) é um poder paralelo ao do Estado.

Israel, por seu lado, teme a mudança de regime, pois a dinastia Assad, apesar da retórica agressiva, quase nada fez contra o Estado Judaico desde a guerra de 1973. Com Bashar no poder, tinha a segurança de um líder avesso a aventuras bélicas.

Os muitos interessados em moldar os destinos da Síria deveriam, no entanto, ter em mente as palavras de T. E. Lawrence. No início do século XX, quando as nações árabes se rebelaram contra o Império Otomano, alertou: os resultados de qualquer rebelião são incertos na Síria, um "país pautado por uma agitação incansável e uma revolta incessante", pois encara qualquer governo, mesmo autóctone, "como se fosse imposto por um poder estrangeiro".

MEDIAÇÃO DE PAZ ACUMULA FRACASSOS

ONU e Liga Árabe lideraram esforços de paz na Síria, paralelos e rivais, mas, para já, idênticos no resultado: o fracasso. Árabes retiraram observadores em Janeiro e ONU em Agosto.

OS AMIGOS EM PEQUIM E MOSCOVO

Apoiantes da Síria com direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, Rússia e China têm bloqueado repetidamente resoluções favoráveis a mais pressão sobre Assad.

OPOSIÇÃO A ASSAD NÃO TEM UM SÓ ROSTO

Os rebeldes sírios não formam uma frente unida e algumas facções preocupam. É o caso da Frente al-Nusra, mais radical do que a Irmandade Muçulmana e possivelmente ligada à al-Qaeda.

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